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Tudo aponta: queda do Boeing 737 foi causada por míssil iraniano

A queda do Boeing 737 ucraniano no Irã já deixou de ser acidente, as provas todas apontam para um abate, cruel e implacável, mas será que o Irã irá assumir?

10/01/2020 às 20:37

[ATUALIZADO]

Embora o governo do Irã insista que foi apenas um acidente aéreo, a queda do Boeing 737 da Ukraine International Airlines em Teerã no dia 8 de janeiro de 2020 está se revelando uma trágica comedia de erros, um abate indesculpável e, o pior, apenas mais um em uma longa lista de incidentes semelhantes.

O evento ocorreu pouco tempo depois do Irã ter lançado um ataque retaliatório, disparando entre 17 e 22 mísseis de médio alcance contra instalações iraquianas abrigando tropas aliadas, causando danos materiais mas, sem nenhuma baixa.

O mundo esperava sem respirar a resposta dos Estados Unidos, visto que Donald Trump havia dito que iria retaliar de forma desproporcional caso alguma vida americana fosse perdida. Antes disso bombardeiros B-52 haviam sido redirecionados para a base de Diego Garcia, no Oceano Índico, um dia antes a Força Aérea fez uma demonstração decolando da Base Aérea de Hill, em Utah, nada menos que 52 caças F-35A em menos de dez minutos.

Essa graça não saiu barato, ainda mais com a hora de voo do F-35 custando US$ 44 mil.

Durante os dias que antecederam o ataque iraniano, a região toda estava em alerta, embora os americanos não tenham derrubado os mísseis, pois suas baterias de Patriots estavam alocadas em outros lugares - leia-se Arábia Saudita.

No Irã a Guarda Revolucionária colocou todas as defesas em alerta máximo, incluindo as unidades antiaéreas em Teerã, mas o tráfego aéreo continuou normal, tanto que antes no então acidente aéreo com o voo PS752, pelo menos 13 aviões decolaram normalmente do Aeroporto Internacional de Teerã:

O Boeing 737 decolou às 06:12:47 (hora local) com destino a Kiev e seguiu normalmente, até que menos de três minutos depois, quando estava a 2.416 metros de altitude e a 509 km/h todos os sinais de telemetria foram interrompidos, eram 06:14:45.

O sinal ADS-B, transmitido pelo avião é o que passa as informações que a gente vê em aplicativos como o Flight Radar, e nesse caso três estações independentes identificaram o corte da transmissão, ao mesmo tempo. Algo muito sério aconteceu. O PS752 se desviou 20 graus de curso, começando uma descida que terminou em um choque com o chão, a 15 km da cabeceira do aeroporto Internacional Iman Khomeini.

Populares (adoro a expressão "populares") relatam ter ouvido dois estrondos vindo da guarnição militar em Parandak, e inevitavelmente (viva os tempos modernos) um vídeo apareceu.

Nele vemos um míssil subindo em direção a um alvo, detonando, o alvo permanece iluminado por alguns segundos, seguindo em sua trajetória. Aqui em outro ângulo, com o avião descendo já avariado e irrompendo em chamas:

Foram lançados dois mísseis, os vídeos só mostram o segundo impacto. Esse é o procedimento para o sistema antiaéreo 9K330 Tor, ou SA-15 Gauntlet, na designação da OTAN. Por ser originalmente pouco confiável, os russos determinaram que era mais seguro lançar dois mísseis de cada vez.

O SA-15 é um veículo autônomo de 34 toneladas introduzido em 1975, ele tem um sistema de radar próprio e lançadores para oito mísseis 9K331, com alcance de até 12 km, com teto de 6 km e velocidade de Mach 2,8.

O 9K331 carrega uma ogiva de alto-explosivo de 15 kg repleta de esferas de aço, explodindo por proximidade e salpicando o alvo com terríveis e letais projéteis, mas ele foi desenvolvido para alvos bem menores que um avião comercial, por isso o 737 resistiu ao primeiro tiro.

Aqui um SA-15 em funcionamento:

Assim que o avião caiu, matando as 176 pessoas a bordo, o povão chegou junto pra ver o local do acidente, e sem que o governo pudesse fazer nada, fotos começaram a vazar, inclusive isto:

Esse conjunto de sensores e aletas de navegação lembram um pouquinho as mesmas partes de um míssil 9K331:

Irã: tem culpa eu?

Minutos, literalmente minutos após o acidente a autoridade aeroportuária declarou que o acidente foi um acidente, superaquecimento do motor. Deve ser problema na cebolinha, eu tinha um Uno com esse problema. Só não explodia. O que é uma pena, ficou com a ex, mas eu divago...

Nas horas seguintes o Irã repetiu a história de acidente, e afirmou que não iria entregar as caixas pretas para a Boeing, nem deixaria que a empresa participasse das investigações.

Inexplicavelmente a Embaixada da Ucrânia em Teerã também emitiu um comunicado falando que a queda do Boeing 737 foi um acidente.

Como todos sabemos é extremamente irresponsável especular sobre causas de um acidente aéreo, principalmente nas primeiras horas, tanto que nem Washington se manifestou, Estados Unidos, Canadá (país de origem de boa parte dos passageiros) Reino Unido e outros assumiram uma postura de muita hora nessa calma.

