Dori Prata 1 ano e meio atrás
Para algumas pessoas, o melhor termômetro sobre o estado de um jogo são as opiniões de outros jogadores. Segundo elas, se um título caiu nas graças do público, esse é o indicativo de que vale a nossa atenção e se seguirmos esse raciocínio, pode ter demorado, mas agora é mais seguro dizer que a maioria das pessoas considera o No Man's Sky tão bom quanto ele prometia ser antes do seu lançamento.
Lá se vão oito anos desde a estreia da criação da Hello Games no PlayStation 4 e de lá para cá, muita coisa mudou. Após ser alvo de duras e merecidas críticas, o natural seria vermos o estúdio inglês abandoná-lo e partir para o próximo projeto. Salvar algo com tantos problemas e que entregou tão pouco do que prometeu parecia impossível, mas eles não se deram por vencidos.
Três meses após o lançamento, a desenvolvedora anunciou uma grande atualização para o jogo e com ele, um trecho chamou a atenção. “A discussão em torno do No Man’s Sky desde o seu lançamento tem sido intensa e dramática,” dizia a nota. “Temos ficado quietos, mas estamos ouvindo e focando em melhorar o jogo que nossa equipe ama e pelo qual se sente tão apaixonada.”
Em condições normais, tais palavras representariam um sopro de esperança, o vislumbre de que dias melhores estavam por vir. Porém, após tanta gente se sentir enganada, principal por um dos fundadores do estúdio, Sean Murray, como acreditar que eles estavam realmente dedicados a salvar aquele desastre?
Pois precisaríamos de apenas dois dias para que a Foundation Update fosse disponibilizada e ali surgiu o primeiro indicativo de que eles estavam no caminho certo. Embora aquela atualização não tenha trazido muitos dos recursos que eles tinham mostrado durante a produção, parecia que a equipe estava no caminho certo e desde que eles não desistissem, explorar aquele universo virtualmente infinito poderia realmente se tornar mais divertido.
O tempo continuou passando e com ele vieram outras atualizações de peso. Path Finder, Atlas Rises, NEXT, Living Ship, Frontiers... Durante esses anos o No Man’s Sky recebeu uma quantidade enorme de conteúdo, tudo disponibilizado gratuitamente e com o jogo passando a contar com suporte a partidas multiplayer e entre plataformas, além de receber versões para diversas plataformas, incluindo o Nintendo Switch e melhorias para os atuais consoles da Sony e Microsoft.
Hoje, o No Man’s Sky é muito diferente daquilo que conhecemos em 2016, com ele nos oferecendo tantos recursos e mecânicas, que não seria exagero afirmar que ali temos diversos jogos dentro de algo muito maior. Quer apenas explorar o seu universo? Tudo bem. Prefere aturar como um pirata e montar a maior frota que conseguir? Também é possível. O que acha então de administrar uma vila perdida em algum planetinha inóspito? Basta ter um pouco de perseverança e dedicar seu tempo a isso.
Aliás, perseverança... Essa palavra nos leva de volta ao tema de como as pessoas costumam enxergar a qualidade de um jogo e a um feito importante alcançado pela Hello Games nos últimos dias. Por mais improvável que isso poderia parecer há alguns anos, no dia 27 de novembro o No Man’s Sky ultrapassou a marca de 80% de avaliações positivas no Steam, lhe garantindo assim uma classificação de “Muito Positivo”.
Lá mesmo na loja da Valve Sean Murray comemorou o feito, admitindo que nunca imaginou que conseguiria chegar a tanto. E não é para menos. Das mais de 250 mil avaliações, 202 mil votaram positivamente no jogo e segundo o game designer, de cada dez mil pessoas que jogaram o No Man’s Sky, talvez apenas 100 fizeram uma avaliação e por isso, quanto mais votos eles recebiam, mais difícil se tornava mudar esse cenário.
Empolgado com a situação, o engenheiro de programação Martin Griffths usou sua conta no X para comemorar (e também desabafar) sobre o que enfrentou nos últimos anos:
“Tendo crescido em uma pequena e bem difícil cidade no sul do País de Gales, tive a sorte de ter pais incríveis que me ensinaram resiliência e a tentar novamente se inicialmente falhasse.
Logo após o lançamento inicial do #NoMansSky, tive um encontro com Sean em um pub em Guildford e tudo o que ele disse naquele almoço ecoou com o que eu havia aprendido quando criança. Sou grato por essa sincronicidade.
A nossa pequena equipe na Hello Games se esforçou e se esforçou mais um pouco... e embora ‘muito positivo’ possa ser apenas algumas poucas palavras, significam muito, especialmente porque não estamos nem perto de terminar. Obrigado a todos os jogadores que acreditaram em nós e àqueles que continuam a jornada conosco.”
Além do tom emocionante nas palavras de Griffths, há dois detalhes nessa declaração que julgo importantes. O primeiro é a gratidão demonstrada, tanto a seus pais quando a Sean Murray, que insistiu em salvar o projeto. Já o segundo diz respeito ao estúdio ainda enxergar potencial de expansão no jogo.
Com tanto conteúdo adicionado e correções feitas, considero interessante a desenvolvedora ainda achar que pode fazer mais, modificando um título que se aproxima de um MMO quando se trata de tudo o que podemos fazer nele, mas sem nunca ter cobrado uma mensalidade por isso, muito menos tentado esvaziar nossos bolsos com microtransações.
Atualmente, no Steam ele está saindo por menos de R$ 65 e posso te garantir que se esse for um estilo que lhe agrada, não encontrará um custo x benefício melhor. Eu mesmo paguei menos do que isso no meu disco para o PlayStation 4 há alguns anos e a sensação é de que estou em dívida com o estúdio, já que pelo tempo que o jogo me entreteve, deveria ter pago muito mais.
Uma maneira de corrigir isso seria comprar cópias para outras plataformas e como recentemente foi adicionado suporte a cross-save, só ainda não garanti o jogo para o Nintendo Switch porque estou me dedicando a outros títulos e por isso sei que não conseguirei jogá-lo tão cedo, sem falar no receio do seu desempenho no híbrido não ser dos melhores.
Enfim, ver a volta por cima conquistada pelo No Man’s Sky é digno de renovar nossas esperanças e nem digo isso apenas por causa do jogo, que realmente se aproximou daquilo que há mais de oito anos esperei que ele seria. Aqui estamos falando de um estúdio pequeno, que poderia muito bem ter ido à falência e até mesmo da indústria como um todo, com sua ânsia pelos próximos projetos e o quão descartáveis os jogos se tornaram.
Alguém poderá dizer que essa é uma exceção e não o julgarei por isso. No entanto, esse possível ponto fora da curva resultou em um título fantástico, capaz de tornar bem mais imersivo um sonho de criança, quando pegava meu foguete de brinquedo e corria pelo quintal de casa enquanto me imaginava visitando outros planetas.
No mais, se não fosse pela resiliência e perseverança de Sean Murray, Martin Griffths e cia., seria bem mais difícil entender que a primeira impressão não precisa ser aquela que fica.