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Resenha — Bohemian Rhapsody exagera na ficção, mas é belo tributo a Freddie Mercury

Nossas impressões (ainda que tardias) sobre Bohemian Rhapsody, filme que foi o grande vencedor do Golden Globes 2019

39 semanas atrás

Assisti no ano passado ao filme Bohemian Rhapsody, que conta a trajetória da banda Queen e seu cantor, Freddie Mercury, mas por algum motivo, acabei não terminando essa resenha. Como o filme foi o grande vencedor dos Golden Globes ontem de noite, acho que é um bom momento para tentar reparar esse erro e publicar o texto.

Cena de Bohemian Rhapsody

O filme do Queen, como Bohemian Rhapsody é mais conhecido no Brasil, acompanha a trajetória do Queen e Freddie Mercury desde antes dele assumir seu nome artístico, quando era o garoto Farrokh Bulsara, mas apesar de deixar bem claro que ele era um gênio da música, mostra apenas de passagem outros aspectos da vida do cantor.

A sexualidade de Freddie é mostrada, mas de forma mais sutil, o que gerou reclamações de alguns fãs. A escolha por não mostrar a doença de Freddie (além do cantor recebendo o diagnóstico) é  questionável, mas foi a decisão que os produtores e seus contratados tomaram para não tornar o filme muito mais denso e pesado.

Bohemian Rhapsody está bem longe de ser um filme perfeito e tem vários defeitos, mas também tem bons acertos, e no final das contas, são eles misturados com as músicas imortais da banda que tornam a experiência agradável.

Acredito que deve ser praticamente impossível encontrar por aí um fã do Queen que não tenha ficado empolgado nas cenas de música em geral, e principalmente, quando a banda sobe para o palco do Live Aid, na cena final do filme.

Cena de Bohemian Rhapsody

No filme, a performance inesquecível do Queen no Live Aid marca o reencontro da banda depois de um longo período separados. Isso simplesmente não aconteceu, eles estavam no meio de uma turnê mundial. No mesmo ano do Live Aid (1985), os brasileiros puderam assistir dois shows deles no Rock in Rio, mas na cronologia de Bohemian Rhapsody, vários anos se passam entre um evento e o outro.

Esses detalhes parecem bobos, mas mostram como os roteiristas adaptaram a vida de Freddie e a trajetória do Queen para criar o drama necessário para a trama. Bem, pior pra quem conhece a história do Queen e de Freddie como eu, os outros com certeza se divertiram mais. De qualquer forma, isso é cinema, o mais importante é entreter a plateia, e não ser fiel como um documentário.

Cena de Bohemian Rhapsody

Li recentemente um depoimento de Rami Malek sobre a recriação deste show em Wembley, que coroou uma das melhores fases do Queen. As cenas no Live Aid foram as primeiras a serem gravadas por Bryan Singer, mas durante o dia de filmagem, ocorreram várias paradas que atrapalharam o ator. A apresentação no Live Aid foi então toda regravada a pedido de Malek, dessa vez sem cortes. A versão em DVD terá a cena inteira com 22 minutos, ao lado do show original.

Apesar de gostar desta cena, que é sem dúvida alguma o ponto alto do filme, tem algo que me incomodou. Como o estádio de Wembley de 1985 não existe mais e foi demolido para a construção de um novo, tudo precisou ser feito em CGI, incluindo o público, o que ficou meio estranho, mas não chegou a estragar a experiência.

O desempenho de Rami Malek no papel daquele que era a essência de um superstar é admirável, dá pra ver como ele se dedicou ao personagem, e com o prêmio dos Golden Globes ontem, é bem possível que ele também seja indicado ao Oscar pelo seu trabalho.

Durante o filme, em alguns momentos, a prótese dentária ou algum outro detalhe chegam a atrapalhar a transformação de Malek em Freddie, mas a maneira como o ator conseguiu se apropriar da linguagem corporal do cantor no palco, um ambiente sobre o qual Mercury tinha controle absoluto.

Especialmente nas cenas do Live Aid, Malek consegue realmente incorporar Freddie, e o resultado é impressionante. Eu pelo menos não esperava um desempenho deste nível dele, pelo que tinha visto em Mr. Robot, mas é claro que poder interpretar um papel como Freddie é uma oportunidade única para a consagração de um ator.

É claro que seria impossível tentar representar Freddie Mercury sem sua voz inconfundível. Para trazer de volta a voz de Freddie, a produção usou uma mistura de gravações originais e takes alternativos do próprio, além das vozes de Malek e principalmente de Marc Martel, um vocalista canadense conhecido por copiar cantar bem parecido com o astro.

