Meio Bit » Ciência » Acidez dos oceanos ultrapassou limite ambiental em 2020

Acidez dos oceanos ultrapassou limite ambiental em 2020

Níveis de acidez dos oceanos estão acima do limite planetário de equilíbrio; efeito causado pela poluição ameaça a biodiversidade marinha

52 semanas atrás

Um novo estudo publicado nesta segunda-feira (9) revelou que a vida marinha está mais em risco do que se pensava: o índice de acidez dos oceanos atingiu níveis críticos, ao ultrapassar o limite planetário de equilíbrio considerado seguro para a vida marinha.

Os pesquisadores concluíram que o limite foi ultrapassado em 2020, sendo o aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera a principal causa; efeitos à biodiversidade e a economias costeiras podem ser irreversíveis.

Foto de maio de 2024: recife de corais chifre-de-veado (Acropora cervicornis) na costa da Tailândia, que perdeu toda a coloração devido o aumento da acidez nos oceanos (Crédito: Sirachai Arunrugstichai/Getty Images)

Foto de maio de 2024: recife de corais chifre-de-veado (Acropora cervicornis) na costa da Tailândia, que perdeu toda a coloração devido o aumento da acidez nos oceanos (Crédito: Sirachai Arunrugstichai/Getty Images)

Acidez dos oceanos é maior do que se pensava

A acidez dos oceanos é um dos 9 limites planetários de equilíbrio, limiares ambientais que definem a segurança e manutenção da vida na Terra. A estrutura foi proposta em 2009 pelo Centro de Resiliência de Estocolmo, para acompanhar a progressão do Meio Ambiente e formular estratégias de recuperação.

Até 2023, o gráfico mostrava a seguinte situação:

  1. Mudanças climáticas (limite ultrapassado): aumento da concentração de gases do Efeito Estufa na atmosfera, que causam o aquecimento global;
  2. Novas entidades (ultrapassado): introdução de substâncias químicas sintéticas no ambiente, como microplásticos;
  3. Perda de biodiversidade (ultrapassado): redução da variedade de espécies de plantas e animais no planeta, causando desequilíbrio ecológico;
  4. Ciclos biogeoquímicos (ultrapassado): alteração do fluxo de nitrogênio e fósforo no sistema terrestre, levando ao aumento da poluição da água e do solo;
  5. Mudanças no uso da água (ultrapassado): sobrecarga do ciclo da água, levando a escassez e poluição de recursos hídricos;
  6. Acidificação dos oceanos: falaremos deste a seguir;
  7. Carga de aerossóis atmosféricos: medição da quantidade de partículas e poeira na atmosfera, que derrubam a temperatura global e são prejudiciais à saúde;
  8. Esgotamento do ozônio estratosférico: índice de redução da camada de ozônio, que protege a Terra dos raios UV do Sol, que são prejudiciais;
  9. Mudanças no uso do solo (ultrapassado): conversão de áreas naturais em cidades (urbanização) ou áreas agrícolas (pastos, plantações), levando a perda de biodiversidade e maior emissão de gases do Efeito Estufa.

O processo de acidificação dos oceanos ocorre quando há uma grande concentração de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera, que acaba sendo absorvido pela água. Com a alteração do pH, o ambiente se torna menos que ideal para espécies marinhas essenciais, como corais, ostras, e moluscos.

Em situações normais, a concentração de carbonato de cálcio nos oceanos, essencial para que organismos marinhos desenvolvam estruturas como conchas e exoesqueletos, precisa ser de pelo menos 20%, mas o estudo recente (cuidado, PDF), desenvolvido por pesquisadores do Laboratório Marinho de Plymouth, no Reino Unido, e da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA, um dos muitos órgãos estatais desmantelados pelo DOGE), sugere que a marca atual está muito baixa, por volta de 17%.

Isso acontece porque o CO₂ absorvido impede a concentração de íons carbonato (CO₃²-), usado por corais e moluscos, estes produtores de carbonato de cálcio; até então, pensava-se que o nível de acidificação dos oceanos não era tão alto, mas quando diversas observações de corais ao redor do globo, que havia perdido toda a cor, começaram a se acumular, todos entenderam que talvez, os pesquisadores foram otimistas demais.

Gráfico de limites planetários em 2009, 2015, e 2023; novo estudo sugere que acidez dos oceanos já estava acima do limite na época da 3.ª imagem (Crédito: Stockholm Resilience Centre)

Gráfico de limites planetários em 2009, 2015, e 2023; novo estudo sugere que acidez dos oceanos já estava acima do limite na época da 3.ª imagem (Crédito: Stockholm Resilience Centre)

Na pesquisa, os cientistas apontam que o nível de acidez dos oceanos já estava próximo do limite em várias regiões em 2020, e foi ultrapassado já na época em alguns outros; hoje, todos estão acima do limiar, sendo este o 7.º limite planetário de equilíbrio ultrapassado; os únicos ainda dentro de parâmetros aceitáveis são a carga de aerossóis e o nível de ozônio, mas ambos também estão se aproximando da barreira.

O prof. Dr. Steve Widdicombe, diretor de Plymouth, foi enfático ao dizer que a situação não é só uma crise ambiental, mas uma "bomba-relógio", o processo de acidificação oceânica leva à perda de habitats importantes para incontáveis espécies marinhas, o que trará prejuízos enormes para economias costeiras, pequenas e grandes, que retiram seu sustento dos mares.

Já o Dr. Richard Feely, oceanógrafo do NOAA e membro da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), nota que a situação pode ser ainda pior, já que a maioria da fauna marinha vive não na superfície dos oceanos, mas em águas profundas; o estudo aponta que 60% das águas a partir de 200 m de profundidade, as áreas mais produtivas, já foram comprometidas, contra 40% das camadas superiores, isso em todos os oceanos.

O pior de tudo é que talvez as consequências sejam irreversíveis, e a situação só tende a piorar; a medida mais eficiente para conter o aumento do processo é uma redução drástica das emissões de CO₂ em todo o planeta, algo em que as nações não chegam nunca a um acordo, por uma série de fatores.

O estudo foi publicado há tempo da Conferência da ONU para a preservação dos oceanos, onde ele será provavelmente debatido em pauta; o mesmo pode ocorrer durante a COP30, que será realizada em Belém do Pará, entre os dias 10 e 21 de novembro de 2025.

Referências bibliográficas

FINDLAY, H. S.,FEELY, R. A., JIANG, L. Q. et al. Ocean Acidification: Another Planetary Boundary Crossed. Global Change Biology, Volume 31, Edição 6, 17 páginas, 9 de junho de 2025.

DOI: 10.1111/gcb.70238

Fonte: Ars Technica

Leia mais sobre: , , , .

relacionados


Comentários