Dori Prata 1 ano e meio atrás
Se alguém perguntar qual a sua opinião sobre a série Need for Speed, é possível que a resposta não seja simples. Prestes a completar 30 anos de existência, ela passou por muitas mudanças desde a sua estreia no 3DO, no dia 13 de dezembro de 1994. Então, como resumir o sentimento que temos por aquele que talvez seja o maior camaleão dos jogos de corrida?
Pois de acordo com algumas das pessoas responsáveis atualmente pela franquia, se tornou comum os novos capítulos chegarem ao mercado, enfrentarem uma dura resistência por parte dos fãs e só após algum tempo eles se tornarem adorados. Quem defendeu essa ideia foi o produtor dos três últimos capítulos — Unbound, Heat e Payback —, Patrick Honnoraty.
“Acho que isso é um clássico, olhamos para isso e vimos, eu acho, em todos os Need for Speed em que trabalhei,” lembrou. “Quando ele saiu, foi: ‘oh meu Deus, ele não era bom, era um lixo, pessoas não gostaram’. E então os anos passaram e foi como: ‘oh, era tão bom, tinha esses grandes elementos, era o melhor Need for Speed, por que vocês não fazem um assim de volta?’”
Segundo Honnoraty, a explicação para essa rejeição inicial estaria na constante tentativa da franquia em inovar. “O Need for Speed sempre esteve a frente do seu tempo, é a minha praia, toda vez que lançamos um,” argumentou, para depois dizer que mesmo com os jogos podendo não impressionar num primeiro momento, com o tempo passamos a vê-los com carinho.
Bom, se considerarmos apenas os títulos em que o produtor trabalhou, é fácil perceber essa resistência quando foram lançados. O que não tenho muita certeza é se as pessoas realmente passaram a admirá-los mais conforme o tempo foi passando e os jogos receberam atualizações.
Peguemos como exemplo o mais recente deles, o Need for Speed Unbound. Com sua direção artística um tanto... peculiar, considero ele divertido e por mais que sua recepção tenha sido morna, a Criterion Games continua o abastecendo com conteúdo, incluindo a primeira oportunidade de jogarmos com uma moto, o que acontecerá na próxima terça-feira (26), com o lançamento do “Volume 9”.
Mesmo assim, se olharmos as avaliações no Steam veremos que apenas 61% das mais de 31 mil pessoas tendo lhe classificado positivamente. Já nos últimos 30 dias, esse número é ainda menor, 57%.
Porém, talvez o problema esteja mesmo no tempo em que o capítulo está disponível. Ainda usando a percepção dos jogadores do Steam como base, a aceitação dos outros títulos em que Patrick Honnoraty trabalhou é muito maior. Tendo se passado cinco anos desde o lançamento do Need for Speed Heat, o jogo foi avaliado positivamente por 84% das mais de 98 mil pessoas; já o Need for Speed Payback, que saiu em 2017, recebeu 86% votos positivos, de 22 mil análises. Será então que o Unbound, lançado em 2022, só precisa de mais tempo para conseguir virar esse cenário?
Pois não pense que as adições ao Need for Speed Unbound pararão por aí. Segundo o diretor de criação, John Stanley, a ideia com esse jogo é usá-lo para moldar o futuro da série, com a equipe se dedicando a implementar novidades que ressoem positivamente com os jogadores. Portanto, podemos esperar que alguns recursos adotados, como corridas de arrancada e o modo polícia x corredores retornem em futuros lançamentos.
Será interessante ver se eles serão capazes de melhorar a aceitação ao jogo e um exemplo de que isso pode acontecer foi dado pelo atual diretor de design da Criterion, Justin Wiebe. Ele falou sobre a criação do Need for Speed: The Run e como sua proposta bem diferente se tornou adorada por algumas pessoas.
“Nós realmente tentamos abrir caminho ali. Falamos sobre sair do carro e tínhamos todas as grandiosas visões para algo como... seria mais do que apenas correr, aquele personagem sairia do carro, mas então percebemos muito rapidamente que realmente não poderíamos fazer aquilo, então introduzimos alguns quicktime events (QTEs).
Eu serei o primeiro a me levantar e dizer: ‘bem, isso realmente não funcionou bem’, mas tenho orgulho do fato de termos tentado e estava em um fórum de fãs há alguns meses e fiquei chocado com o quão bem avaliado alguns fãs fizeram daquele jogo. Porque eu pensei que ele era uma mancha no meu currículo, mas acontece que ele realmente tem um grande culto de seguidores e há certas pessoas que adoram aquele jogo. Isso meio que trouxe um pouco de alegria ao meu coração, [pois] corremos o risco e há algumas pessoas que realmente encontraram algo para amar nele.”
Bom, eu não diria que faço parte deste culto, mas mesmo tendo odiado as partes voltadas para os QTEs, gostei muito do The Run. A ideia de cruzar os Estados Unidos enquanto participamos de uma grande corrida sempre me pareceu fascinante e aquele jogo contava com alguns cenários muito legais, mesmo porque, corridas em estradas abertas sempre foram as minhas favoritas.
Aliás, isso me leva lá para o início da franquia, quando ela ainda se chamava The Need for Speed e carregava na capa o nome da revista Road & Track. Eu adorava escolher um dos carros e competir em uma das pistas disponíveis, sempre temendo ao fazer uma ultrapassem enquanto admirava os cenários gerados pelo 3DO e depois no Sega Saturn e PlayStation.
Nos anos seguintes eu ainda me apaixonaria pelo Need for Speed: Porsche Unleashed, passaria inúmeras horas tunando meus carros no Underground, me dedicaria a alcançar o topo no Most Wanted e até me surpreenderia com a abordagem mais realista do Shift. Ainda haveria espaço para assumir o papel de policial, naquele Hot Pursuit lançado em 2010 e o detalhe é que nem falei de todos os outros, que me marcaram menos.
O que quero dizer é que ao longo das três últimas décadas essa foi uma série que sempre me acompanhou, com alguns capítulos tendo me divertido mais, outros menos e até hoje, vez ou outra me pego jogando algum dos seus títulos mais antigos e por isso concordo com a ideia de que alguns envelhecem como um bom vinho.
Devido seus atlos e baixos, entendo aqueles que preferem odiar a franquia, já eu? Continuo por aqui aproveitando-a e sobre essa mudança de percepção com o passar do tempo, gosto da explicação dada por John Stanley, de que tudo se resume ao “benefício e a maldição do Need for Speed.”
Fonte: VG247