Discord está se tornando uma pedra no sapato do Skype

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O Skype pode enfim ter encontrado um adversário a altura, e ele veio de onde menos se esperava: da comunidade gamer. O Discord, um cliente de chamadas de voz, vídeo e texto voltado principalmente para quem curte joguinhos com seus amigos possui uma grande quantidade de recursos e funcionalidades que embora tenham sido introduzidos para satisfazer as necessidades dos jogadores, indiretamente o estão tornando uma plataforma mais especializada que a da Microsoft.

A história do Discord é no mínimo curiosa: Jason Citron, criador do OpenFeint, uma antiga plataforma social móvel usou o dinheiro de sua venda para a GREE (que o descontinuou tempos dpeois) para fundar a então Hammer & Chisel (hoje Discord Inc.), um estúdio de games incialmente responsável pelo aclamado pela crítica mas completamente ignorado pelo público Fates Forever, um MOBA para iOS e o primeiro a ser lançado para dispositivos móveis. Ele observou no entanto as dificuldades que os desenvolvedores tinham para se comunicar quando experimentavam outros games para PC, o que em 2014 era um pouquinho mais complicado que hoje: ferramentas como Mumble e TeamSpeak exigiam o compartilhamento de endereços IP, que não era um método lá muito seguro além de outros fatores. Tendo isso em mente a companhia iniciou o desenvolvimento de uma ferramenta de chat para gamers que fosse simples, leve e descomplicada, além de contar com uma identidade visual atraente inspirada em apps de chat móveis…

Lançado em maio de 2016, o Discord foi rapidamente adotado pela comunidade por uma série de características únicas: ele reconhece o que o usuário está jogando e se integra a perfis de plataformas de games do jogador, como Steam e Battle.net; é multiplataforma, rodando em navegadores e também Windows (apenas Win32, os da Windows Store são de terceiros), macOS, Linux (em fase de testes), iOS e Android; permite o chat de forma descomplicada através da criação de salas e a existência de servidores locais diminui bastante o lag entre as conversas (você pode fazer chamadas pessoais e abrir conversas temporárias sem criar servidores, se assim desejar); há a possibilidade de conversas por texto, voz e recentemente, por vídeo (inclusive com compartilhamento de tela); oferece a inserção de bots com funções das mais variadas, servidores verificados de games e desenvolvedores e por aí vai. A interface similar ao Slack é um ponto positivo para quem usa o serviço, pois diminui a curva de aprendizado.

Hoje o Discord é o app de chat favorito entre os gamers e já recebeu aportes volumosos de investidores, somando US$ 79 milhões até agosto, e a Discord Inc. já percebeu que possui bala na agulha suficiente para brigar de frente com a Microsoft: nas últimas campanhas a empresa passou a posicionar sua solução como uma opção séria ao Skype para quem utiliza o cliente especificamente para conversar enquanto joga, mas ele pode ser atraente a outros perfis usuários.

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Vejamos um exemplo clássico: gravação de podcasts. Um dos maiores desafios para quem deseja atingir um mínimo de qualidade é captar trilhas de áudio dos participantes em canais separados, ao invés de gravar tudo em uma única faixa e coordenar na unha quando cada um fala. Embora hajam ferramentas capazes de otimizar isso, sejam físicas (como mesas de som) ou lógicas (no SciCast usávamos uma gambiarra gigante envolvendo o Ableton e o SoundFlower, mas funcionava), a forma mais prática de fazê-lo é pedir para cada um gravar localmente (com o Audacity, por exemplo) e sincronizar no início.

O Discord, graças ao suporte a bots de código aberto conta com uma solução muito mais simples: o Craig é capaz de gravar o áudio de cada uma das pessoas presentes no chat, cada um em uma faixa separada; isso é bem útil principalmente em conjunto com o áudio bruto de todos em um só canal (através de outros bots como o Audio Recorder ou o Echo), que é usado como guia de sincronização. Tal ferramenta é excelente principalmente em casos em que um usuário perde o áudio e todo o processo vai para o cucuia, o bot faz tudo sozinho.

A duvida reside no aparente comodismo da Microsoft frente ao crescimento do Discord. Ainda que o Skype seja a ferramenta campeã no que diz respeito a chats de áudio e vídeo e dificilmente corporações abrirão mão dele por um app gamer, por mais coisas que ele faça because reasons, Redmond deveria ao menos oferecer mais funcionalidades que igualem ambos e mantenham seu produto atraente para o usuário final, principalmente o gamer. Claro, a posição do CEO Satya Nadella hoje é investir em nuvem, IA e mercado corporativo em primeiro lugar e prover soluções ao usuário final não são prioridade, logo é provável que só incorporem aquilo que for conveniente ao Skype no ponto de vista de negócios, como tradução simultânea e outras coisinhas.

Enquanto isso, para usos que não corporativos pode ser que o Discord de fato tome a liderança do setor, se continuar crescendo como o fez até agora.

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Autor: Ronaldo Gogoni

Profissional de TI auto-didata, blogueiro que acha que é jornalista e careca por opção. Autor do Meio Bit e Portal Deviante, podcaster/membro fundador/Mestre Ancião do SciCast e host/podcaster do Sala da Justiça.

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