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A Plague Tale: Innocence — Review

Contando com um bom enredo e gráficos belíssimos, A Plague Tale: Innocence nos leva para uma fantástica (e assustadora) viagem pela idade Média.

26 semanas atrás

Até pouco tempo atrás, os games costumavam ser divididos entre aqueles de grande porte e os indies. Os estúdios menores então começaram a perceber que seria possível produzir títulos que se encaixassem num meio termo, jogos com o nível de produção de um arrasa-quarteirões, mas com um custo de desenvolvimento bem inferior e trazendo muito da ousadia dos independentes.

Dentre as editoras que mais tem se destacado nesta área temos a Focus Home Interactive, que depois de apostar em obras como World War Z, Vampyr, Call of Cthulhu e The Surge, nos presenteou com aquele que pode ser considerado o melhor dos últimos lançamentos da empresa, o A Plague Tale: Innocence.

Desenvolvido pela Asobo Studio, inicialmente o jogo conta a história de Amicia e Hugo de Rune, dois nobres irmãos franceses que viviam confortavelmente com sua família enquanto a peste negra avançava pela Europa. Alheios a uma das maiores pandemias que a humanidade já enfrentou, os dois praticamente não tinham contato, já que o garoto era mantido enclausurado em seu quarto para que sua mãe lhe trata-se de uma misteriosa enfermidade.

Tudo corria relativamente bem com a família, até que certo dia a Inquisição resolve bater a sua porta. Ao presenciar os enviados pela igreja aniquilar todos que estivessem pelo caminho, a adolescente trata de pegar o irmão e fugir pela vila onde moravam, começando ali uma aventura repleta de heroísmo, fraternidade e violência.

Uma viagem pela idade média

É impossível falar sobre A Plague Tale: Innocence sem resvalar na sua ambientação. Ao optar por situar o enredo no século XIV, a desenvolvedora assumiu uma responsabilidade imensa de recriar um dos períodos mais importantes da nossa história e podemos dizer que eles foram muito bem sucedidos neste aspecto.

Embora vez ou outra passemos por lugares muitos bonitos, como a floresta na sequência de abertura ou na estrada que segue o rio que vai dar no moinho, na maior parte do tempo estaremos cercados por sujeira e muita, mas muita morte. Com a estimativa de que a peste tenha matado até um terço de toda a população europeia, conforme avançamos pela história nos depararemos com muitos corpos e em determinados momentos quase podemos sentir o fedor que deveria rondar aqueles locais.

Desde valas comuns até um enorme campo de batalha repleto de cadáveres, o estúdio não tentou romantizar a Europa daquela época, com os cenários mostrando uma imundice e um nível de detalhes poucas vezes vistos num jogo eletrônico. Explorar esses lugares muitas vezes me fez pensar como deveria ser viver num ambiente desses, tornando mais fácil entender como a doença se espalhou pelo Velho Continente.

flores ratos por todos os lados...

Mas apesar da peste negra servir como pano de fundo para a história, em A Plague Tale: Innocence ela é representada como uma invasão de ratos, algo como uma força capaz de controlar os roedores e que os torna extremamente violentos. Capazes de transformar um homem em uma pilha de ossos em poucos segundos, os ratos do jogo podem ser comparados a um cardume de piranhas, sempre sedentos por carne e devendo ser evitados a todo custo.

Ver aquele mar de ratos se mover é certamente uma das experiência mais impressionantes dos últimos anos, com a Asobo tendo feito um trabalho técnico fantástico ao criá-los. Sempre parecendo muito naturais, os animais conseguem passar uma tensão impressionante, quase sempre nos deixando agoniados e bastante assustados.

Sendo uma ótima escolha de design que servirá para nos dar algum desafia durante a aventura, ao representar a peste como uma massa física a desenvolvedora ainda conseguiu criar uma entidade extremamente aterrorizante e quando pensamos que já a vimos em sua forma mais poderosa, o jogo sempre trata de nos surpreender com mais e mais ratos — espere até ver a sequência final.

