Meio Bit » Robótica e IA » Apple: executivos não acreditavam no boom da IA

Apple: executivos não acreditavam no boom da IA

Funcionários da Apple dizem que companhia demorou a abraçar a IA, tanto por não botar fé nela, quanto por preocupações com privacidade

1 ano atrás

É de conhecimento geral que a Apple não costuma abraçar tendências: ela ou as cria, ou só embarca em trends quando tem a certeza de que pode revolucioná-la, e assumir posteriormente a liderança do setor, com todos os concorrentes correndo atrás e a copiando.

No entanto, ela chegou bastante atrasada na festa da Inteligência Artificial (IA), e não estaria conseguindo manter o ritmo de outras empresas, tanto por sua preocupação excessiva com a privacidade de seus usuários, quanto por seus executivos não acreditarem que a tecnologia seria tudo isso, tendo percebido seu erro quando já era tarde demais.

Apple Intelligence e Siri ainda não entregaram o que foi prometido pela maçã (Crédito: Divulgação/Apple)

Apple Intelligence e Siri ainda não entregaram o que foi prometido pela maçã (Crédito: Divulgação/Apple)

Apple perdeu o bonde da IA

Durante a WWDC 2024, A Apple apresentou sua solução própria de IA chamada Apple Intelligence, convenientemente para não ter que, sob nenhuma circunstância, ter que usar a sigla em inglês "AI". A empresa prometeu novas ferramentas para melhorar a composição de textos, resumir e-mails e notificações, gerar imagens e emojis customizados, gerenciar uma série de funções, o de sempre.

A maçã prometeu que a Apple Intelligence seria "a IA para o resto de nós", se referindo ao lançamento original do Mac em 1984, "o computador para o resto de nós", isto é, o usuário comum, para se diferenciar do micreiro nerd de outrora, e no contexto atual, os geeks fuçadores que usam OpenAI, Perplexity, Stable Diffusion e cia. Em suma, uma IA que dispensa manuais e tutoriais, e que "apenas funciona" para o povão (que pode pagar caro por seus gadgets, claro).

O problema, a Apple Intelligence não estava nem perto de estar pronta quando anunciada, e isso não mudou muito quando a linha iPhone 16 chegou às lojas, e o iOS 18 foi liberado para donos de iPhones 15 Pro e Pro Max, iPads Pro e Air com chips M1 e posteriores, iPads mini A17 Pro, e Macs com chips M1 e posteriores. Ela chegou com vários recursos faltando, e os presentes não faziam metade do prometido; da maior mudança, uma repaginação completa da assistente Siri, nem sinal.

O principal culpado por essa demora da Apple em responder aos avanços da IA é Craig Federighi, vice-presidente sênior da Software. Na companhia desde 2009, ele gerencia todos os desenvolvimentos de novas soluções que envolvem "a parte que você xinga", e não a que você "chuta", o hardware. Um de seus grandes desenvolvimentos foi justamente a Siri, que em 2011 parecia um produto de ficção científica tornado comercial, uma das grandes expertises de Cupertino.

O tempo passou, e concorrentes como Google e Amazon começaram a apresentar soluções rivais, como Google Assistente e Alexa, bem mais avançadas que a Siri, que começou a demonstrar dificuldades com consultas corriqueiras. Era preciso repensá-la, e para isso, Federighi contratou em 2018 John Giannandrea, um dos chefes de IA e Busca do Google, para o cargo de VP de Estratégias para Aprendizado de Máquina e Inteligência Artificial.

O grande problema, quando empresas como a OpenAI começaram a investir pesado em algoritmos generativos, e gigantes como Google e Microsoft entraram na onda, Federighi se recusou fazer o mesmo, parte pelo orgulho de que a Apple só abraça uma nova tecnologia para dominá-la e o mercado, e parte por não acreditar em seu potencial.

Craig Federighi, SVP de Software da Apple, resistiu por anos à IA, mesmo com funcionários o alertando para dar atenção à tecnologia (Crédito: Reprodução/Apple)

Craig Federighi, SVP de Software da Apple, resistiu por anos à IA, mesmo com funcionários o alertando para dar atenção à tecnologia (Crédito: Reprodução/Apple)

Segundo fontes, o SVP de Software teria sido alertado várias vezes por funcionários da Apple, e até mesmo por outros executivos sênior da empresa, há pelo menos 10 anos, para que ele começasse a prestar atenção no mercado e para onde ele estava rumando. Federighi teria permanecido relutante, mesmo após contratar Giannandrea, em prol de uma abordagem mais conservadora, alcançar basicamente o que Google e Amazon tinham à disposição há uma década.

