Desculpem floquinhos mas a SpaceX não vai vir pro Brasil e ninguém importante quer Alcântara.

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Milhões de anos atrás um asteróide vindo do espaço desconhecido entrou em rota de colisão com a Terra. Já na atmosfera, ele se dividiu. Metade caiu em Wakanda, formando a imensa reserva de vibranium daquele país. A outra metade, trazendo o fóssil de uma imensa cabeça de burro andoriano, caiu onde mais tarde seria inaugurado o Brasil.

Só isso explica a mistura de azar, incompetência e teimosia que ronda todos os nossos projetos. Lembre-se, nós tivemos QUINHENTOS ANOS pra construir a réplica da Nau do Descobrimento, e conseguimos atrasar e ela não participou da comemoração. Nós somos incapazes de construir um barco com tecnologia de 500 anos atrás.

Nosso programa espacial vai mudar, claro, depois que a comissão que o Temer nomeou se reunir pela primeira vez daqui a um mês vão canetear tudo e chegaremos em Marte, mas até lá só acumulamos fracassos e desculpas. O mais inadmissível deles é a Base de Alcântara.

A proposta de arrendar a base para vários países, aventada pelo ministro da Defesa é boa, infelizmente é muito pouco, tarde demais.

Em teoria a base é excelente, por um motivo simples: velocidade tangencial. O período de rotação da Terra é constante em qualquer ponto do planeta, mas para isso pontos em latitudes diferentes se movem a velocidades diferentes. No Equador a Terra gira a uma velocidade de 1.674,4 km/h. Já no Centro Espacial Kennedy, que fica em uma latitude de + 28,59°; a velocidade de rotação cai para 1.470,23 km/h.

Quando você lança um satélite para órbita baixa, precisa de pelo menos 8 km/s de velocidade. Por isso lançamos quase sempre no sentido de rotação: aproveitamos o empurrão do planeta. Do Cabo Canaveral isso reduz 0,408 km/s do total exigido. Um lançamento do Equador reduziria em 0,465 km/s. Não parece muito mas é um pouquinho que ajuda, e economizaria 15% a 20% de combustível, permitindo cargas um pouco mais pesadas.

Isso é desejável mas não é essencial. Os russos lançam seus foguetes principalmente do Cazaquistão, a União Européia (Rússia incluída) usa a base na Guiana Francesa, que a 5 graus de latitude tem uma velocidade de rotação de 1.665,6 m/s.

A posição da base brasileira é melhor, mas ela é uma linda rodovia asfaltada e pedagiada construída depois que todo mundo aprendeu a fazer caminhões off-road indestrutíveis. Os foguetes dos EUA são otimizados pra lançamento da Flórida, conseguem colocar em órbita suas cargas de lá, e o tamanho dos satélites vem diminuindo, não aumentando, Foguetes hoje têm capacidade de potência sobrando a ponto de conseguirem pousar!

A economia de combustível também não faz sentido. Primeiro, foguetes são sempre abastecidos até o talo. Não existe isso de colocar só o que vai usar. Segundo, combustível é o mais barato. Um lançamento do Falcon 9 custa uns US$ 62 milhões. O valor do combustível é US$ 200 mil.

Outro ponto negativo: a tal base… não existe. Sério. Tem alguns prédios e um monte de terreirões de terra batida com alicerces de obras paradas. Basta conferir.

O ministro disse que o Centro de Lançamento de Alcântara tem a infraestrutura pra acomodar lançamento de qualquer país. Mentira.

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Esse é o VAB — Vehicle Assembly Building reconstruído, é a maior construção da base, pra não ficar feio demais eles colocaram uma réplica do VLS, o foguete brasileiro que é excelente, se a função de um foguete for explodir sem aviso. Agora compare o tamanho do VLS com um Falcon 9.

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Para piorar, ao contrário da Guiana não há NENHUMA infraestrutura em volta, Alcântara é basicamente uma vila. screenshot-22_02_2018-12_52_40

Esse é o “porto”. Imagine um foguete de 70 metros passando por essas ruelas, único caminho até a estrada que leva ao Centro de Lançamento. E não, não adianta falar que tem uma pista de pouso na base. O maior cargueiro do mundo, o Antonov An-225 Mriya leva cargas de até 43 m de comprimento, o Falcon 9 tem 70.

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Quer mais motivos pra não fazer sentido a SpaceX usar a base imaginária de Alcântara? Lembre-se que além de lançar os foguetes eles precisam pousar, e então ser levados de volta pros EUA pro processo de recauchutagem. 10 mil km de navio, se forem levados até a fábrica em Hawthorne, Califórnia.

