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Ginger Baker: um tributo ao grande baterista

Nos deixou aos 80 anos o baterista Ginger Baker, que não só mudou a história do rock com o Cream, mas também era um mestre em outros estilos como jazz

09/10/2019 às 14:51

Morreu no domingo passado (6) aos 80 anos de idade Ginger Baker, o baterista que fundou o Cream nos anos 60 ao lado de Eric Clapton e Jack Bruce, fato que o alçou ao posto de uma verdadeira lenda da história do rock. Depois do fim do Cream, ainda no final dos anos 60, ele e Eric Clapton formaram uma super-banda ao lado de Steve Winwood, o Blind Faith, e suas duas bandas contam com algumas das minhas músicas favoritas de todos os tempos.

Ginger nos tempos de Cream

Apesar de ter ficado famoso como um baterista de Rock n'Roll, Ginger Baker não gostava de se definir ou se prender a gêneros musicais, e em sua carreira gravou em vários estilos, com músicos tão diferentes quanto Fela Kuti e a banda Hawkwind. Ao longo de sua vida, o baterista também criou suas próprias bandas, Ginger Baker's Air Force, Baker Gurvitz Army, Ginger Baker Trio e Ginger Baker Jazz Confusion, nas quais mostrou todo o seu talento e versatilidade.

Ginger

Peter Edward Baker (que ganhou o apelido Ginger pelo seu cabelo ruivo) conheceu Jack Bruce quando ambos tocavam na The Graham Bond Organisation. Desde o começo, a relação entre os dois não era das melhores, mas mesmo assim Eric Clapton conseguiu que os três se juntassem pra fazer história com o Cream.

O estilo de Ginger Baker teve uma profunda influência em vários bateristas que vieram depois dele, como os incríveis John Bonham (Led Zeppelin) e Keith Moon (The Who), além de outros mais jovens como Neil Peart, o mestre por trás das baquetas do Rush. Ouça abaixo a pérola Sunshine of Your Love, música do segundo disco da banda, Disraeli Gears de 1967.

Tributos a um dos grandes mestres da bateria

A família de Baker postou um tweet agradecendo o carinho dos fãs nas últimas semanas desde que ele foi internado, avisando que ele tinha falecido de forma tranquila no hospital. O post gerou reações imediatas com mensagens sentidas de muita gente boa, incluindo Mick Jagger, Paul McCartney, Flea e a banda Hawkwind, com a qual Ginger Baker gravou no começo dos anos 80.

Os herdeiros de Jack Bruce (que morreu em 2014), postaram um belo texto, que cita "a relação de amor e ódio entre os dois, que Ginger era como um irmão mais velho de Jack, e que a química entre os dois era verdadeiramente espetacular", algo que eu concordo e muito. Steve Winwood, seu parceiro de Blind Faith, declarou que Ginger tinha um "coração de ouro".

Entre os que fizeram tributos a Ginger também estavam bateristas incríveis de várias gerações, como Ringo Starr, que disse que ele era "incrível e muito inovador". O já citado Neil Peart, que declarou: "não havia contexto para ele, não havia arquétipo. Ele era o arquétipo".

João Barone, baterista do Paralamas, postou um cover do Cream em homenagem a Baker, tocado na passagem de som do show da banda no Rock in Rio. Barone chamou o mestre de "Monolito Musical", algo que achei bem apropriado, pois Baker era uma como uma instituição em seu instrumento.

Quando Brian May estava procurando um baterista, ele colocou em um anúncio que procurava alguém que pudesse tocar "como Keith Moon, Mitch Mitchell e Ginger Baker", e quem respondeu foi Roger Taylor, que ficou com a vaga. Todos estes tributos não aconteceram por acaso. A expertise de Ginger Baker em seu instrumento foi de grande influência em toda uma nova geração de bateristas.

Stewart Copeland, o baterista do The Police, também era amigo e parceiro de Ginger Baker. Os dois podem ser vistos tocando juntos no Sacred Grove, estúdio de Copeland. O vídeo abaixo, apesar de curtinho, é altamente recomendável.

As idas e vindas de Ginger Baker

A influência de Ginger Baker começou a ser notada com a música Toad, gravada no primeiro disco da banda Fresh Cream lançado em 1967. Com uma pequena introdução e final com a banda, a música é praticamente um solo de bateria. Esta música marcou o primeiro solo de bateria gravado em um disco na história do rock, e teve uma grande influência em muitos bateristas que vieram depois.

Toad é uma evolução de Camels and Elephants, música que ele tocava ao vivo com o Graham Bond Organisation, ainda foi regravada ao vivo em uma versão ainda maior em Wheels of Fire, terceiro disco do Cream.

Depois do Cream, Baker buscou caminhos diferentes. No começo dos anos 70, depois de conhecer Fela Kuti em Londres, Baker resolveu fazer seu próprio estúdio de gravação em Lagos, Nigéria. Para ele nada era muito simples, então o baterista resolveu atravessar o deserto do Saara pra chegar lá, enquanto gravava um documentário, Ginger Baker in Africa.

Já morando na Nigéria, em 1971 ele gravou dois discos com Fela Kuti, que logo depois retribuiu a gentileza no disco Stratavarious. A música mais famosa gravada no estúdio ARC foi Picasso's Last Words, uma das músicas de Band on the Run, disco de Paul McCartney que foi gravado em Lagos. Confira a música Ye Ye De Smell, que foi escrita por Fela Kuti especialmente para Ginger, e na qual ele dá um solo de bateria impressionante.

