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Feliz Ano Novo, seja lá o que for isso

Feliz Ano Novo, mas será mesmo? Quem define quando é um ano novo? Isso é bem mais complicado do que aparenta, por pura falta de colaboração do Universo...

02/01/2019 às 15:02

Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo, yuuupii, mas você sabe o que está sendo comemorado? Que diabos é um ano afinal?

Em teoria um ano seria um período orbital completo, o tempo que a Terra leva para dar a volta e retornar ao mesmo ponto. Qual ponto? Não importa. E a data, 31 de Dezembro, qual seu significado? Exato, nenhum.

A virada do ano não é sequer no Periélio ou no Afélio, os pontos onde a Terra está mais próxima e mais distante do Sol. E ela não tem nenhuma relação com o número de dias do ano.

É uma paulada na nossa visão antropocêntrica do mundo, mas o Universo está pouco se lixando pro Homem, e não cria as coisas para nos agradar. Pra começar, basicamente nunca temos contas certinhas e fechadas. Quanto ao ano, qual deles? Temos vários tipos de anos, como:

1 - Ano Solar

Ele é obtido medindo-se o tempo que o Sol leva entre os equinócios, em Março ou Setembro. Ele equivale a 365 dias  horas 48 minutos e 6 segundos.

2 - Ano Sideral

Essa medida é feita acompanhando quanto tempo o Sol leva para voltar à mesma posição em relação a estrelas específicas no céu. O Ano Sideral tem duração de 365 dias, 6 horas, 9 minutos e 9 segundos.

3 - Ano Anomalístico

É medido pelo tempo em que a Terra leva para completar uma revolução, medida de um dos apsides da órbita, os pontos mais extremos da elipse. O ano Anomálistíco tem 365 dias 6 horas 13 minutos 52.6 segundos.

Também temos Ano Dracônico, Ano Lunar, Ano Vago, Ano Heliacal, Ano Sótico, Ano Gaussiano, Ano Besseliano... e pra piorar os valores acima não são constantes, a órbita da Terra é alterada o tempo todo por influência gravitacional da Lua e dos outros planetas. Um ano nunca tem a exata duração de outro.

Mas todo ano tem 365 dias e uns quebrados, certo?

Aqui temos outro problema. O que é um dia? O tempo que a Terra leva para girar em torno de seu eixo? Há várias formas de medir isso. Temos o...

Dia Solar

Que é quando medimos o intervalo de tempo entre dois nascer - nasceres - dois momentos em que o Sol aparece no começo da manhã. Em média o dia solar tem 24 horas, 3 minutos e 56.555 segundos. Mas temos também o...

Dia Sideral

Medido acompanhando o movimento de uma estrela e medindo quando tempo ela leva para passar pelo menos meridiano celeste. O dia sideral mede em média 23 horas, 56 minutos, 4.091 segundos. AH e temos o...

Dia Sinódico

que tem 24 horas e 2.5 milissegundos because fuck you.

Nesse momento você já deve ter percebido que nunca vai conseguir dividir a duração do ano pelo número de dias e achar um número exato. Ainda mais com detalhes como a velocidade com que a Terra percorre sua órbita não é constante, ela acelera quando se aproxima do Sol e desacelera quando se afasta. Não reclame comigo, a culpa é do Kepler.

Habemus César

O Calendário Romano era usado pelos... wait for it... romanos, mas era uma zona. Ele tinha 12 meses que variavam de 29 a 31 dias, e de vez em quando incluíam um mês extra entre Fevereiro e Março, pra realinhar as datas, já que como a quantidade de dias não batia com a duração do ano, as estações do ano se afastavam dos dias corretos, e não dava pra planejar nada, o que é a função básica de um calendário.

Cansado de não conseguir planejar sua tradicional viagem pra Maricá na Semana Santa, Júlio César mandou seus astrônomos criarem um calendário melhor, e assim nasceu o calendário Juliano, com meses variando entre 30 e 31 dias, e Fevereiro tendo 28 num ano normal e 29 num ano bissexto. O calendário Juliano trabalhava com uma duração do ano de 365.25 dias, o que era bem próximo do Ano Sideral, mas não perfeitamente próximo.

Mesmo assim o Calendário Juliano foi bom o bastante para funcionar de 46AC até 1582.

Com ele foi possível associar firmemente datas a eventos naturais, e eventualmente Plínio, o Velho (23DC - 79DC) determinou o dia exato da chegada do Solstício de Inverno: 25 de Dezembro, data que mais tarde foi kibada por um culto novo e esquisito, que eventualmente distorceu e desvirtuou o verdadeiro significado da data.

Claro, o calendário juliano não era perfeito e com o tempo as minúsculas imprecisões fizeram com que as datas se afastassem dos equinócios, e isso era complicado para todo mundo, seja quem planta, seja a Igreja, que tem todo um calendário de eventos, e o Papa Gregório XIII ficou irado quando além de ninguém conseguir dizer quando ia cair o Carnaval, ainda erravam a data por dez dias, o período de tempo em que o calendário Juliano estava defasado da posição real da Terra.