Luz e sombra

Mas se A Plague Tale: Innocence nos coloca diante de uma força praticamente indestrutível, ele também nos oferece uma maneira de evitá-la: a luz. Com os ratos sendo extremamente sensíveis a qualquer claridade, logo aprenderemos a usar a luz a nosso favor, com tochas e algumas armas que encontraremos pelo caminho sendo importantíssimos.

Com o jogo sendo centrado no conceito de passarmos despercebido pelos inimigos, ter paciência fará toda a diferença entre o sucesso e a morte, com boa parte do desafio vindo justamente de como utilizarmos a luz e a sombra a nosso favor. Um soldado está usando uma tocha para evitar os ratos? Que tal apagá-la? Ou então atrair um inimigo para um canto e logo depois remover a fonte de luz que o separava dos roedores?

No geral os quebra-cabeças oferecidos pelo jogo são de fáceis solução, com os irmãos tendo que cooperar para passar por alguns deles e raramente consegui perceber mais de uma maneira de concluí-los. Isso pode ser um problema para quem gosta de uma maior dificuldade, mas por outro lado faz com que a aventura mantenha um bom ritmo e quase nunca tenhamos que passar muito tempo bolando uma estratégia.

Personagens críveis

Mas se as sequências stealth de A Plague Tale: Innocence podem assustar os mais impacientes, o jogo tenta contornar isso ao nos entregar um grupo de personagens bastante realistas. Seja com as outras pessoas que encontramos pelo caminho, seja com o irmão mais novo que praticamente não conhecia, a protagonista está quase sempre travando conversas interessantes com os outros.

Além de tornar a aventura bem mais interessante, tais conversas adicionam uma complexidade muito legal aos personagens, fazendo com que na maioria do tempo eles não pareçam estar num jogo de videogame ou mesmo em um filme. Para quem gosta de imergir nas histórias, a relação entre os personagens ajuda muito a nos colocar nas situações pelas quais eles estão passando e ao não parecerem artificiais em seus diálogos, isso fica muito mais fácil.

No entanto, não gostei muito da maneira como a Amicia passa a encarar de maneira natural as atrocidades que presencia (e até comete). É muito interessante ver as reações da garota ao presenciar as primeiras mortes ou se deparar com pilhas de corpos, mas logo esse espanto deixa de existir e a sua adaptação às atrocidades parece rápida demais.

Também merece crítica a maneira com os soldados se comportam, já que assim como acontecesse na maior parte dos jogos stealth, aqui eles são capazes de nos detectar a uma grande distância, mas não nos enxergar mesmo se estivermos debaixo de seus narizes. Como sempre, é compreensível que isso aconteça em prol da diversão, mas não há como negar que o realismo acaba sendo comprometido.

Uma grata surpresa

Com gráficos muito acima da média, vários personagens complexos e uma história intrigante, A Plague Tale: Innocence certamente será lembrado como um dos melhores jogos lançados em 2019. Infelizmente o título parece não estar recebendo por parte dos jogadores a atenção que merece, mas posso afirmar categoricamente: se você tiver a oportunidade de jogar essa criação da Asobo, faça isso!

É bem verdade que a sua jogabilidade linear não deixará muito espaço para encará-lo uma segunda vez e que depois de um determinado ponto a campanha fica um pouco repetitiva. Eu também não gostei muito do caminho que a história tomou na sua parte final, pois preferia que ela se mantivesse mais realista.

Ainda assim, este é um jogo muito bom, com um nível de produção altíssimo e que desde os primeiros minutos deixa claro a dedicação dos envolvidos em sua criação. Se quiser sentir um gostinho de como era viver na Idade Média, ao ignorar toda a parte fantasiosa do A Plague Tale: Innocence isso será possível e ao encarar a saga dos irmãos de Rune você provavelmente agradecerá por os games não terem cheiro.

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