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Wuchang: Fallen Feathers, ou como enfurecer os gamers

Atualização no Souls-like Wuchang: Fallen Feathers, supostamente para não irritar chineses, despertou a ira dos gamers no resto do mundo

43 semanas atrás

Wuchang: Fallen Feathers é um interessante Souls-like ambientado na China durante o fim da dinastia Ming, vindo na esteira do sucesso merecido de Black Myth: Wukong, que deu mais visibilidade a estúdios chineses.

No entanto, nos últimos dias o game tem chamado a atenção graças a uma polêmica atualização, que mudou elementos cruciais de narrativa e jogabilidade, supostamente para agradar os jogadores do País do Meio, onde o game sequer foi lançado oficialmente, e no processo irritou os demais, mundo afora.

Wuchang: Fallen Feathers (Crédito: Divulgação/Leenzee/505 Games)

Wuchang: Fallen Feathers (Crédito: Divulgação/Leenzee/505 Games)

Wuchang: Fallen Feathers e o "não irrite a China"

A atualização 1.5, liberada pela desenvolvedora chinesa Leenzee no PS5, Xbox Series X|S (onde o game foi adicionado ao Game Pass, como um lançamento de Dia 1), e Windows, corrigiu alguns bugs e introduziu melhorias de Qualidade de Vida (QoL), visto que Wuchang: Fallen Feathers tem um desempenho reconhecidamente deficitário no PC, todas essas modificações bem-vindas.

O que não foi bem recebido foi o resto incluído no pacote: o estúdio fez uma série de alterações na história do game, e modificou a jogabilidade em si, ao tornar vários chefes impossíveis de serem mortos. Desde então eles só ficam "exaustos" e falam com a protagonista, a pirata Bai Wuchang (muito provavelmente baseada em figuras históricas, como Zheng Yi Sao e Huang Bamei), com diálogos ajustados para refletir as mudanças, indo de elogios por "passar no teste", a reconhecerem que estavam errados.

Mesmo o imperador dragão, um inimigo central da trama, não pode ser mais ser morto, o que os gamers acusaram de destruir todo o significado do game em si; estes chegaram a comparar os chefes "imortais", que agora só ficam cansados após o combate, com os monstrinhos de bolso da franquia Pokémon.

Outras mudanças foram feitas em um capítulo específico, em que soldados do império Ming, antes hostis, passaram a ignorar solenemente o jogador, e eles, assim como diversos NPCs, também não podem ser abatidos. Esse capítulo em específico era especialmente desafiador na apresentação original, mas acabou convertido em um "passeio no parque", literalmente.

Wuchang: Fallen Feathers (Crédito: Divulgação/Leenzee/505 Games)

Wuchang: Fallen Feathers (Crédito: Divulgação/Leenzee/505 Games)

O que aconteceu aqui, afinal? A história semi-oficial, já que não houve nenhuma explicação da Leenzee sobre o caso até o momento, aponta para reclamações em massa que Wuchang: Fallen Feathers recebeu dos jogadores chineses, por tomar diversas liberdades artísticas e de roteiro envolvendo personagens históricos.

A Dinastia Ming, que governou o país de 1368 a 1644, tem grande significado para a identidade do povo da China, principalmente por ser um governo Han, o maior grupo étnico do mundo (17,5% da população da Terra, com 1,4 bilhão de pessoas), que responde por 91% dos cidadãos. As reclamações girariam em torno de como personagens e o povo Ming foi retratado, como inimigos e hostis ao jogador, quando deveriam ser representados sob uma ótica mais positiva.

Só tem um pequeno problema nessa lógica: Wuchang: Fallen Feathers não foi oficialmente lançado na China. O game não se adequou às regras duríssimas que o governo de Pequim impõe a estúdios locais que possuem títulos voltados ao público global, onde são "estimulados" (leia-se forçados) a incluir representações fidedignas da cultura histórica da China, desde que de origem Han; nada Yuan (a dinastia mongol fundada por Kublai Khan), nem Qing (a última, de origem manchu), muito menos de outras etnias.

Por que motivo você acha que games de estúdios como Hoyoverse (Genshin Impact, Honkai: Star Rail, Zenless Zone Zero), Net Ease (Marvel Rivals), Paper Games (Infinity Nikki) e afins, mesmo voltados ao público global, possuem conteúdos que retratam a China Han histórica nos mínimos detalhes, enquanto fazem uma salada com outros?

A única exceção é o Japão, normalmente o segundo maior mercado desses estúdios, logo, seus elementos etno-históricos também costumam ser retratados de forma fiel.

Wuchang: Fallen Feathers (Crédito: Reprodução/Leenzee/505 Games)

Wuchang: Fallen Feathers (Crédito: Reprodução/Leenzee/505 Games)

Voltando a Wuchang: Fallen Feathers, o acesso do game por jogadores chineses, majoritariamente a versão de PC, se dá via "mercado cinza", importações ou aquisição do game em lojas digitais com uso de VPNs, ou mesmo graças à boa e velha Locadora. Oficialmente ele não tem permissão para ser distribuído no território chinês, e caso as reclamações dos jogadores escalassem, isso colocaria um alvo gigantesco na Leenzee, que teria que se entender com o governo.

O provável de ter acontecido, a desenvolvedora situada em Chengdu, na província de Sichuan (região antes conhecida como Shu, onde o game se passa), não fez as modificações para atender as reivindicações dos jogadores chineses, mas devido elas, para não se enrolar com Pequim e acabar sendo forçada a uma intervenção ainda mais radical, como a que outros games já sofreram no passado, para se adequarem às normas do Partido Comunista Chinês (CCP) sobre representações adequadas (e obrigatórias) de sua cultura, não apelar para conteúdos impróprios, não criticar o governo, e por aí vai.

Fora da China, os jogadores tomaram a atualização controversa como ofensa pessoal. No PC, um grupo mais do que depressa lançou um mod que reverte de Wuchang: Fallen Feathers todas as alterações indesejáveis, enquanto aqueles no PS5 e Xbox Series X|S com acesso à mídia física (vocês não, pessoal do Game Pass) passaram a jogar a versão "vanilla", impressa no disco e sem acesso à internet, para que ele não seja atualizado.

O pior dessa história é que Wuchang: Fallen Feathers tinha potencial para ser um dos Souls-like mais interessantes dos últimos tempos, ficando par a par com Black Myth: Wukong como um game que mescla a cultura chinesa tradicional com mecânicas que todos gostam.

Agora, ele periga entrar para a história como um game que a desenvolvedora decidiu por sabotar completamente, mecânica e roteiro juntos, de modo a não irritar o governo da China, às custas de enfurecer toda a sua base instalada fora do País do Meio.

Fonte: VICE

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