Ronaldo Gogoni 12/05/2026 às 10:26
Fato: "a necessidade é a mãe da invenção" é uma das grandes verdades universais; pessoas sempre buscarão meios de conseguirem o que querem, o que autoridades ao redor do globo vêm contemplando ao constatar que menores conseguem, com certa facilidade, contornar sistemas de verificação de idade impostos por leis em países como Reino Unido, Austrália e Brasil.
Na terra do Rei, uma pesquisa publicada recentemente revelou que quase metade dos jovens entre 9 e 16 anos do país acham que o sistema implementado é fácil de driblar, e ao menos um terço deles já o fez com gambiarras diversas, incluindo a mais ingênua, porém eficiente, das táticas: bigodes falsos.
Pesquisadores ligados à ONG britânica Internet Matters, que oferece serviços de aconselhamento e consultoria a empresas e famílias sobre a proteção de menores na internet, entrevistaram 1.270 jovens (cuidado, PDF) com idades entre 9 e 16 anos e seus pais, questionando-os sobre pontos relativos à Lei de Segurança Online (Online Safety Act, ou OSA), que força companhias de tecnologia, redes sociais, desenvolvedoras de games e afins a implementarem medidas para proteger os pequenos dos males da internet.
De modo resumido, empresas devem monitorar todo o tráfego e conteúdo em seus produtos, seja criado por elas ou por usuários, bloquear tudo remotamente ligado à pornografia infantil (CSAM) e impedir que menores acessem materiais impróprios, via um sistema de verificação de idade; adicionalmente, menores de 16 anos não mais poderão acessar redes sociais.
A OSA gerou uma briga de larga escala entre o governo britânico e a Apple, pela exigência de acesso a todo o conteúdo do iCloud de todos os usuários globais, no que a empresa respondeu removendo o recurso de criptografia no país (o que ainda é questionado pela Lei); paralelo a isso, parlamentares consideram forçar VPNs a cumprirem a Lei, proibindo o acesso por menores e rastreando tudo, o que minaria seu propósito e foi classificado por defensores de direitos na internet como vigilantismo estatal.
Leis em outros países seguem o modelo britânico e australiano, com o ECA Digital no Brasil indo além e impondo uma reformulação completa do sistema de classificação indicativa, que restringiu inúmeros games, como as séries EA FC e Call of Duty, e todos os gachas, a acesso apenas por adultos.
Para endossar a aplicação da lei, sistemas de verificação de idade que usam coleta de documentos oficiais e sistemas de biometria começaram a pulular em todo canto, alguns, como o da União Europeia (UE) e o implementado pelo Discord, com falhas de segurança grotescas. A pesquisa realizada no Reino Unido também apontou isso, no que 47% dos jovens tendo dito que tais recursos são fáceis de contornar.
Um terço dos entrevistados inclusive admitiu já ter dado um balão no sistema de verificação britânico, o que já foi comprovado por meio do uso de avatares fotorrealistas em games como Death Stranding 2, mas os relatos incluem métodos mais simples como desenhar um bigode falso no rosto, o que, incrivelmente... funciona.
Outros métodos usados por menores para driblar a verificação incluem óbvios como mentir a idade, apresentar o documento de um adulto para verificação ou simplesmente apontar a câmera para o rosto de outra pessoa no mesmo ambiente. Outros usam soluções generativas de Inteligência Artificial (IA) para criar avatares realistas, e outros ainda apelam para VPNs, um dos cenários que os legisladores britânicos querem evitar.
Agora a cereja do bolo: alguns dos próprios pais ajudam os filhos a darem um perdido no sistema de verificação de idade, algo que ninguém com mais dois neurônios (o que exclui políticos) imaginou que não aconteceria em algum momento.
Tal situação é algo que profissionais de segurança apontam desde o início da onda das leis globais que pensam nas criancinhas enquanto controlam (mais) a vida online de todo mundo: sistemas do tipo, para serem minimamente eficientes, precisam balancear usabilidade, privacidade e segurança, além de fecharem todas as brechas que viabilizem métodos de circunvenção; por exemplo, exigir escaneamento facial E de digitais e confrontar tais dados com documentos oficiais, para identificar de modo fidedigno quem está do outro lado da tela.
Por outro lado, o simples fato de que pais estão ativamente sabotando a iniciativa em prol de seus filhos, seja por não querem amolação ou para evitar que os mesmos recorram a métodos mais inseguros, como conexões proxy ou P2P (leia-se a Locadora) põe tudo a perder; vale lembrar que, em outro caso de "casa de ferreiro, espeto de pau", pr0n é bloqueado por padrão no Reino Unido, o usuário adulto ou pede o desbloqueio junto à operadora ou usa VPN, o que até membros do Parlamento fazem.
No mais, a verificação de idade online já assumiu contornos de um jogo de gato e rato, em que governos continuarão brigando para impor restrições de modo a tampar brechas e buracos, que continuarão aparecendo e sendo exploradas por menores.
Fonte: ExtremeTech