Outro impedimento: os contratos mais lucrativos da SpaceX e o grosso dos contratos da ULA são com o Departamento de Defesa. Tio Sam DEFINITIVAMENTE não vai deixar seus preciosos satélites saírem dos EUA até um shithole country qualquer, cheio de espiões chineses. A rigor não sei nem se os regulamentos de exportações permitem que a SpaceX tire os foguetes do país. Quando eles sequer podem contratar estrangeiros, que dirá literalmente exportar o foguete.

O ministro diz que há interesse de um monte de gente, mas vamos ser sinceros. Segundo a imprensa, havia uma visita marcada em novembro mas a SpaceX cancelou em cima da hora por causa de imprevistos com o Falcon Heavy. Calma. A SpaceX tem SETE MIL FUNCIONÁRIOS, não tinha um corno pra mandarem? Nem a tia do café? “Consuela, dá uma olhada, vê se o lugar tem potencial”.

Tem gente dizendo que podem usar a base para aumentar o número de lançamentos, mas de novo: não faz sentido. A capacidade ociosa no Cabo Canaveral é imensa. Alcântara tem UMA plataforma de lançamento pra foguetes em miniatura. O Centro Espacial da Guiana tem seis plataformas, três em uso, uma para Soyuz, uma para Ariane e outra para foguetes menores.

Já os EUA, bem… atualmente a SpaceX aluga três estruturas de lançamento, uma delas virou área de pouso. A ULA aluga outra, e a Blue Origin pegou mais uma. No mapa abaixo em marrom (?) as plataformas em uso. Em branco as de reserva.

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Você acha MESMO que em vez de passar um zarcão nas torres, tirar a poeira dos canos e revitalizar uma estrutura já existente eles vão preferir vir pros cafundós do Maranhão e construir uma base de lançamentos do zero?

Quanto aos ucranianos, eles realmente precisam de uma base: eles usam Baykonur mas é uma base na base do favor, e com os russos invadindo e roubando a Crimeia, a relação entre os dois países anda abalada. Só que como ficou comprovado pelo último acordo, eles não têm grana pra construir nada.

Mas calma, há esperança!

Existe um cenário onde a base imaginária de Alcântara pode fazer sentido.

Estão entrando no mercado muitas empresas pequenas, que não possuem recursos pra uma infraestrutura permanente. Também temos países como Israel, com lançamentos eventuais e complicações geopolíticas.

Essas empresas usam foguetes pequenos, com pouca potência sobrando, e quando cada metro por segundo de Δv importa, lançar o mais próximo do Equador é importante.

O Brasil poderia se tornar a Meca dos pequenos lançadores, com uma dezena de plataformas (ou mais, se expulsarem os quilombolas da região) e toda uma infraestrutura de apoio. Hotéis, comércio, moradias pro enorme contingente de trabalhadores altamente especializados, uma infra portuária de verdade, turismo pra atender a todos os nerds que adorariam ver lançamentos…

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Infelizmente isso não vai acontecer. As empresas pequenas não tem verba pra bancar a construção da base, e nenhum governo brasileiro consegue pensar mais do que 4 anos no futuro, ninguém vai se indispor com o partido ou os eleitores bancando um projeto de bilhões “com tanta criancinha passando fome”. A idéia de que jovens seguirão carreira em tecnologia, prosperando, gerando divisas e transformando o Brasil em uma referência em espaço é demais pras cabecinhas dos comentaristas de portais.

E nem cheguei no paramécio da Carta Capital dizendo que os EUA querem Alcântara para montar uma base militar e poder atacar a África.

De resto, toda hora, como um relógio redescobrem essa groselha de revitalizar a Base. Duvida?

Não vai dar em nada, é só mais uma vez gente querendo mostrar serviço sem mover uma palha, com um ministro que diz que Alcântara é um local estratégico por ser “mais perto do espaço”. E o pior de tudo: assim como o foguete imaginário com a Ucrânia, que consumiu R$ 1 bilhão, mais uma vez nós vamos pagar a conta.

UPDATE: a SpaceX declarou que não tem nenhum interesse em lançar do Brasil e os relatos de que estava em conversas com alguém aqui são “imprecisos”. Ou seja: chamaram o ministro de mentiroso.

 

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e promover seus últimos best-sellers O Buraco da Beatriz, Calcinhas no Espaço e Do Tempo Em Que A Pipa do Vovô Subia.

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