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Astronauta repleto de despeito desdenha da SpaceShip Two de Richard Branson

O sucesso do primeiro vôo espacial da VSS Unity foi acompanhado de... desdém e inveja. Um astronauta australiano destilou litros de veneno chamando a tecnologia da empresa de Richard Branson perigosa e "um beco-sem-saída".

39 semanas atrás

Nos últimos meses descobrimos algo surpreendente: Astronautas, apesar de todo seu heroísmo são... humanos. Isso significa que eles também podem ser inseguros e se ressentir de perder a admiração popular. Esse sentimento chega a ser institucional, como já foi demonstrado quando a NASA desencadeou toda uma investigação envolvendo a SpaceX e a Boeing, só porque Elon Musk apareceu num podcast fumando (mal) um cigarro de tabaco jamaicano.

Não é de hoje que a NASA se ressente da SpaceX, houve quem reclamasse da insistência da SpaceX em desenvolver foguetes reutilizáveis, algo que a NASA tentou por décadas e nunca fez (não, o Shuttle é recauchutável, levava um ano pra voar de novo). No choque cultural entre as duas organizações consultores da NASA decidiram que a SpaceX oferece "grave risco" aos astronautas.

A NASA chegou a reclamar até do Roadster, afinal é ofensivo para eles a SpaceX atrair tanta atenção, maravilhar tanta gente com um simples teste. É errado! O protocolo diz que testes devem usar simuladores de massa, um bloco de concreto do tamanho de uma carga típica. Mandar um carro e fazer streaming disso é humilhante pra uma agência que não queria nem colocar câmeras nas Voyagers e Pioneers, e teve que ser convencida por Carl Sagan, batendo forte na tecla da divulgação científica. Para os cientistas as imagens bonitas trazem muito pouca informação, então eram irrelevantes.

Essa implicância não é só com a SpaceX. Há bastante gente de agências espaciais torcendo o nariz para a Blue Origin de Jeff Bezos, dizendo que o New Sheppard é um brinquedo para ricos, mesmo ele levando vários experimentos da própria NASA em cada um dos lançamentos de teste.

Agora a bola da vez é a Virgin Galactic, de Richard Branson, nosso Tony Stark fora do expediente que entre outros inovou criando o conceito de Carmen Electra pra viagem.

Branson aliás não tem uma, mas duas empresas espaciais. A Virgin Galactic e a Virgin Orbit. Curiosamente a Orbit é a mais ambiciosa, se tudo der certo em 2019 ele fará seu primeiro lançamento.

Eles vão usar uma tecnologia já testada pela Orbital ATK, onde um avião leva o foguete até uma altitude considerável, ele é lançado durante o vôo e assim evita ter que atravessar a parte mais densa da atmosfera. O foguete é o Launcher One e o avião é um 747 modificado chamado Cosmic Girl:

A outra empresa é a Virgin Galactic, que pretende levar ao espaço (momentaneamente) turistas, entusiastas, cientistas. Ela é fruto do Prêmio X, vencido pela SpaceShipOne, projetada por Burt Rutan e financiada por Paul Allen. A SpaceShipTwo é uma classe de naves maiores, com capacidade de levar vários passageiros.

A primeira nave, a VSS Enterprise foi perdida em um acidente em Outubro de 2014, o que atrasou bastante o programa, todos preferiram ir com calma, tanto que nesse meio-tempo a VSS Unity, a segunda nave da frota de Branson só havia feito três vôos, e desses apenas um foi com o motor acionado, e mesmo assim ele voou em linha reta, sem tentar a trajetória parabólica.

Agora dia 13 de Dezembro eles finalmente fizeram um vôo, ainda sem usar toda a potência do motor, mas atingindo uma altitude de 82.7Km, o que dependendo de a quem pergunte, pode ser considerado limite inferior do espaço, ao menos a definição oficial nos EUA é de 80Km.

Foi a primeira vez desde 8 de Julho de 2011, na missão STS-135 do ônibus espacial, que astronautas americanos chegaram ao espaço em uma nave própria.

A Virgin celebrou com um vídeo lindo, uma carta de Richard Branson a seu neto, exaltando o pioneirismo, traçando paralelos com os primeiros anos da aviação:

Nem todo mundo está celebrando, claro. Um tal de  Andy Thomas, astronauta australiano, desdenhou forte a VSS Unity e o projeto como um todo.

Ele reclamou que Richard Branson diz que vai colocar pessoas no espaço, mas a nave faz um vôo parabólico, não orbital, e assim que chega na altitude máxima, começa a cair.

Todo mundo sabe. A energia necessária para atingir 100, 150Km de altitude, como a Unity e a New Sheppard farão é 3% da energia necessária para colocar algo em órbita. Isso está mais que descrito nos materiais.

Outra reclamação do Andy é que Branson vende a viagem como algo seguro, que pessoas comuns podem fazer, quando aeronaves de alta performance são perigosas, há muito risco envolvido. Só que isso está sendo levado em conta desde o início do projeto, o objetivo é fazer algo muito mais seguro que um ônibus espacial, e não há nenhum motivo prático para a Unity e suas sucessoras não serem tão seguras quanto um 737.

Ele também diz que "Como tecnologia para levar humanos ao espaço ela não vai a lugar nenhum, é um beco-sem-saída de tecnologia".

Por essa lógica a Cessna deveria fechar, afinal seus aviões são péssimos para levar toneladas de carga em viagens de dez mil quilômetros, e como caças avançados então, nem se fala.

Andy não entende que são mercados diferentes, a Virgin Galactic pode ser tornar por exemplo a fornecedora primária de treinamento em microgravidade para a NASA e outras agências. No Cometa-Vômito consegue-se 15, 20 segundos de microgravidade. Na Unity, pelo menos 3 minutos.

Ele chegou a desdenhar do interesse de Richard Branson em montar um espaçoporto na Austrália, dizendo que Branson iria pedir incentivos fiscais e não teria para onde crescer, dadas as "limitações" da VSS Unity.

Fica claro que a idéia de pessoas comuns chegando ao espaço nas asas de uma nave bancada por um playboy, bilionário, gênio, filantropista não agrada aos representantes do Status Quo Espacial, que querem manter seus domínios livres de curiosos, com seus planos de longo prazo, como a NASA querendo pensar em colocar gente em órbita da Lua (sem pousar) na década de 2030.

Pessoas normais não aceitam mais esses prazos burocráticos, vivemos em tempos ágeis. Mais ainda, vivemos em tempos mundanos onde ser passageiro em uma nave espacial é isso, ser passageiro, e ir ao espaço não será mais coisa de super-humanos invejados e admirados pelas massas. Quem tem esse status hoje, e está perto de perdê-lo, faz o que pode, felizmente tudo que podem fazer é apontar pras uvas e dizer que estão verdes.

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