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Anthem — Review

Com um enorme potencial, mas algumas irritantes escolhas de design, Anthem é um jogo em que a BioWare terá que trabalhar muito para aparar suas arestas.

1 ano atrás

Há quem diga que a expectativa é a mãe da decepção, mas quando você junta a ideia de um jogo que estará em constante evolução e foi desenvolvido por um estúdio com longo histórico de contar boas histórias e que por muito tempo se manteve como um dos mais respeitados da indústria, como evitar esperar pelo melhor?

Apontado por muitos como a tábua de salvação da BioWare, desenvolvedora que vinha sofrendo duras críticas após o lançamento do Mass Effect Andromeda, o Anthem indicava ser uma guinada radical na direção que vinha sendo seguida pela empresa, com o foco passando a ser um jogo cooperativo e com a promessa de ser constantemente atualizado por muitos anos. O problema é que nem sempre a ousadia dá o resultado esperado.

O Hino da Criação

Situado num desconhecido planeta que imagina-se ter começado a ser criado por deuses e que misteriosamente acabou sendo abandonado, o enredo de Anthem fala sobre o Hino da Criação, uma poderosa força que é capaz tanto de criar quanto de destruir. Sem conhecer muito bem a origem das relíquias que são capazes de gerar tempestades, portais e as mais assustadoras criaturas, o humanos aproveitaram o “presente” deixado pelos criadores para se defender, criando assim as Lanças (Javelin, no original).

Podendo ser descritas como uma espécie de exoesqueleto, essas armaduras nos deram poderes sobre-humanos, nos permitindo correr mais rápido, saltar mais alto e até voar. Foi então com um exército delas que Helena Tarsis e a Legião da Alvorada lutaram contra uma raça conhecida como Urgoth, que por séculos escravizou a humanidade.

Muitos anos depois os humanos criaram Bastion, uma nação em que cidades fortificadas protegem seus habitantes e Sentinelas a bordo de Lanças fazem o patrulhamento. Tudo ia bem até que uma facção conhecida como Dominion resolveu atacar a Freemark, uma cidade que ficava sobre uma relíquia e que funcionava como base dos Freelancers, soldados que usavam suas Lanças para atuar como mercenários. Após uma enorme explosão e a morte de vários pilotos, como um dos poucos sobreviventes só nos restará mudar para Fort Tarsis, a capital da nação.

Embora esteja longe de contar com um enredo tão elaborado quanto aqueles vistos em trabalhos anteriores do estúdio, Anthem possui uma história interessante, muito também por causa dos vários ótimos personagens que encontraremos pelo caminho. O grande problema nesse aspecto é que quase tudo será contado através de documentos que encontramos por Fort Tarsis. Isso pode fazer com que percamos parte importante do universo do jogo e nos leva a outro efeito colateral, a quebra de ritmo.

Um entediante Fort Tarsis

Funcionando como a “central de informações” de Anthem, será em Fort Tarsis que passaremos boa parte da campanha e acredite, isso não será muito divertido. Por lá poderemos conversar com a maioria dos personagens, visitar lojas, conseguir novas missões e coletar partes da história.

Curiosamente nesta parte do jogo tudo funcionará em primeira pessoa e ir de uma ponto a outro da cidade é uma experiência para lá de irritante. Com o nosso personagem se movendo muito lentamente, vagar pelos corredores e salas logo se torna muito cansativo e embora algumas pessoas tenham histórias legais a serem contadas, muitas vezes só queremos garantir uma nova missão, pegar nossa Lança e sair dali.

Mesmo sendo nítido o esforço da BioWare em tornar a cidade a mais realista possível, com seus habitantes tendo de lidar com conflitos pessoais e coletivos, e a vida tentando seguir de maneira relativamente normal, o fato de não conseguirmos interagir muito durante as conversas acaba tornando a experiência ainda mais enfadonha.

É estranho notar como essa sessão do jogo parece ir contra toda a sua proposta central, que é de um título focado no multiplayer e com alto nível de ação. Ao estar em Fort Tarsis temos a sensação de que a desenvolvedora buscava uma maneira de manter suas raízes, mas o resultado passou longe do seu legado.

Os quatro cavaleiros do… Cataclisma

Contudo, é ao partirmos para missões que o Anthem mostra o que tem de melhor. Nos dando quatro opções de Lanças para pilotar, as armaduras possuem qualidades e defeitos bem marcantes, permitindo assim que cada pessoa encontre a que melhor se adapta ao seu estilo de jogo.

Desde o tradicional tanque até uma que domina os poderes elementais, as habilidades especiais de cada Lança podem fazer toda a diferença no campo de batalha e enfrentar os inimigos costuma ser algo muito divertido. Quer dizer, pelo menos durante as primeiras horas da campanha.

Isso porque assim como alguns outros jogos do gênero, o Anthem sofre com a falta de variedade nas missões, que basicamente se resumem a voarmos até um local, eliminar tudo o que se mover e dali partir para outro ponto do mapa — que por sinal nos passa a impressão de ser muito vazio.

Algo que também contribui para essa sensação de repetição é a pouca variedade de inimigos, que ainda por cima possuem uma inteligência artificial sofrível. Some a isso os eventos presentes no lugar, igualmente poucos variados e pode se preparar para fazer quase sempre a mesma coisa por horas e mais horas.