A ficha só caiu quando a OpenAI liberou o acesso público ao ChatGPT, em 2022; Federighi testou a capacidade do algoritmo em desenvolver código para um projeto pessoal, e ficou completamente chocado. A partir dali, ele e Giannandrea fizeram várias reuniões com a companhia de Sam Altman, bem como Anthropic e outras empresas de IA, com o intuito de absorver o máximo possível daquilo que deixaram passar.

Tendo que correr atrás do prejuízo, todo o time de Software e IA foi colocado para trabalhar loucamente em uma solução própria da Apple, que teria de estar pronta em 2024. Corta para agora e a Apple Intelligence não alcançou metade do prometido, e o CEO Tim Cook rebaixou Giannandrea, removendo de suas mãos o controle de desenvolvimento de novos produtos, por não mais acreditar que ele esteja à altura da tarefa.

Privacidade engessou a maçã

O outro grande culpado pelo desempenho aquém do ideal da Apple Intelligence, se é que podemos chamar assim, é a preocupação excessiva da companhia com a privacidade e a segurança dos dados de seus usuários. Enquanto OpenAI, Google, Microsoft, Meta e outras empresas coletam quantidades massivas de informação de todas as fontes possíveis, protegidas por direitos autorais ou não, a maçã se recusa conscientemente a fazê-lo, e claro, nenhuma boa ação fica sem uma punição.

Seu crawler Applebot, por exemplo, que varre a internet atrás de material para ser usado por Siri, Spotlight, e Apple Intelligence, possui uma opção de opt-out para que administradores de sites e portais decidam se vão permitir que a ferramenta irá coletar suas informações; o mesmo vale para as sólidas ferramentas de privacidade em seus gadgets, onde nada do usuário é coletado, mesmo por apps de terceiros, se ele não permitir.

Desnecessário dizer que a maioria de usuários, blog, sites, e domínios, não permite a coleta de nada, e a Apple acredita que esse é o certo a fazer; como consequência, o Apple Intelligence tem muito menos informação à disposição quando comparado com o ChatGPT e outros, já que seus mantenedores não possuem melindres de coletar tudo que estiver na net, e defendem que restringir o uso de dados apenas a material de copyleft, código aberto, ou de domínio público, tornaria o desenvolvimento contínuo de IAs generativas "impossível".

Ironicamente, o estado atual da Apple Intelligence é a prova de que Sam Altman tem razão nesse ponto; a solução da maçã faz uso principalmente de dados sintéticos, criados especificamente para o treinamento de algoritmos, que não refletem o mundo real, e como resultado, come poeira em relação aos rivais.

Ao se preocupar com privacidade dos usuários, Apple Intelligence tem acesso a bem menos dados que soluções rivais (Crédito: Divulgação/Apple)

Ao se preocupar com privacidade dos usuários, Apple Intelligence tem acesso a bem menos dados que soluções rivais (Crédito: Divulgação/Apple)

Hoje, a Apple depende de parcerias com a OpenAI, onde o ChatGPT é um "parceiro" que foi diminuído durante o keynote da WWDC 2024 ao papel de coadjuvante, mas, na prática, é hoje parte essencial do esforço de Cupertino em tentar agarrar uma fatia do bolo da IA. De fato, a Siri deverá ser "despadronizada" no iPhone, e o usuário poderá escolher em breve outro assistente de IA para suas consultas, ainda que isso tenha se dado por pressão da União Europeia (UE), e provavelmente será uma funcionalidade restrita ao bloco.

Enquanto isso, a Apple estaria negociando com o Google para trazer o Gemini ao iOS 19, como forma de diversificar seus acordos comerciais, já que aquele onde recebia por volta de US$ 20 bilhões/ano para que o Search fosse o buscador padrão do iPhone, foi considerado ilegal e terá que ser interrompido.

Fonte: Bloomberg

relacionados


Comentários