Dori Prata 1 ano e meio atrás
Mats “Ibelin” Steen era um garoto cheio de sonhos e desejos típicos de qualquer adolescente/jovem adulto. Porém, ele nasceu com uma doença muscular degenerativa que o aprisionou em seu próprio corpo. Para sua família, a condição física do norueguês o impediria de se apaixonar, fazer amizades e aproveitar a vida como quase todo mundo, mas houve algo que o permitiu se livrar de suas limitações: o World of Warcraft.
A Extraordinária Vida de Ibelin é um documentário que está disponível na Netflix e conta a triste — mas ainda assim bela — história de Steen. Ainda muito pequeno ele foi diagnosticado com Distrofia Muscular de Duchenne (DMD), uma doença genética progressiva e irreversível que debilita os músculos.
Afetando principalmente meninos, a DMD impede a produção de distrofina, proteína que estabiliza a membrana muscular e por isso faz com que os pacientes tenham dificuldade para andar, os levando a precisarem de cadeiras de rodas e até mesmo afetando sua capacidade de respirar, o que muitas vezes leva à morte antes dos 20 anos.
Parte de A Extraordinária Vida de Ibelin serve como um relato emocionante (e importante) sobre a condição de Mats Steen, com as muitas gravações caseiras feitas pelos pais do garoto mostrando como a doença o afetou não só física, mas também psicologicamente.
Então, quando o inevitável acontece e o rapaz, com apenas 25 anos, morre, seus pais e irmã acabam descobrindo que ele tinha uma segunda vida, uma muito mais bonita e livre que aquela vivida numa cadeira de rodas e onde só conseguia mover os dedos da mão.
Até por causa da impossibilidade de sair para brincar com outras crianças, ele se apaixonou pelos videogames, encontrando neles uma fuga para mundos onde não precisava se preocupar com um corpo disfuncional. E foi por causa deles que Mats descobriu o World of Warcraft.
Naquele MMO criado pela Blizzard Entertainment, Mats podia ser quem ele quisesse e ele optou por ser um nobre de nascença que perderia seus pais muito cedo e por isso cresceria pelas ruas de Lordaeron.
Como Ibelin Redmoore, ele teria que se virar como pudesse para sobreviver, roubando e cometendo pequenos delitos, até se tornar um detetive particular e principalmente, um sedutor.
Foi desta maneira que Mats Steen conseguiu se aproximar de outros jogadores, ouvindo suas histórias, sendo empático com os problemas que essas pessoas viviam no mundo real e servindo como um valioso conselheiro. Porém, quando se tratava da sua condição, ele nunca a revelava e assim, ninguém sabia que aquele jogador cuja popularidade só crescia estava preso a uma cadeira de rodas.
Assim, recusando chamadas de vídeo e faltando a encontros que a guilda Starlight realizava, Mats conseguiu manter seu segredo por alguns anos. A situação só mudou mais perto do fim, quando ele criou um blog onde passou a refletir sobre sua vida, pensamentos e desafios encarados até ali.
“Neste outro mundo, uma garota não veria uma cadeira de rodas ou qualquer coisa diferente,” escreveu Mats. “Elas veriam minha alma, coração e mente, convenientemente colocados em um corpo bonito e forte. Felizmente, quase todos os personagens neste mundo virtual parecem ótimos. Alguns podem achar isso tolo, mas pelo menos a aparência não importa muito, é tudo sobre a personalidade.”
Então, após passar por um período complicado, quando até continuar jogando se tornava gradativamente mais difícil, ele resolveu contar a verdade para uma amiga virtual, que o convenceu a revelar tudo aos membros da guilda. Cientes do diário virtual que ele mantinha, no dia 19 de novembro de 2014 o grupo ficou chocado ao ler uma publicação em que seus pais contavam que Mats “Ibelin” Steen havia morrido.
Até então, a família do jogador não fazia ideia do que acontecia em Azeroth, mas quando o seu pai deixou um e-mail para contato no final daquela despedida, ele não imaginou o que estava por vir. Em pouco tempo diversas mensagens chegaram, todas prestando homenagens ao seu filho, mas também a Ibelin, alguém que ele nem sabia que existia.
Dentre essas mensagens estava uma que oferecia um vasto histórico de Ibelin por Azeroth. Eram mais de 42 mil páginas de conversas e ações realizadas pelo personagem, um registro que contava como aquele jogador gastou milhares de horas no mundo virtual do World of Warcraft.
Com aquilo, Robert e Trude Steen puderam entender que, por mais que lhes desagradassem ver o filho passar tanto tempo diante do computador, naquele espaço ele era capaz de interagir com outras pessoas e viver uma vida que a DMD o impediu. Naquele mundo, ele poderia ser mais do que um detetive ou um mulherengo, poderia ser uma pessoa comum.
Aquele conteúdo também serviria como a base para a criação do documentário que contaria a história de Mats “Ibelin” Steen, uma tarefa que o diretor Benjamin Ree e o animador Rasmus Tukia assumiram sem que a Blizzard tivesse dado o aval para a produção.
O problema é que o documentário traria vários trechos usando animações feitas com imagens do World of Warcraft e considerando o quanto as empresas costumam ser superprotetora com suas propriedades intelectuais, seria natural que o projeto não recebesse permissão para prosseguir.
Mesmo assim, eles decidiram seguir adiante e somente após mais de três anos de trabalho entraram em contado com a desenvolvedora, que lhes permitiu usar os recursos aproveitados do jogo. Segundo Ree, isso aconteceu durante uma reunião na Califórnia, quando no final da projeção de A Extraordinária Vida de Ibelin, um executivo da empresa olhou para eles chorando e disse que poderiam fazer o que quisessem com àquela propriedade intelectual.
“A principal coisa que tenho pensado muito depois de fazer este filme é o valor de passar muito tempo juntos, e é isso o que invejo bastante,” afirmou o diretor. “Quando olho para o Mats e seus amigos, eles passavam, tipo, cinco horas de todos os dias se divertindo. Era muito parecido com a sensação de ser criança, quando eu simplesmente corria até o vizinho e ficávamos apenas nos divertindo, tínhamos tempo para ficar juntos.”
Para Ree, isso também serve para explicar porque cerca de 50 pessoas escreveram para os pais do jogador após a sua morte. “O Mats mudou a vida de tantas pessoas,” concluiu o diretor. Já entre as publicações que o rapaz fez em seu blog, em uma delas ele falou sobre a importância que os videogames tiveram em sua vida. No texto intitulado “Minha fuga”, ele disse:
“Há tantas coisas que quero fazer, mas minhas correntes sempre me puxam de volta. Felizmente, encontrei minha fuga e isso não é tão incomum hoje em dia. Minha grande fuga é jogar [videogame]. Ligo o computador, entro em posição e então deixo este mundo. Não é uma tela, é um portal para onde seu coração desejar. Passo a maior parte do meu tempo em um pequeno lugar chamado Azeroth, nome familiar para alguns, tenho certeza. Lá dentro minha deficiência não importa, minhas correntes estão quebradas e eu posso ser quem eu quiser ser. Lá dentro, eu me sinto normal.”
Pode parecer piegas, mas fico tranquilo em dizer que, mesmo sem nunca ter te conhecido, obrigado Mats, muito obrigado!