Carlos Cardoso 42 semanas atrás
Alien: Earth é o último fruto de uma franquia com altos e baixos; altos muito altos, e baixos muito baixos, talvez porque somente Ridley Scott e James Cameron a entenderam, mas agora parece que temos -finalmente- um sucessor digno.

Meio fora de escala mas tudo bem (Crédito: FX / Hulu / Disney)
Lançado em maio de 1979, Alien – O Oitavo Passageiro (nono, se contar o gato) é visto hoje como um clássico da ficção científica e do terror, mesmo tendo sido recebido com cara de nojinho pela crítica esnobe dos EUA, que abomina ficção científica.
A história dos astronautas presos na nave com o alienígena, o conceito do facehugger atacando e inseminando suas vítimas, um a um sendo exterminado, bebe dos melhores filmes de terror.
Em 1986, James Cameron transformou Alien em Aliens, com mais bichos malvados e mais soldados, digo, fuzileiros. Os elementos de terror continuavam ali, os detectores de movimento ainda são um dos momentos mais tensos da História do Cinema, mas agora a história era muito mais ação. O filme foi um sucesso de público e crítica, consolidando o papel de Sigourney Weaver como chutadora de bundas, mas não foi o fim da história.
Sem muitos detalhes, basta dizer que a franquia caiu na mão de gente que não entendia ou não gostava da premissa original, e quis enfiar suas próprias ideias e agendas, ignorando ou minimizando os pontos que tornam Alien um grande conceito.
De lá para cá, o máximo que dá para dizer sobre os filmes é “meh”, com a constante do conceito de enviarem as pessoas mais burras da galáxia para lidar com os aliens, tipo em Prometheus, quando o exobiólogo treinado vê os corpos mortos, sangue, tripas, um ovo sinistro abrindo e chega bem perto para ver melhor.
Outro problema, que é bem comum em franquias de ficção científica, é a ausência de world building. Em Star Trek, por exemplo, sabe-se muito pouco do dia-a-dia das pessoas fora dos ambientes principais das séries. A Série Clássica passou três temporadas sem mostrar um frame da Terra, com basicamente zero informação do que acontecia por aqui envolvendo gente comum.
Em Alien, sabemos da Companhia, a Weyland-Yutani, e pouco mais. É sempre a premissa de um grupo isolado enfrentando o bicho feio, com a corporação malvada se autossabotando por algum motivo. Alien: Earth muda isso tudo.
A série se passa em 2120, dois anos antes do filme original, que acontece em 2122. O começo é quase um déjà vu do primeiro filme; uma tripulação em uma nave - a Maginot - com seus afazeres do dia-a-dia, comendo, conversando, até que algo degringola e eles entram em rota de colisão com a Terra.
É uma forma brilhante de dizer que estão voltando às raízes, que a série bebe do Alien original de Ridley Scott, e a direção de arte deixa claro que a inspiração não é só temática.

Ambientação Anos 1970 total, até os cortes de cabelo (Crédito: FX / Hulu / Disney+)
Todo o visual da Nostromo foi replicado, com aquele delicioso (hoje) retrofuturismo dos anos 1980, cheio de luzes, botões e teclados, terminais CRT sem tela de toque, muito texto e gráficos simplórios. É uma familiaridade que os fãs de Star Trek, com Discovery e Strange New Worlds não tiveram o luxo de experimentar.
Em, digo, na Terra somos apresentados a Boy Kavalier, um jovem trilionário CEO da Prodigy, uma das 5 mega-corporações que controlam o mundo, ignorando governos nacionais enfraquecidos, e a realidade daquele mundo se amplia cada vez mais, quando vemos seus desmandos, suas forças paramilitares assumindo o controle de situações públicas, e sua teimosia em fazer tudo do seu próprio jeito.
Um dos projetos principais de Kavalier é a criação de híbridos, uma forma de derrotar a própria morte. Basicamente ele uniu a tecnologia de sintéticos com uma forma de transferir memórias e padrões mentais de humanos para um cérebro eletrônico, mas o processo só funciona com crianças.
Aqui uma pausa para a explicação da hierarquia no mundo de Alien: Earth. Nós temos:
Calma, não é uma série do Spielberg, os híbridos de Kavalier possuem mentes infantis, mas corpos de adultos, o que é um desafio para os autores e roteiristas, mas o resultado é excelente, e serve para nerfar o fato de serem basicamente super-humanos, capazes de enfrentar o Alien na unha.

