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Doom e os Tiros em Columbine

Duas décadas e meia depois, John Romero diz que equipe sempre soube que o Doom não teve qualquer responsabilidade sobre o Massacre de Columbine

1 ano e meio atrás

Um jogo com uma ambientação sombria, onde a violência era explicita e seu ritmo frenético, tudo embalado por uma trilha sonora pesada que misturava techno e heavy metal. Lançado num cenário em que as pessoas voltavam sua atenção para os videogames violentos, associar o Doom a um dos mais notórios tiroteios ocorridos em uma escola dos Estados Unidos foi a saída mais simples para muitas pessoas, que encontraram ali o bode expiatório perfeito.

Doom

Crédito: Divulgação/id Software

Conhecido como o Massacre de Columbine, o caso aconteceu em 20 de abril de 1999, quando dois adolescentes entraram em uma escola de ensino médio da cidade localizada no Colorado e mataram 12 estudantes, um professor e depois cometeram suicídio. A ação da dupla acabou inspirando outras pessoas a realizarem ataques parecidos, com a palavra Columbine tendo se tornado sinônimo para tiroteios em escolas.

Mas o Doom ter sido usado como motivador para aquele ato hediondo aconteceu de forma gratuita? Não exatamente. Embora o FBI tenha concluído que os dois assassinos sofriam de distúrbios mentais, com um sendo diagnosticado como psicopata e o outro sofrendo de depressão, vários outros possíveis motivos entraram em discussão.

Do bullying sofrido pelos autores do massacre a uma suposta admiração que eles tinham pela banda Marilyn Manson, as "explicações" para aquilo surgiam de todos os lados e os videogames também foram apontados como motivadores, com alguns arquivos encontrados durante as investigações ajudando a guiar os críticos para esta direção.

Embora no diário de um dos atiradores houvesse citações a jogos como Postal, Duke Nukem 3D e Quake, ficou claro que ele era um grande fã do título criado por John Romero, John Carmack e Tom Hall. Em um trecho, ele escreveu: “Será como... Doom,” já em outro o rapaz disse que não deveria deixar se levar pelos sentimentos de simpatia, portanto se esforçaria para acreditar “que todos são apenas mais um monstro de Doom.”

Crédito: Reprodução/Unicorn Lynx/MobyGames

Além de nomear sua escopeta de canos serrados em homenagem a uma personagem que aparece em romances baseados no título, ele teria criado um WAD (mapa do jogo) que reproduzia a Columbine High School, classificando-o como o “trabalho da sua vida” e supostamente enviando o arquivo para os computadores da escola. Já o seu amigo utilizou uma pistola semiautomática parecida com uma arma também descrita nos livros.

Logo, a admiração dos atiradores parecia o indício perfeito para justificar o que levaria dois jovens a realizarem algo tão absurdo. Na época, o pessoal da id Software preferiu não comentar, talvez até por desejar que os ânimos se acalmassem e os nomes do jogo, do estúdio e até dos seus criadores fossem esquecidos.

Eis que 25 anos depois, John Romero sentou para conversar com o site Shortlist e na entrevista em que falou sobre como o Doom mudou o mundo, ele relembrou aquele conturbado período.

“Foi uma situação horrível, horrível,” declarou o game designer. “Não fizemos comentários sobre isso na época, porque não era o momento para isso, mas sabíamos que não éramos a causa, alguém doente fez aquilo — e sabíamos que era isso.”

Romero continuou, afirmando que “milhões e milhões de pessoas jogam Doom — e nada como aquilo aconteceu. Nós apenas evitamos [comentar], porque foi trágico. Não queríamos dizer, ‘vocês precisam cuidar dos seus filhos, vocês precisam prestar atenção...’ É que [aquelas crianças] tinham problemas,” concluiu.

Doom

Crédito: Reprodução/Roedie/MobyGames

Contudo, mesmo com a equipe id Software aparentemente tranquila quanto a sua falta de responsabilidade no massacre, o sensacionalismo não teve receio de os apontar como culpados, ou pelo menos, incentivadores.

Com isso, o Doom se tornou o primeiro jogo a ser diretamente acusado de disparar violência no mundo real. Para muitos, essa seria a cortina de fumaça ideal para evitar o debate sobre algo que já ganhava força nos Estados Unidos, que é um maior controle sobre o comércio de armas no país.

O ataque realizado naquela escola fez com que as pessoas se questionassem até que ponto a população deveria ter acesso a armamento pesado, o que gerou diversas publicações em sites, revistas, jornais e até mesmo à criação do documentário Tiros em Coumbine, dirigido por Michael Moore.

Crédito: Reprodução/Blood/MobyGames

De lá para cá, vários outros tiroteios aconteceram em escolas norte-americanas e logo após quase todos, um ou outro jogo acabou sendo apontado como causador desses atentados. Da parte dos políticos e de uma ala da imprensa, a solução ideal seria acabar com os jogos violentos, o típico caso de pessoas apostando em uma solução simples, para um problema complexo.

Contudo, nem todo o lobby feito contra o Doom serviu para diminuir a adoração das pessoas pela franquia, que em 2025 deverá receber um novo capítulo, intitulado The Dark Ages. Quanto aos demais jogos, o primeiro a sofrer com a patrulhada iniciada após o Massacre de Columbine foi o Medal of Honor.

A previsão era de que aquele FPS idealizado por Steven Spielberg chegasse às lojas pouco meses após o ataque e temendo a mancha que o título poderia causar à imagem da Dreamworks, mudanças tiveram que ser feitas: o sangue acabou sendo removido, assim como as mutilações e atrocidades típicas de uma guerra foram eliminadas, desta forma evitando que o título também fosse associado ao massacre.

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