Ronaldo Gogoni 1 ano atrás
Um fato sobre a Apple: ela só abraça uma nova tecnologia quando tem certeza de que pode dominar o setor. Embora tenha abraçado a Inteligência Artificial (IA) depois das concorrentes, a gigante tem plena convicção que seu sistema Apple Intelligence é o mais avançado, seguro, e intuitivo disponível para usuários de seus gadgets.
Agora a Apple quer dominar outro setor, o de interface cérebro-computador (BCI), para consumidores no futuro poderem controlar iPhones, iPads, e outros iGadgets apenas com a mente. Para isso, a maçã anunciou uma parceria com a Synchron, desenvolvedora de chips neurais que apresentou uma solução similar à da Neuralink de Elon Musk, com quem ambas deverão concorrer num futuro próximo.
A Synchron é uma companhia privada sediada em Nova Iorque, financiada Jeff Bezos e Bill Gates, dois bilionários que já demonstraram interesse na área no passado. A BCI, também chamada interface cérebro-máquina (BMI), é uma área de estudo voltada a permitir que pacientes com sérias limitações motoras voltem a desempenhar atividades corriqueiras, controlando outros dispositivos com a mente, como fariam com os membros que hoje não podem usar.
BCI não é um estudo recente, as primeiras pesquisas datam da primeira metade do século XX, e já assumiram diversas funcionalidades. O brasileiro Miguel Nicolelis, que hoje leciona Neurociência na Universidade Duke na Carolina do Norte, EUA, é considerado uma das maiores autoridades da área, ao apresentar interfaces de mobilidade para tetraplégicos.
Idealmente, a aplicação da BCI visa devolver a mobilidade para PCDs, mas novas pesquisas também demonstram outros usos, como controlar softwares diversos apenas com o cérebro. Pesquisas da Neuralink permitiram a voluntários jogarem videogame, enquanto outras devolveram a voz para pacientes que sofrem de esclerose lateral amiotrófica (ELA).
A Synchron e a Apple estão de olho nos mesmos casos de uso que a Starlink, fazer tudo de tudo só com o poder do cérebro; no caso da maçã, viabilizar o uso de seus dispositivos por usuários que não podem manuseá-los diretamente. A aplicação, no entanto, difere um pouco dos métodos da companhia de Elon Musk, criticada pela forma que tratou cobaias durante a fase inicial de pesquisa, com base em denúncias publicadas no passado.

Mark Jackson, que sofre de ELA, controla o Apple Vision Pro com chip de interface cérebro-computador (Crédito: Divulgação/Synchron)
O método da Neuralink consiste em inserir o chip N1 diretamente no córtex motor, responsável por controlar os movimentos do corpo; a Synchron, por sua vez, oferece uma interface chamada Stentrode, aplicada sobre a mesma área do cérebro, um processo que dispensa uma cirurgia mais complexa.
A interface entre o Stentrode e o iPhone, iPad, e Apple Vision Pro é feita com o Controle Assistivo, um recurso da Apple que torna seus dispositivos compatíveis com outras interfaces que não as tradicionais, como joysticks. O chip foi implantado em 10 pacientes, entre eles Mark Jackson, residente de Pittsburgh que sofre de ELA. Incapaz de sair de casa, ele pode usar o Vision Pro para "visitar" a Suíça, controlando mentalmente o dispositivo, sem assistência.
O Stentrode e o N1 operam da mesma maneira, seus eletrodos leem as ondas do córtex motor e as traduzem em comandos na tela, mas é importante notar que o chip da Neuralink é mais preciso, pois usa mais eletrodos e captura muito mais dados por estar inserido dentro do cérebro; por outro lado, o da Synchron é mais simples de ser implantado.
Em um press release, o CEO e co-fundador da Synchron, Dr. Tom Oxley, disse que a Apple "está ajudando a desenvolver um novo paradigma em BCI", mas ainda deverá levar algum tempo para o Stentrode conseguir aprovação da FDA (Food and Drug Association), o órgão do governo americano similar à Anvisa, para implantá-lo em mais pacientes; mesmo a Neuralink só recebeu autorização para instalar o N1 em apenas três voluntários até o momento, dado o fato de ser bem mais intrusivo.
Fonte: The Wall Street Journal