Ronaldo Gogoni 12 semanas atrás
Tubarão, ou Jaws no original em inglês, o filme de Steven Spielberg baseado no livro de Peter Benchley, completou 50 anos em 2025. Para comemorar (?) a Limited Run Games, empresa voltada a resgatar games antigos relançando-os em versões digitais para novas plataformas e em novas físicas para os originais, decidiu trazer do fundo do mar o questionável game do NES com uma nova roupagem, na forma de Jaws: Retro Edition.
O título original sempre figurou entre os piores games baseados em filmes da história, e uma das mais terríveis adaptações distribuídas pela notória LJN. Quase 40 anos depois, ele ressurge em uma curiosa coletânea que traz o jogo original e uma versão "revista e ampliada", cuja existência é um tanto questionável.
A criação de Jaws, o game, é pitoresca por conta própria. Lançado para o NES em 1987 na esteira de Tubarão IV: A Vingança (que na verdade é o terceiro filme da cronologia; Tubarão 3-D, ou III, dependendo da versão, foi ignorado pelos produtores e hoje é visto como um spin-off), ele foi o segundo título distribuído pela LJN, empresa que se tornou infame por publicar vários dos mais atrozes jogos baseados em franquias do cinema e das HQs, para diversos sistemas.
Alguns de seus primeiros títulos foram desenvolvidos pela Atlus, mas no caso específico de Jaws, a desenvolvedora japonesa arrolou o trabalho para outro estúdio, a então Escape, que não foi creditada. Posteriormente renomeada Westone, esta é lembrada como a desenvolvedora original da franquia Wonder Boy, usada pela Tectoy como base para vários games locais estrelados pela Turma da Mônica.
Independente disso Jaws é um game terrível, tanto quanto outras pérolas da LJN como The Karate Kid, Back to the Future Part II & III, The Uncanny X-Men, Wolverine, Friday the 13th e tantos outros. Uma das poucas exceções foi o beat 'em up do Super NES Spider-Man and Venom: Maximum Carnage (1994) da Software Creations, que tem ao menos uma bomba em seu catálogo, a versão do (igualmente horrível) filme A Ilha da Garganta Cortada, mas esse foi distribuído pela Acclaim.
Isso posto, "por que redistribuir justo Jaws?" foi o que todo mundo se perguntou. A Limited Run tem se envolvido em polêmicas nos últimos anos por uma série de decisões mercadológicas que entram em conflito com sua suposta missão de preservar games antigos, e este game não escapou disso. A companhia oferece uma versão física por US$ 35, e uma Edição de Colecionador por surreais US$ 100. Um game horrível do NES. Claro que é um esforço válido pelo mote de resgatar um título antigo, mas criar FOMO em cima de um jogo infame é uma estratégia para lá de questionável.
"Mas e o game?", você pergunta. Bem, Jaws: Retro Edition inclui a ROM original e um hack autorizado pela LAT Corporation, os controladores do espólio da Westone, a tal Enhanced Edition. No game original, que mescla elementos dos 4 filmes, mas principalmente segue uma linha mais próxima do primeiro, você controla um barco em um mapa compacto e fica zanzando entre dois portos, para aprimorar sua embarcação e armas.
Entre o trajeto, você entra em encontros aleatórios à la JRPGs, onde você deve abater peixes e tubarões menores em busca de conchas (a moeda do jogo, necessária para os upgrades) e outros itens. Eventualmente você vai acabar se encontrando com "o" grande tubarão branco (que no game é efetivamente chamado de Jaws, mesmo nunca tendo sido nomeado assim no cinema), mas só será capaz de matá-lo se estiver forte o bastante. Em caso positivo, a batalha final muda para a perspectiva da frente do barco, onde você deve arpoar o dentuço de forma similar ao fim de Tubarão IV: A Vingança.
Jaws, o game dos NES não tem muito mais que isso, é um título quase que experimental, e a Enhanced Edition não teria como se distanciar do molde original nem se quisesse. Podemos dizer que a ROM hackeada adiciona "tempero", fornecendo agora uma barra de energia que lhe permite durar mais, além de incluir missões e desafios e uma espécie de linearidade de eventos, que referencia de modo adequado todos os quatro filmes.
Os encontros aleatórios na Enhanced Edition são menos constantes e há mais armas e habilidades, os upgrades do barco agora são setorizados, adicionando mais uma camada de estratégia ao gameplay. Pense nessa versão como uma extrapolação do game original, o que Jaws poderia ter sido se houvesse mais tempo para desenvolvê-lo e a equipe da Westone trabalhasse melhor as ideias implementadas em 1987.
Só não se iluda pensando que isso torna Jaws: Enhanced Edition um bom game. Se o original é um prato de quiabo, o hack é quiabo com ketchup: mais tragável com certeza, mas ainda uma experiência que você preferiria não encarar, dada a oportunidade. Porém, vale citar que o game recebeu em ambas as versões ajustes de Qualidade de Vida (QoL), como a remoção do flickering e do irritante costume das águas-vivas surgirem embaixo de você quando estiver no leito do mar, de modo impossível de desviar delas.
Por outro lado, não há o que reclamar da trilha sonora de Shinichi Sakamoto (série Wonder Boy), as músicas continuam muito boas e podem ser curtidas à parte, no obrigatório Music Player. As demais opções de um port moderno de games antigos também se fazem presentes, como a Galeria que inclui propaganda da época original, e scans da caixa do cartucho do NES e do manual. Você também pode ligar um filtro que adiciona linhas de um monitor CRT e decorar a tela com fundos temáticos.
Jaws: Retro Edition é uma criatura (das profundezas) muito estranha. Por mais que a Limited Run use o argumento de preservação de games antigos, é fato que a maioria dos fãs preferiria o resgate de outros jogos do NES mais memoráveis e de melhor qualidade, ou mesmo uma nova versão física (e digital para mais sistemas) de Spider-Man and Venom: Maximum Carnage, o único game decente que a LJN distribuiu em sua longa história de lançamentos radioativos.
As versões físicas de Jaws: Retro Edition pairam entre o questionável e a mais pura insanidade, já a versão digital disponível para PS5, Switch e Windows é aceitável, ainda mais por não ser cara, embora eu acredite que muitos ainda vão achar que ele não vale o que a Limited Run cobra.
E sinceramente, não estão tão errados.
No mais, fique com o review de James "AVGN" Rolfe, que diz tudo o que você precisa saber sobre a versão original de Jaws.
DISCLAIMER: É o Angry Video Game Nerd, óbvio que tem MUITOS palavrões e termos escatológicos.
Pontos Fortes:
Pontos Fracos: