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"Fim" do Ghost Recon Breakpoint e a fragilidade dos NFTs

Após usar o Ghost Recon: Breakpoint como um experimento para os NFTs e título ser descontinuado, Ubisoft joga mais dúvida sobre esse tipo de monetização

18 semanas atrás

Pouco mais de dois anos após o lançamento do Tom Clancy's Ghost Recon: Breakpoint, a Ubisoft anunciou que em março o jogo recebeu sua última atualização. Mesmo com a confirmação de que os servidores permanecerão funcionando, isso significa que a empresa desistiu do título e assim ele leva consigo uma controversa aposta da empresa, os NFTs.

Ghost Recon Breakpoint

Nem os NFTs conseguiram carregar o (Crédito: Divulgação/Ubisoft)

Chamados pela Ubisoft de Quartz Digits, os token não-fungíveis chegaram ao Ghost Recon: Breakpoint no início de dezembro de 2021 e a recepção por parte do público foi péssima. Até o momento em que esta matéria estava sendo escrita, o vídeo que anunciava a novidade havia recebido mais de 45 mil reações negativas, numa clara demonstração de que o público não estava satisfeito com a tentativa dos franceses de lucrar com a venda desses itens.

Numa tentativa de tentar amenizar a situação (ou simplesmente sendo incapazes de reconhecer o erro), o Vice-Presidente do Laboratório de Inovações Estratégicas da Ubisoft, Nicolas Pouard, chegou a dizer que o público não entendeu a proposta. Segundo ele, “os gamers não pegaram o que um mercado secundário pode trazer para eles. Por enquanto, devido à atual situação e o contexto dos NFTs, os gamers realmente acreditam que, primeiro, eles destruirão o planeta; e segundo, são apenas uma ferramenta de especulação.

A empresa ainda teria “premiado” alguns membros da equipe com um NFT em forma de boné para ser usado no Ghost Recon: Breakpoint, o que também não caiu muito bem perante a opinião pública.

Para muitas pessoas, o conceito de sermos os proprietários de algo que só existe no mundo virtual nunca convenceu e o fato dos itens disponíveis como NFT para o jogo da Ubisoft não serem realmente únicos ajudou a reforçar esta ideia. Sim, cada Digit disponível no Ghost Recon: Breakpoint possui um número de série atrelado a ele, mas com centenas de unidades disponíveis para cada roupa ou arma, eles pareciam mais uma edição limitada de um DLC, algo talvez até pior que a famigerada armadura dourada para o cavalo do The Elder Scrolls IV: Oblivion.

Vai uma máscara "estilosa" aí, meu patrão? (Crédito: Divulgação/Ubisoft)

Mesmo o fato de os jogadores precisarem atender a certos requisitos para ganhar seus Digits não ajudou a aumentar o interesse e um dos mercados que comercializa esses NFTs, o Objkt, inclusive já suspendeu as negociações. Diante desta situação, restam muito mais perguntas do que respostas: o que fazer com esses itens? Com o jogo estando praticamente morto, quem vai querer comprar algo que (pelo menos por enquanto) não pode ser aproveitado em outros títulos?

No caso de quem recebeu os itens gratuitamente, a sensação de perda obviamente será menor, mas e aqueles que pagaram pelos NFTs? Com o mercando devendo funcionar parecido com a bolsa de valores, com a raridade de um item fazendo ele se tornar mais valioso, como essas pessoas poderão reaver seus investimentos, já que possivelmente muitas estão querendo se desfazer de seus “bens”?

Verdade seja dita, apesar de toda a incerteza em relação ao futuro dos Digits, ainda há aqueles investindo em suas aquisições. Hoje mesmo (07/04) alguém pagou 85 Tezos (cerca de US$ 285 ou R$ 1.340) por uma calça, um item meramente cosmético e que nem sabemos até quando poderá continuar sendo utilizado, seja no Ghost Recon: Breakpoint, seja num eventual outro título da Ubisoft — descentralização esta que, para o Cofundador da Vlambeer, não é uma tarefa viável.

Com o último Quartz Digits tendo chegado ao jogo em 17 de março passado, portanto apenas três meses após o início do experimento com NFTs, a Ubisoft deixou uma mensagem àqueles que adquiriram um desses itens, dizendo que “você possui um pedaço do jogo e deixou sua marca na história dele.” Além disso, a editora fez questão de garantir não ter desistido deste modelo de monetização. Em nota enviada à imprensa, ela afirmou:

Fiquem atentos para mais atualizações com recursos para a plataforma e lançamentos futuros chegando com outros jogos!

Na Ubisoft, nós continuamente aprendemos ao tentar coisas novas e encorajamos essa atitude nas nossas equipes. Ser os primeiros a aproveitar tendências e tecnologia é mais do que essencial para a estratégia da Ubisoft; é parte do nosso DNA. O Ubisoft Quartz reflete essa ambição e representa uma incrível oportunidade de aprender com a nossa comunidade sobre o que a descentralização pode trazer aos games. [...] agora procuraremos continuar nossa exploração ao melhorar a proposta de valor da plataforma com novos projetos e recursos.

Crédito: Divulgação/Ubisoft

Mesmo sabendo que ninguém foi obrigado a comprar um desses NFTs e sem que eles tenham impactado a experiência dos jogadores, é difícil sair em defesa da Ubisoft. Da desculpa que os consumidores não entenderam a proposta até a ideia de as pessoas garantirem um pedaço da história do Ghost Recon: Breakpoint apenas por ter um colete, um par de luvas ou um boné com um número de série atrelado a ele, todo o processo foi muito malconduzido, um desastre quando se trata do marketing.

Eu até gostei do Breakpoint e acredito que é preciso reconhecer que a empresa se dedicou a torná-lo melhor com o passar do tempo. Contudo, resta saber se a editora francesa conseguirá aprender com os erros cometidos em relação a ele e como os NFTs serão utilizados nos próximos projetos. O problema é que a julgar pela declaração de um funcionário ouvido pelo Kotaku e preferiu não se identificar, o temor é que dentro de três ou quatro anos eles estejam trabalhando numa casa de leilões. Eu ainda acrescentaria que, se isso realmente acontecer, será uma casa de leilões para itens imaginários.

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