Em 1980, Baker se juntou com a banda Hawkwind, com a qual gravou o disco Levitation e participou de uma turnê. Apesar dele ter saído em 1981, a parceria que acabou gerando mais dois discos.

Em 1982, Baker realizou uma das suas experiências sonoras mais curiosas, a Bakerandband, com a qual gravou esta simpática música Land of Mordor, inspirada na trama de O Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien.

Depois ele começou a trabalhar com o produtor Bill Laswell, que o convidou pra participar das gravações com a nova banda de John Lydon (o Johnny Rotten dos Sex Pistols), Public Image Ltd. Seu disco solo Makuta de 1986, também produzido por Laswell, contou com a participação de Bernie Worrell (Funkadelic), e do nosso conterrâneo e mestre Naná Vasconcelos.

No final dessa década, que ele passou em boa parte em uma fazenda na Itália, Baker resolveu tentar a sorte como ator em Hollywood, e chegou a participar de uma série de TV. Em Ginger Baker – The Album (1991), ele recebeu a participação de Art Blakey, que além de seu ídolo também foi uma grande influência no começo da sua carreira. Ao longo dos anos 90, Ginger Baker tentou transformar o seu hobby de jogar Polo em um negócio, e investiu boa parte do seu tempo (e dinheiro) em uma fazenda de cavalos.

O Cream viria a se reunir em 1993 para tocar uma única música na noite em que a banda entrou no Rock n'Roll Hall of Fame. A versão de Sunshine of Your Love que eles tocaram ao vivo é de arrepiar, como você pode conferir acima. Entre 1993 e 1994 ele também fez uma turnê com Charlie Haden e Bill Frisell como Ginger Baker Trio. Assista a performance deles em Ramblin'.

Não tardou muito para ele se juntar novamente com Jack Bruce. A ideia era fazer uma reunião do Cream para gravar um disco de inéditas, mas Eric Clapton não se mostrou muito disposto, então eles acabaram convidando Gary Moore para assumir as guitarras, e assim nasceu o BBM (Bruce, Baker & Moore).

Capa do disco do BBM

O resultado foi a gravação de Around The Next Dream, primeiro e único disco do BBM (se não contarmos um disco ao vivo que só saiu no Japão). O disco de estúdio do BBM foi alvo de várias críticas bem injustas na época do lançamento, mas eu pessoalmente sempre gostei das músicas, que não por acaso, lembram muito o Cream.

No meio da década, Ginger Baker gravou esta sensacional aula de bateria para o Musicians Institute, na qual passou quase uma hora tocando seu instrumento enquanto contava várias histórias da sua vida e carreira. Recomendo assistir pelo menos alguns trechos para entender melhor a personalidade dele.

Em 1999 ele voltou para a África, desta vez para a África do Sul, mas em 2005 entrou em acordo com Clapton e Bruce para fazer uma turnê de despedida do Cream, com shows no Royal Albert Hall em Londres e no Madison Square Garden em Nova York, o que deu origem a um disco ao vivo.

Essa versão de Toad, gravada nesta turnê é imperdível, com o seu imenso solo de bateria.

Em 2008 Baker recebeu o prêmio ZDAA (Zildjian Drummers Achievement Awards) das mãos de ninguém mais ninguém menos que Charlie Watts, o baterista dos Rolling Stones, que o chamou simplesmente de "o melhor". No ano seguinte, Ginger Baker publicou uma autobiografia, Hellraiser, nome que tem tudo a ver com ele. No show do prêmio Baker foi acompanhado pelo saxofonista Courtney Pine, e você pode conferir abaixo.

Incansável, em 2013 ele formou outra banda, a Ginger Baker Jazz Confusion, com Pee Wee Ellis, Alec Dankworth e Abass Dodoo, com a qual saiu em turnê até 2014. Quando Jack Bruce morreu, a eterna rivalidade entre os dois não impediu Ginger Baker de ir tocar no tributo ao seu velho parceiro, ocasião na qual ele dedicou palavras carinhosas para Bruce, algo bem raro. https://youtu.be/Avm-Vc-THw4

Seu último trabalho de estúdio foi o disco Why?, lançado pela Motema Music, e seus talentos podem ser ouvidos nos dois vídeos abaixo, com a faixa título do disco e a música Ginger Spice, que particularmente gosto muito.

Uma vida pessoal controversa

Ginger Baker também sempre fez a alegria dos tablóides e jornais sensacionalistas. Um dos motivos recentes foram os problemas financeiros que teve após sofrer um golpe financeiro de uma funcionária (que garantia que ele era seu amante, mas acabou sendo condenada por fraude). Depois disso, Baker ainda se casou novamente, desta vez com Kudzai Machokoto.

O diretor Jay Bulger fez um documentário sobre ele em 2012, Beware of Mr. Baker, que mostrava os seus dois lados, sua genialidade na bateria e como ele era uma pessoa bem complicada de se lidar. O trailer do filme mostra bem a sua influência de seu talento sobre outros músicos, e também a sua imensa falta de paciência, que o leva a dar uma bengalada no rosto do diretor.

Peter Edward "Ginger" Baker

Agradeço a Ginger Baker por todos os ritmos e batidas que ele criou e também por ter influenciado tanta gente incrível, e espero que ele finalmente consiga descansar em paz, pois as suas músicas viverão para sempre.

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