Cena de Bohemian Rhapsody

É preciso também elogiar o trabalho de Gwilym Lee como Brian May, de Ben Hardy como Roger Taylor e de Joe Mazzello como John Deacon, todos absolutamente idênticos aos músicos do Queen. É impressionante, pois você olha para os quatro e é difícil não ver o Queen das antigas no palco.

O resto do elenco também está excelente, com destaque para Lucy Boynton como Mary, Aidan Gillen como John Reid e principalmente Mike Myers, que dá um show como o personagem fictício de Ray Foster, um empresário que dispensa o Queen depois de ouvir a música que dá título ao filme. O personagem pode até não ser baseado em uma pessoa real, mas ainda bem que colocaram o ator no filme, pois ele dá um contraponto humorístico excelente para a história.

Allen Leech também está perfeito como o odioso Paul Prenter, ex-assistente pessoal de Freddie. O papel do companheiro de Freddie até seus últimos dias, o irlandês Jim Hutton, ficou para seu compatriota Aaron McCusker. O filme é uma celebração da vida de Freddie e da música do Queen. Como sou fã, pra mim fica difícil separar uma coisa da outra, mas meu trabalho aqui é analisar o filme em si, e também tentar fazer um paralelo entre o roteiro e a realidade.

Nenhuma das mudanças do roteiro, no entanto, me parece ser gratuita, todas foram feitas (para o bem ou para o mal), com o objetivo de contar uma história mais atrativa para o público. O roteirista Anthony McCarten entende do riscado, afinal já foi indicado ao Oscar duas vezes por A Teoria de Tudo e O Destino de Uma Nação, e quem está por trás da produção sabe tudo sobre a história do Queen e de Freddie.

O produtor de Bohemian Rhapsody, Jim Beach, que é ele próprio um personagem do filme (vivido por Tom Hollander), tem muita experiência em se tratando de Queen, e é uma das maiores autoridades sobre a história da banda, já que é o empresário deles desde o final dos anos 70 até hoje.

Durante todo esse tempo, ele produziu vários documentários e shows sobre o Queen, alguns dos quais lançados com Freddie ainda vivo e na ativa. Qualquer um que quiser conhecer mais sobre a história do Queen, vai encontrar um vasto e extenso material, e tem que agradecer a ele por isto.

O começo da banda no filme é todo romanceado, mas isso já era de se esperar, e não atrapalha a experiência do espectador. Antes de entrar na banda Smile, na verdade Freddie já tinha sido parte da banda Ibex, e já tinha até mesmo rachado um apartamento com Brian May, Roger Taylor e Tim Staffell, que era o baixista na época, e cuja saída acaba abrindo espaço para Freddie.

No filme, a relação dele com Mary Austin é descrita de uma forma diferente da vida real, na qual ela sempre esteve presente, e chegou a ser assistente pessoal de Freddie. De qualquer forma, acho que a química entre a atriz Lucy Boynton e Rami Malek é visível em cena, o que passa essa sensação de qualquer forma. Os dois estão namorando hoje em dia, por sinal.

Como disse no começo do post, toda a questão da sexualidade de Freddie foi bem amenizada em Bohemian Rhapsody, pois eles queriam que o filme tivesse uma classificação de censura mais baixa possível. A decisão de fazer o filme assim foi do produtor Graham King, que achou que um filme mais real poderia afastar o público.

Também foi dele a opção por não mostrar a luta de Freddie contra a AIDS até o fim dos seus dias, o que inclusive foi o motivo da saída de Sacha Baron Cohen do projeto em 2013, e acabou atrasando a produção em alguns anos.

No filme, a decisão foi tentar passar o clima de quem era Freddie Mercury no topo da sua forma, e como o Queen era uma banda espetacular no palco, e acredito que isso foi atingido, mesmo com as imprecisões históricas.

Cena de Bohemian Rhapsody

Mesmo com todos os problemas enfrentados pela produção e por toda as escorregadas (ainda que propositais) do roteiro, Bohemian Rhapsody é um filme que inspirou as plateias de cinema no ano passado, chegando no Top 10 de bilheterias do ano ao lado de verdadeiros gigantes, e que tem tudo para repetir o mesmo sucesso nas TVs das casas dos agradecidos e ensandecidos fãs do Queen.

Como fã da banda desde os anos 70, fico feliz ao ver os meus ídolos de toda a vida Brian May e Roger Taylor tão realizados depois de uma noite gloriosa nos Golden Globes, ainda mais por terem vencido na categoria de melhor filme de drama do ano, e não comédia ou musical. A alegria deles recebendo o prêmio é contagiante, e May chega a dizer que essa é a maior surpresa da carreira deles. Deve ter sido realmente de lavar a alma.

Apesar dos favoritos aos Oscars deste ano serem outros, o popular filme do Queen vai seguindo humildemente seu caminho, já com dois Golden Globes garantidos na estante, então todo cuidado é pouco para os concorrentes.

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