O título ainda tenta nos motivar a ajudar outros jogadores, dando itens melhores a quem fizer isso ou oferecendo Fortalezas para serem invadidas, mas aí caímos naquele que provavelmente é o maior problema do Anthem:  as recompensas ou como muitos gostam de chamar, loot.

Um sistema de grinding horrível

Ao contrário do que nos acostumamos a ver em jogos como Diablo, The Division ou Destiny, onde armas e equipamentos são deixados por inimigos derrotados numa grande quantidade, no Anthem isso não acontece. Mesmo com a BioWare tendo feito ajustes nessa taxa desde o lançamento e muito provavelmente ainda fazendo outros no futuro, por enquanto não temos uma chuva de itens caindo no cenário.

Porém, isso nem é o pior. O problema é que ao coletarmos esses itens não saberemos se é uma arma ou um poder para a Lança, com sua revelação só acontecendo quando acabarmos a missão. Isso mesmo, aqui não é possível equipar algo assim que o encontrarmos, o que soa como um tremendo ponto negativo para um jogo que tem o grinding como um dos seus pilares.

Imagine a seguinte situação: após concluir uma missão aparece na tela que você achou uma arma ou um poder que aparentemente são bons. Após aguardar uma longa tela de carregamento, você vai até a Forja e decide equipar o que encontrou. Hora de partir para outra missão, mas ao chegar ao mapa, percebe que eles não eram tudo aquilo. A solução será esperar até terminar a missão ou desistir dela, tendo que esperar vários carregamentos até poder mudar o equipamento.

É difícil entender o que se passou na cabeça da equipe responsável pelo Anthem ao tomar essa escolha de design, mas o fato é que ela atrapalha muito a experiência.

Outro problema crítico está na características das armas, já que por elas não contarem com uma grande variedade de atributos, não teremos que nos preocupar muito entre escolher entre um rifle com mais poder de fogo ou um pente com maior capacidade de armazenamento. No geral o que encontramos será melhor do o que já temos em todos os aspectos, bastando apenas equipar o novo.

A falta de incentivo acontece mesmo na parte visual, com as Lanças contando com poucas opções de personalizações e mesmo a loja que vende peças cobrando dinheiro real sofre com um estoque pequeno. Coletar recursos pelos cenários é outra tarefa que não empolga, já que os itens criados com eles normalmente são fracos.

Por fim, evoluir o seu personagem no Anthem é algo que demandará muita paciência e perseverança. Saltar de um nível para o outro é algo demorado e juntar dinheiro para adquirir alguns itens cosmético é mais lento ainda. Também não ajuda muito o fato de conjuntos de armaduras custarem absurdamente caros e por isso você pode esperar ter que passar um bom tempo olhando sempre para uma Lança com uma mesma aparência.

Dica: chame seus amigos

Outro detalhe que me incomodou no Anthem é a sua quase obrigatoriedade de termos que jogar na companhia de outras pessoas. Tentar encarar qualquer missão sozinho é pedir parta a sofrer, já que a dificuldade não se ajusta de acordo com a quantidade de jogadores que estiverem participando e caso você não encontre uma equipe completa, saiba que terá problemas pela frente.

Felizmente o jogo conta com organização automática de partidas para todas as missões, mas ainda assim o ideal é estarmos na companhia de outros três amigos. Isso porque ao entrarmos em partidas de desconhecidos normalmente será mais difícil organizarmos as estratégias, com cada um fazendo o que achar melhor e em alguns casos — como as Fortalezas — será bem complicado concluir o objetivo.

Mas o pior de tudo é iniciar uma missão é ver os outros três jogadores disparando em direção a missão e apesar do jogo contar com um sistema que nos teletransporta para os locais onde estão acontecendo coisas importantes, muitas vezes queremos apenas vasculhar uma sala ou coletar os itens que foram deixados, tornando-se irritante ver aquela contagem regressiva que aparece na tela.

Um universo promissor, mas inacabado

Mesmo com a BioWare estando trabalhando duro no Anthem desde o seu lançamento, no estágio atual a impressão é de que o jogo foi lançado muito longe do ideal. É inegável o potencial que reside sob a superfície do título, com o seu universo ainda podendo ser consideravelmente expandido e várias mudanças podendo torná-lo muito melhor.

Há algumas escolhas erradas de design no Anthem que provavelmente não poderão ser alteradas, como a maneira como o Fort Tarsis funciona ou até mesmo a forma como adquirimos novos itens. Ainda assim, se novos conteúdos forem adicionados com frequência é possível que o game continue atraindo a atenção das pessoas.

Uma boa ideia seria implementar um modo competitivo, já que por enquanto só temos batalhas contra o computador e isso poderia ser uma ótima maneira de manter o pessoal entretido e ganhando novos equipamentos. Porém, acredito que no momento a prioridade do estúdio seja corrigir os que não tem dado muito certo e melhorar a experiência cooperativa.

Talvez o enredo do Anthem falar sobre deuses que criaram um mundo pela metade seja mais do que uma simples coincidência com o próprio desenvolvimento do jogo e por isso a torcida é para que, ao contrário do que vimos acontecer na terra do Hino da Criação e das Lanças, os responsáveis por este universo também não deixem o trabalho pela metade.

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