Wendy, ferida. E isso é sangue sintético, tire sua mente do esgoto! (Crédito: FX / Hulu / Disney+)
A Maginot veio de uma expedição científica trazendo várias amostras, então além dos Xenomorfos de sempre, há várias outras espécies sinistras e perigosas - claro -, e isso muito interessa a Kavalier, que decide tomar a nave da Weyland-Yutani na mão-grande, afinal são basicamente armas de guerra biológica.
Durante a confusão, um ou mais facehuggers escapam, contaminando membros da tripulação, então há um número não-identificado de aliens andando pelo prédio, e eles fazem um belo estrago com as tropas convencionais da Prodigy.
É sinistro. Alien: Earth não se furta ao tema de terror do filme original, há muitos sustos e muitos corpos dilacerados, mostrando que os xenomorfos não estão de brincadeira. Como há um número bem grande de camisas-vermelhas, podem se dar ao luxo de matar gente a vontade, quando o filme se passa em uma nave com tripulação limitada, fica mais difícil.
Muito bom, Padawan, você tem a noção que o Alien não é um vilão, no máximo um antagonista. É uma força natural irracional. O vilão principal, claro, é o Sistema, com Boy Kavalier o personificando, mas para fins práticos, o vilão por enquanto é Morrow, um ciborgue membro da Maginot que se escondeu quando os Aliens começaram a atacar, e agora segue ordens da Yutani para recuperar os Xenomorfos a qualquer custo, ele não tem problemas em matar sem dó para isso. Acho que ciborgues não respeitam as 3 Leis da Robótica.

Morrow é do Mal! (Crédito: FX / Hulu/Disney+)
Pela primeira vez estamos vendo o povo nas ruas, gente em casa, o dia-a-dia do Universo Alien, aí bate a sensação de que não é a primeira vez. Algumas cenas usam a sutileza de um rinoceronte no cio em uma loja de cristais para referenciar Blade Runner, que obviamente também é de Ridley Scott.
Outros filmes já fizeram referências de que as histórias se passam no mesmo Universo, e é algo que os fãs basicamente aceitam. As ruas molhadas e chuvosas, a iluminação escura quase inexistente, os imensos painéis de propaganda... ninguém nessa série é sutil, mas serve para criar uma camada extra de familiaridade e autenticidade.
Sendo honesto com vocês, amados leitores, eu não dava nada pela série, e o primeiro capítulo foi difícil de terminar. Achei muita informação despejada com mangueira de incêndio, muita coisa acontecendo e muitos personagens, mas depois percebi que era a forma de situar o espectador, de forma rápida e brutal, sem ficar apresentando conceitos e pessoas pingando a cada episódio.

"Vamos abrir esse troço, o que pode dar errado?" (Crédito: FX / Hulu / Disney+)
No terceiro episódio fica claro algo muito bom: A história ANDA, não é só um grupo de superkids num prédio com um Alien malvado, eles SAEM do prédio no terceiro episódio, a ação muda de lugar, a história avança, só isso já vale sua audiência.
Primeiro, o problema que me fez desistir de The Expanse por duas vezes antes de conseguir engrenar: no futuro não existe lâmpada elétrica. É tudo mais escuro que coração de ex, não dá para ver NADA dentro da maldita nave, ou dentro do diabo do prédio. Até as instalações da Prodigy são iluminadas por uma lâmpada de 20 velas no meio de um estádio de futebol.
TV é uma mídia visual, se você não tem dinheiro ou talento para fazer a coisa funcionar visualmente, monte uma novela de rádio, cazzo.

A IA é melhor que eu, conseguiu ver algo nessa imagem (Crédito: FX / Hulu / Disney+)
O outro problema é a falta de sutileza, parece que os roteiristas sabem que o Jovem™ tem a mesma capacidade de atenção que um furão chapado de cocaína, então tudo é devidamente explicado, e qualquer referência mais obscura (para os roteiristas) é martelada. Explicaram mais de uma vez que o codinome para as crianças híbridas, Os Garotos Perdidos, é uma referência a Peter Pan. UAU, que obscuro.
Alien: Earth é uma grata surpresa. Uma série modesta, do FX, um canal menor, mas feita com boa vontade e - por que não dizer? - tesão, todo mundo parece querer produzir uma história boa, ampliar o Universo Alien, dar bons sustos e fazer a gente esquecer os filmes chatos. Não é uma série que vai virar megassucesso de público, dado seu nicho, mas que vai ser recebida de peito aberto pelos fãs, igual aos facehuggers.
No Brasil, na Disney+
3,8 /5 Joneses