Gregório chamou os Jesuítas, o SEAL Team 6 da Igreja, e comandando o projeto estava Christopher Clavius, padre, astrônomo, matemático e homenageado com a segunda maior cratera na Lua.

As mudanças foram brutais. Pra quem reclama de Horário de Verão, imagine ir dormir no dia 4 de Outubro de 1582 e acordar na manhã seguinte sendo 15 de Outubro de 1582. Isso deve ter zoneado completamente os celulares, e todos os microondas do Vaticano piscavam 12:00. Só que essa foi só a primeira mudança.

O Calendário Gregoriano trabalha com um ano de 365.2425 dias, o que é um pouco acima do Ano Solar de 365.2422 dias. Essa diferença era corrigida a cada 4 anos, se o ano fosse divisível por 4 um dia era acrescentado a Fevereiro.

SÓ QUE... isso acabava criando uma diferença para trás, e com o tempo as datas derivariam se afastando dos equinócios.

A solução? Se for virada de Século, com o ano divisível por 100, não haveria dia extra, mesmo se o ano fosse divisível por quatro.

SÓ QUE... agora criaram uma nova imprecisão, e a data avançaria, bem mais lentamente mas avançaria, se dessincronizando. A variação era mínima, mas a Igreja Católica pensa a longo prazo, então calcularam uma última correção:

Se for virada de Século MAS o ano for divisível por 400, então Fevereiro tem 29 dias. Dessa vez dá pra sobrevivermos alguns milhares de anos sem mais ajustes, embora a lonnnnnnnngo prazo as datas voltem a derivar.

O Calendário Gregoriano foi adotado pelos países católicos em 1582, mas boa parte do mundo ainda ficou com o Juliano ou outros calendários locais, há literalmente centenas deles. Hoje ele é o calendário "universal", usado para negócios e sincronização de dados no mundo todo.

E tem o Segundo Bissexto

Que não é bissexto. Antigamente as unidades de tempo eram medidas em relação ao movimento da Terra, hoje são independentes, mas no papel o dia ainda tem 24 horas, uma hora tem 3600 segundos, só que a Terra não só não leva exatamente 24 horas para girar em torno de seu eixo, e pra piorar esse movimento não é preciso. Efeitos gravitacionais da Lua, Terremotos e erupções vulcânicas afetam a duração do dia.

Dia esse que fora essas alterações aleatórias, vem aumentando por causa da Lua, 600 milhões de anos atrás um dia durava 21 horas. Em média os dias ficam 1.7 milissegundos mais longos a cada século, então aquela sensação na sala de aula que a hora não anda? Totalmente justificada.

O terremoto do Japão em 2011 por exemplo, encurtou o período de rotação da Terra em 1.8 microssegundos e alterou o eixo do planeta em 17cm. Em 2012 o Horário Universal foi ajustado em mais um segundo.

A última alteração foi em 2016, quando 31 de Dezembro ganhou um segundo a mais, para alegria de ninguém.

Conclusão

O Ano-Novo dia 31 de Dezembro é um momento arbitrário no tempo, não tem nenhuma relação explícita com qualquer evento astronômico. É um dia como qualquer outro. As pessoas se reúnem para celebrar... nada. Mas será isso ruim?

Nós humanos somos programados para achar significado nas coisas, nossos cérebros evoluíram como brilhantes máquinas de associação de idéias, nós amamos rotinas, ciclos e padrões. Entendemos instintivamente os ciclos das estações e nos preparamos pra eles. Associamos pegadas e carcaças com predadores e aprendemos a fugir deles.

Ninguém sabe quando foi comemorado o primeiro aniversário, quando, em uma caverna no Serengeti um proto-humano percebeu que seu filhote estava com ele desde a última vez que as Chuvas vieram, e decidiu que era algo a se celebrar, mas hoje nós celebramos.

Seja aniversário, seja centenário, seja a celebração da Queda da Bastilha na boate Gallery, que culminou com um strip-tease e leilão das roupas da Matilde Mastrangi, nós celebramos. O ano-novo é antes de tudo um momento simbólico, um ponto arbitrário no tempo em que repensamos, planejamos e renovamos a esperança e a vontade de lutar por uma vida melhor.

Celebre, corra atrás e não se preocupe em não achar lógica no Ano-Novo em si. Como disse um grande filósofo, lógica é o princípio da sabedoria, não o fim. Você pode escolher qualquer dia do ano pra bater o pé e dar um jeito na sua vida, ou pra celebrar todas as coisas boas. Faça seu Ano Novo quando quiser, mas faça, pois como já dizia o poeta, o tempo não pára.

Feliz 2019, ou 1381 se você segue o calendário de Burma, ou 175 se segue o Bahá'í, 2563 se segue o budista, ou 6769 se segue o assírio, mas pensando bem quem ainda segue o calendário assírio?

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