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NASA e Roscosmos se estranham por buraco na cápsula Soyuz

Buraco em cápsula Soyuz levou Roscosmos a transformar uma astronauta da NASA em bode expiatório, com ameaça de processo criminal

37 semanas atrás

Um buraco é o pivô de uma rusga entre a NASA e a Roscosmos (uma das várias, mas enfim) que começou em 2018, quando a missão 57 da Estação Espacial Internacional (ISS) foi realizada. O tal orifício apareceu na espaçonave quando ela acoplou à estação, no que a agência espacial russa afirma que ele foi aberto intencionalmente.

Agora, a Roscosmos afirma ter encerrado uma investigação independente sobre as origens do buraco, e que os resultados "foram encaminhados às autoridades legais", implicando que a Rússia pretende mover um processo criminal contra uma astronauta norte-americana, apontada como a suposta culpada.

Soyuz MS-09 acoplada ao módulo Rassvet, na parte russa da ISS (Crédito: Divulgação/NASA)

Soyuz MS-09 acoplada ao módulo Rassvet, na parte russa da ISS (Crédito: Divulgação/NASA)

No dia 29 de agosto de 2018, o controle da missão da NASA detectou um vazamento de ar na estação, que foi rastreado até um pequeno orifício de 2 mm de diâmetro, presente no módulo orbital da Soyuz MS-09, que caso tivesse passado em branco, causaria uma despressurização total da ISS em duas semanas.

Na ocasião, a tripulação da estação tapou o buraco temporariamente com fita kapton, até que no dia 31, o orifício foi devidamente selado com a boa e velha epóxi, que resolve qualquer parada, até no espaço. A Soyuz retornou para a Terra normalmente no dia 20 de dezembro de 2018, levando a bordo o cosmonauta russo Sergey Prokopyev, e os astronautas Alexander Gerst (Alemanha) e Serena Auñón-Chancellor (EUA).

A NASA e a Roscosmos vêm investigando o que causou o buraco desde então. A possibilidade de um impacto de um micrometeorito foi descartada de cara, enquanto que vários veículos russos (do tempo em que eles ainda podiam falar do espaço) levantaram a hipótese, considerada a mais provável, de que ele apareceu por um defeito já presente na Soyuz, causado durante a construção do módulo, ou durante a fase de testes.

A agência russa, por sua vez, não só nunca admitiu que a culpa poderia ser deles, como vem desde então tentando jogar a culpa na NASA, mais especificamente em Auñón-Chancellor, que é também médica e engenheira.

O "buraco da discórdia" que apareceu na Soyuz MS-09 (Crédito: Reprodução/NASA TV)

O "buraco da discórdia" que apareceu na Soyuz MS-09 (Crédito: Reprodução/NASA TV)

Em setembro de 2018, o diretor da Roscosmos Dmitry Rogozin afirmou que o buraco na Soyuz foi feito de forma deliberada por alguém, e ao menos no início, levantou a possibilidade de que algum técnico em solo seria o responsável. Na época, ele afirmou que "nós (a agência) descobriremos o nome completo do culpado", não importando quanto tempo levasse.

Uma semana depois, começaram a circular rumores dentro do governo russo, que foram espalhadas aos quatro ventos pelas agências de notícias controladas pelo Estado ou alinhadas com Moscou, de que o responsável pelo buraco seria um dos astronautas norte-americanos: Andrew Feustel e Richard R. Arnold, da missão 56, ou Auñón-Chancellor, da 57. Não demorou muito para que os dedos fossem apontados para a última, talvez por ser a única mulher na estação entre junho e dezembro de 2018.

O que se seguiu foi um festival de acusações estapafúrdias. Em agosto de 2021, a agência de notícias estatal TASS publicou um artigo acusando Auñón-Chancellor de ter aberto o buraco na Soyuz, que seria uma tentativa de apressar sua volta à Terra, após "sofrer uma crise psicológica aguda," por conta de um quadro de trombose venal durante sua estadia na ISS. De fato, um artigo publicado por ela em janeiro de 2020 trata de um caso tratado a bordo, mas o paciente não foi revelado.

A NASA e o diretor da agência Bill Nelson rapidamente saíram em defesa de Auñón-Chancellor e desmentiram as acusações levantadas no artigo.

Agora a Roscosmos declarou, em nota publicada no site RIA Novosti, que a investigação acerca das origens do buraco foram concluídas, e os resultados foram repassados às autoridades legais da Rússia, o que levanta a possibilidade de que um processo criminal seja aberto contra a astronauta norte-americana.

Ao mesmo tempo, os veículos de imprensa locais começaram a divulgar outro rumor envolvendo Auñón-Chancellor, ainda mais absurdo, de que ela teria aberto o buraco na Soyuz devido ao "estresse causado por um relacionamento romântico mal sucedido com outro membro da tripulação", afinal, mulher.

Serena Auñón-Chancellor a bordo da ISS em 2018; astronauta norte-americana virou o bode expiatório da Roscosmos (Crédito: Divulgação/NASA)

Serena Auñón-Chancellor a bordo da ISS em 2018; astronauta norte-americana virou o bode expiatório da Roscosmos (Crédito: Divulgação/NASA)

A NASA vê os ataques como provocações baratas, falsas e sem credibilidade alguma. Ao site Ars Technica, Bill Nelson novamente desmentiu os mais recentes rumores contra Auñón-Chancellor, e disse que ele, e por extensão a agência espacial norte-americana, "defenderão todos os seus astronautas".

A bem da verdade, a Rússia também sabe que as acusações são falsas. Desde o momento em que o vazamento de ar foi detectado e rastreado até o buraco na Soyuz, o comando da missão em Houston sabia em que lugar da ISS estavam todos os seis tripulantes da missão 56/57, e nenhum dos três americanos, muito menos Auñón-Chancellor, estavam sequer perto do módulo. Mais importante, esses dados foram verificados e repassados à Roscosmos, que os têm em mãos.

O que acontece aqui, é teatro. A agência espacial russa sabe muito bem que a culpa pelo buraco vem dela própria, e mesmo que um processo seja aberto, ele não causará maiores problemas à Auñón-Chancellor, mas a Roscosmos não pode em hipótese alguma admitir que errou, porque isso desagradaria o presidente Vladimir Putin. Transformar uma astronauta americana em bode expiatório é uma distração e uma provocação contra os malditos ianques, tanto quanto foi o recente abate de um satélite antigo com um míssil, que causou problemas sérios à ISS.

As relações entre Rússia e EUA referentes ao espaço não andam nada boas há tempos, no que inclui o lançamento da cápsula Crew Dragon da SpaceX, que foi desdenhada por Rogozin, principalmente por ser uma ameaça ao programa de aluguel de assentos nas Soyuz. Mais recentemente, o diretor criticou restrições impostas à montadora das cápsulas russas, e a Roscosmos e o governo russo se recusaram a participar do Programa Artemis, assim como a China, no que os dois países poderão colaborar em uma base lunar própria.

Por fim, a Rússia não mais investirá na ISS, e ameaça se retirar do consórcio em 2025, passando a alugar o espaço do módulo russo para uso, em parte para financiar sua própria futura estação espacial; a China, que já possui módulos em órbita, pretende concluir a estação Tiangong-3 em breve.

No mais, há um encontro pessoal entre Bill Nelson e Dmitry Rogozin programado para 2022, em que os ataques a Auñón-Chancellor serão um dos assuntos discutidos, entre os vários a serem tratados entre os diretores das agências russa e norte-americana.

Fonte: RIA Novosti (em russo), Ars Technica

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