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O incrivelmente irresponsável programa espacial chinês

O programa espacial chinês é muito bem-sucedido, mas por outro lado é extremamente irresponsável, sem a menor preocupação com a segurança da população

25/11/2019 às 5:08

O programa espacial chinês é algo sui generis, e nem estou falando da revista, que combina mais com o foguete do Jeff Bezos. Eles fazem coisas inacreditáveis, às vezes no mau sentido e demonstram todas as vantagens de uma ditadura totalitária.

No dia 24 de Janeiro de 1978, um satélite russo reentrou na atmosfera terrestre. Era o Kosmos 954, satélite-espião de 3,8 toneladas. Ele havia sido lançado pouco tempo antes, 18 de setembro de 1977, mas uma série de defeitos o deixou descontrolado.

O Kosmos 954 era um RORSAT, radar de reconhecimento oceânico, projetado para rastrear com precisão a movimentação de navios inimigos. Ele usa um radar poderosíssimo, e painéis solares não dariam conta, mas ele tem energia de sobra, cortesia de um reator nuclear. De verdade, não aqueles geradores térmicos como o MMRTG da Curiosity.

Carregado com 50Kg de Urânio-235, o reator dos RORSATs não é brinquedo, tanto que quando chegam no fim de sua vida útil, antes de reentrar na atmosfera um sistema de ejeção lança o reator nuclear do satélite em uma órbita bem alta entre 800Km e 900km, para que só caia na Terra em alguns milhares de anos.

O satélite em si tinha vida útil de seis meses, por estar em uma órbita bem baixa, menos de 300Km.

No caso do Kosmos 954, por causa do defeito não só os russos não tinham controle sobre o ponto de  reentrada do satélite, como o sistema de ejeção do núcleo do reator não funcionou.

Os americanos, que estavam acompanhando o satélite, entraram em contato com os russos dia 12 de Janeiro de 1978, e receberam resposta dia 14, o que é extremamente ágil e incomum para a burocracia estatal comunista da então União Soviética. O povo de Moscou estava legitimamente preocupado.

No dia 24, o satélite reentrou na atmosfera sobre o Canadá se despedaçando, como previsto.

A reentrada ocorreu no norte do país, na região do Grande Lado Dos Escravos que, calma, tem esse nome por causa da rivalidade entre os índios Cree e os Dene, que costumavam ser capturados e escravizados e eram chamados de "Slavey" pelos Cree, mas eles que são brancos que se entendam.

Os russos juraram que o satélite havia se desintegrado, mas os canadenses logo descobriram que destroços foram espalhados por uma faixa de 600Km.

Foi organizada uma busca por mais de 124 mil quilômetros quadrados, que resultou em 12 pedaços de tamanho razoável recuperados. 10 deles radioativos, um deles emitindo 500 roentgens por hora, o que não é nada bom, e muito terrível, mas podia ser pior. Só 1% do combustível nuclear do Kosmos 954 chegou ao solo antes de se espalhar pela atmosfera até atingir concentrações  homeopáticas.

Como os russos eram signatários de um acordo internacional de responsabilidade espacial, o Canadá mandou a conta da operação de limpeza, CAD$ 6 milhões. Os russos, como bons mãos de vaca, só pagaram CAD$ 3 milhões.

Onde entra o programa espacial chinês?

Calma que chegaremos lá. Por enquanto, imagine se o Kosmos 954 tivesse caído em um país com população maior que 15 pessoas. Zoeira à parte, ele caiu a menos de 700Km de Edmonton, e em termos orbitais uma alteração mínima e poderia ter atingido Nova York, ou outro grande centro.

For sorte? Sim, junto com o detalhe da Terra ser um planeta bem grande, satélites serem pequenos e humanos ocuparem bem menos espaço geográfico do que imaginamos. Isso tanto é verdade que até hoje ninguém foi morto por lixo espacial, mas o programa espacial chinês está trabalhando firme para remediar isso.

Quase todos os países lançam seus foguetes de bases na costa, a grande exceção são os russos, por pura inviabilidade geográfica, as regiões na costa ou são em áreas muito remotas ou o clima na maior parte do ano não é compatível com lançamentos.

Já a China optou por bases no interior de seu território por pura paranoia e estratégia, quanto mais no interior mais complicado de espiões estrangeiros bisbilhotarem. Por isso, as bases em Taiyuan, Jiuquan e Xichang ficam bem longe do mar.

O problema é que, com o crescimento da população, essas áreas remotas deixaram de ser remotas. Embora avisados pelos cientistas, os militares simplesmente ignoraram o "problema" de concentrações populacionais no caminho dos destroços gerados em todo lançamento, como foguetes auxiliares e primeiros estágios.

Agora quase todo lançamento chinês cai em áreas populadas:

Essas imagens, a seguir, são de um lançamento semana passada na base de Xichang:

Casas foram atingidas, destruídas e a fumaça laranja é causada pelo combustível e oxidante dos motores auxiliares, no caso dos foguetes Longa Marcha, Dimetilhidrazina (H2NN(CH3)2) e Tetróxido de Dinitrogênio (N2O4), substâncias que você definitivamente não quer perto de sua casa. O efeito mais light é pneumonia ou edema, no caso da Dimetilhidrazina, é câncer mesmo.

A China diz estar planejando mudar parte dos lançamentos pra base na ilha de Wenchang, mas a verdade é que eles ainda continuam paranoicos com segurança, e os militares nunca toparão eliminar as bases existentes.

Agora imagine isso acontecendo em qualquer outro país do mundo!

É basicamente inconcebível a NASA lançar um foguete, o primeiro estágio destruir uma casa em Orlando e ficar tudo por isso mesmo, mas a China faz o que ela quiser. É possível inclusive que já tenha morrido gente, mas tudo tenha sido acobertado.

O desrespeito da China com a segurança da própria população é assustador, e quando uma tragédia de verdade acontecer (não é se, é quando) vai refletir de forma ruim para todo mundo, e a imprensa não vai diferenciar quem se preocupa com segurança e a China, que não está nem aí para Hora do Brasil.

E o pior: não há absolutamente nada que alguém possa fazer.

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