A internet, claro, começou a investigar e os vídeos mostrados apareceram, foi feita geolocalização do ponto de origem das imagens, e o Irã cuidou de se enrolar.

Sabe quando o Lito sobe nas tamancas se alguém espirra no local de um acidente, pois pode alterar as provas e dificultar o trabalho de investigação? Pois é. Nossos amigos iranianos passaram um TRATOR na área aonde o avião caiu.

Calma que melhora

Lembra que o Irã disse que não iria mandar as caixas-pretas pra Boeing? Pois é. Elas foram encontradas e convenientemente o Irã disse que elas estavam danificadas e os dados podem ter se perdido.

Nessa altura o terreno já estava terraplanado, os destroços recolhidos para destino ignorado, e a população -que tinha acesso livre ao local- recolhia como souvenires as peças que ainda encontravam. Nesse momento o Irã disse que oficiais da Ucrânia eram bem-vindos para participar das investigações, e que a Boeing poderia vir também.

Aí, do nada, o Irã resolveu que ele mesmo iria investigar o acidente, e disse que um relatório sairia em dois anos. Detalhe, o Irã não tem equipamentos para ler o conteúdo dos gravadores de voo.

Enquanto isso começaram a vazar informações dos EUA, e a Newsweek, com base em fontes confiáveis, chutou o pau da barraca:

Os Estados Unidos, Canadá e Iraque afirmaram que com fontes de inteligência diversas, identificaram o radar de alvo dos mísseis iranianos e os clarões dos dois lançamentos. Não há dúvidas e o cenário mais provável é que o equivalente a estagiário da Guarda Revolucionária tenha se assustado com o avião ucraniano, e na falta de uma cadeia de comando rígida, acabou por disparar os mísseis.

Uma das (des)vantagens do SA-15 é que ele pode ser extremamente automatizado, selecionando e engajando vários alvos simultaneamente, alguns botões errados, uma chave em AUTO ao invés de SAFE, e bye-bye.

Teerã como todo bom governo, negou ter conhecimento e avisou que amanhã divulgaria a causa da queda do Boeing 737, em um imenso CHUPA NTSB, CHUPA CENIPA, quem precisa de um ano pra investigar um acidente? Eles farão em 24 horas, mesmo que esgotem o estoque de pizza e café da cidade.

Ninguém está comprando a história e até Justin Trudeau, 1º Ministro do Canadá, afirmou que as provas indicam que o avião foi derrubado pelo Irã. Ainda é cedo para determinar a indenização que o Canadá pagará. E é no Canadá que o bicho está pegando. Foram 63 mortos, todos membros da comunidade iraniana local, uma população gente boa, tranquila, totalmente integrada com a cultura canadense, a maioria voltando depois de passar as festas de final de ano com parentes no Irã.

A comunidade está com sangue no olho, cansaram da cara de cachorro chorão do Trudeau, e exigem uma atitude mais enérgica.

Qual será o resultado disso tudo? Provavelmente não vai dar em nada. Com muita, muita sorte o Canadá conseguirá uma indenização qualquer, mas o Irã NUNCA irá admitir a hagada. Politicamente seria suicídio assumir que você explodiu um avião com 176 de seus próprios cidadãos.

A maior de todas as ironias foi que dois dias antes da queda do Boeing 737, derrubado por um míssil iraniano, Hassan Rouhani se meteu num bate-boca no Twitter com Donald Trump. O Laranjão avisou ao Irã que caso fosse atacado, iria responder atacando 52 alvos iranianos, número escolhido em resposta aos 52 reféns americanos que foram capturados durante a revolução islâmica.

Rouhani respondeu com o seguinte tweet, que envelheceu feito leite:

Ele diz que aqueles que se referem ao número 52 também devem se lembrar do número 290, com a hashtag #IR665 e termina com "Nunca ameacem a nação do Irã".

A referência é o voo 665 da Iran Air, que devido a uma sucessão de desinformações e decisões erradas, foi abatido pelo destróier USS Vincennes em 1988, matando as 290 pessoas a bordo.

Seria uma boa resposta, se dois dias depois o Irã não fizesse pior, derrubando ELES MESMOS um avião cheio de inocentes.

Infelizmente nenhum dos casos foi inédito. A lista de incidentes semelhantes é substancial, mas é sexta-feira e eu tenho garçons pra sustentar, além de merecerem um artigo inteiro, mas como preview:

  • 2014 - Malaysia Airlines voo 17
  • 2001 - Siberia Airlines voo 1812
  • 1988 - Iran Air voo 655
  • 1983 - Korean Air Lines voo 007

[ATUALIZAÇÃO]

Para surpresa de basicamente todo mundo o Irã mudou o discurso e admitiu publicamente ter abatido o Boeing, com direito a pedido de desculpas, mensagens do comandante da força aérea "eu queria estar morto" (algo me diz que ele será atendido em breve) e reforço na linha de que foi um disparo não-intencional, que houve confusão e falta de informações.

Bem, é o mínimo que se espera, e já coloca o Irã muitos pontos acima da Rússia e dos rebeldes apoiados por ela, que nunca, mesmo com tonelada de provas, admitiram ter abatido o vôo MH17 em 2014.

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