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Satélite cai no Rio Solimões? NÃO!

Saiu a notícia de que "um satélite" caiu no Rio Solimões, mas será isso mesmo, ou é a crítica falta de informação e interesse da imprensa? Sim, você acertou, desinteresse.

29/09/2019 às 20:02

A história se repete, só muda de lugar. A notícia do momento é que "caiu um satélite no rio Solimões", no Amazonas, mas - de novo - temos um show de desinformação, desrespeito ao leitor e alarmismo, desta vez com confirmação oficial,

Em 2014 uma carenagem (ou como o SpaceToday gosta de chamar, coifa) de um Ariane 5 foi achada em Salinas, no Pará. As primeiras reportagens do G1 listavam como "objeto desconhecido" e a arrogância jornalística fez com que fossem ignoradas as inscrições no "objeto", com dicas de sua origem, como a sigla da ESA (Agência Espacial Européia) e o críptico e basicamente indecifrável "UK Space Agency".

Os jornaleiros chegaram ao ponto de escrever na matéria:

Nos destroços está escrito que a carcaça pertenceria à Agência Espacial Britânica, mas a informação não foi oficialmente confirmada.

Ou seja: Uma carenagem de um foguete, que qualquer nerd de internet com interesse tangencial em tecnologia espacial identificaria em segundos, virou um objeto desconhecido que PODE ser relacionado com a agência espacial britânica. Aff.

Essa mistura de arrogância com preguiça em fazer seu trabalho é uma constante. Não sei se é a eterna briga Humanas vs Exatas, mas qualquer matéria relacionada com ciência e engenharia é coberta com extrema má vontade. Em 2012 foi achado no Maranhão um estranho objeto esférico, que 8 segundos de busca no Google revelam ser um tanque de um satélite ou segundo estágio de algum foguete, mas nem os jornaleiros e nem a AERONÁUTICA conseguiram identificar.

Agora acharam no Amazonas outro "objeto" e a manchete foi taxativa: "satélite cai próximo a comunidade ribeirinha e intriga moradores no AM".

Desconfiômetro já está apitando no máximo, certo? Veja este detalhe do satélite:

Aqui o vídeo:

Como Carl Sagan, Neil DeGrasse Tyson, Werner Von Braun, eu e você sabemos, coisas que reentram a atmosfera a 2.8000 Km/h tendem a esquentar, e de todos os materiais criados pelo Homem, PRÁSTICO não sobreviveria a uma reentrada.

Eu não estou exigindo que o repórter que fez a matéria tenha profundos conhecimentos de engenharia aeroespacial, eu mesmo não tenho, só jogo Kerbal, mas hello, será que ele nunca viu um lançamento, nunca viu um documentário no Discovery, no tempo em que cobriam ciência e não gente que compra lixo?

A descrição de uma das testemunhas é mais que suficiente para eliminar a hipótese de ser um satélite:

“O objeto foi arriando devagar na água, não caiu de uma vez."

A menos que o satélite seja feito de Cavorita (um iPad imaginário pra quem pegar essa sem usar o Google), ele NÃO vai cair devagar. Este vídeo é de um satélite russo reentrando na alta atmosfera, sendo despedaçado pela resistência do ar:

Você acha que ele chegaria ao solo inteirinho como o objeto acima?

De novo, dois minutos de Google e o jornalista teria descoberto que o tal "satélite" era um balão do Google, do Projeto Loon,  aquela ideia de levar internet a comunidades distantes usando balões de grande altitude. Uma das características desses balões é que assim como o Fluminense e os cabelos do Nick Ellis, eles caem.

Aqui um que caiu em um subúrbio de Los Angeles:

Aqui uma matéria sobre um balão do Google que caiu no Amazonas. Em 2017.

No texto da matéria mais recente dizem que os moradores identificaram "adesivos com bandeiras de diferentes países.". O jornalista obviamente não foi até o local, ou (espero) teria identificado algo mais: a plaquinha do projeto Loon.

Mas hey, calma que piora. Segundo a matéria,

Por meio de telefone, o Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam) confirmou à reportagem que o objeto se trata de um satélite artificial.

Calma, COMO ASSIM? Eu entendo o jornalista, que não entende patavinas do assunto dar seus pitacos e falar bobagem, infelizmente essa é a realidade, mas um ÓRGÃO MILITAR? O SIPAM?

Eles deveriam ser uma unidade de excelência, monitorando e vigiando nossas fronteiras, alertando do ataque iminente das centenas de caças russos venezuelanos e dos 3 mil tanques na fronteira, prontos para invadir caso o Lula perca a eleição para o Bolsonaro (eu vi na internet, então é verdade).

Como assim um INCOMPETENTE não consegue diferenciar um balão de um satélite? Ou não será incompetência, mas descaso, é um portal pequeno de interior, então despacha logo?

Fica a dica para os portais, jornalistas e militares confusos: temos um monte de nerds de ciências na internet, quando em dúvida, consultem o Iberê Tenório, o SpaceToday, o Schwarza, o Aviões e Músicas, o Ceticismo, o Hoje no Mundo Militar... a lista é imensa e esses todos, nenhum deles vai confundir um balão com um satélite.

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