Ronaldo Gogoni 2 anos atrás
Uzumaki é uma das principais obras do mangaká de horror Junji Ito, e frequentemente referenciada como sua obra-prima. O mangá original rendeu uma adaptação para live-action em 2000, mas o público se empolgou, e ficou receoso, quando o Adult Swim anunciou uma nova versão, como uma minissérie anime.
O problema, Junji Ito nunca deu muita sorte com animações; as tentativas anteriores, as antologias Junji Ito Collection e Japanese Tales of the Macabre, foram obras regulares para fracas, e o atraso de vários anos na produção de Uzumaki, mesmo com o envolvimento da Warner Bros., deixou todo mundo com o pé atrás.
O episódio piloto de Uzumaki impressionou muita gente, pela qualidade de animação e roteiro, apenas para espiralar (sorry, not sorry) descontroladamente rumo ao caos e mediocridade nos dois seguintes, um estrago que o último capítulo não consegue reverter. No fim, era realmente impossível.
A história de Uzumaki se passa em Kurôzu ("vórtice negro" em japonês), uma cidadezinha na costa do Japão, afligida por estranhos acontecimentos envolvendo... espirais. O padrão começa a aparecer nas plantas, nos córregos, e em constantes vendavais na forma de redemoinhos, que a maioria dos cidadãos parece não notar, ou não se importar. A princípio.
Não demora muito para os próprios moradores serem arrastados, um a um, para os mais bizarros desenvolvimentos, em uma série de soluções pensadas por Junji Ito para transformar espirais em representações arrepiantes de body horror. Kirie Goshima e Shuichi Saito, um casal de adolescentes, agem como o fio condutor da história (ela é narrada da perspectiva de Kirie), e testemunhas da maldição que caiu sobre a cidade, que não poupa ninguém.
Junji Ito é considerado uma das maiores forças criativas do horror atual, e um dos principais mangakás vivos do gênero. Além de Uzumaki, que foi indicado duas vezes ao prêmio Eisner, suas obras incluem Tomie, que deu origem a uma série de 9 filmes, o também clássico (e bizarro) Gyo, e diversas histórias curtas, sempre explorando o sobrenatural e o body horror de maneiras criativas, e inusitadas.
O grande problema, se podemos chamar assim, é que a relação de Junji Ito com a mídia anime parece, ironicamente, amaldiçoada. As duas tentativas anteriores deram origens a antologias animadas com baixa qualidade visual, e exatamente por isso, alguns temeram pelo pior quando a Warner, através do selo Adult Swim e o estúdio Production I.G (Ghost in the Shell), anunciaram em 2019 uma adaptação animada de Uzumaki, como uma minissérie em 4 capítulos.
A resposta inicial foi, em geral, positiva, principalmente pela decisão de manter a identidade visual de Uzumaki em um anime em preto-e-branco, e o envolvimento do I.G na empreitada, ainda que fosse a divisão norte-americana do estúdio. Claro, os problemas não demoraram a aparecer, com um adiamento atrás do outro (de 2020, a estreia foi movida para 2021, depois 2022, chegou a ser adiada indefinidamente, até a confirmação para setembro de 2024), mas boa parte do público se mostrava empolgada.
O piloto foi bem-recebido, ele é um episódio com excelente produção e condução da narrativa, tão opressiva e angustiante quanto o mangá... mas aí veio o segundo episódio, e todo o otimismo escoou pelo ralo.
A qualidade da animação de Uzumaki sofreu uma queda vertiginosa no segundo e terceiro episódios, o que pode ser explicado pela decisão, provavelmente da cúpula da Warner (leia-se o CEO David Zaslav, que fato notório, só se importa com dinheiro), de remover o Production I.G da produção e fechar com dois estúdios menores, para apressar a finalização gastando o mínimo possível.
Enquanto o Fugaku Studio (Dog Signal, Teppen—!!!!!!!!!!!!!!! - sim, o nome é assim mesmo) ficou a cargo do piloto e do último episódio, o pequeno e quase desconhecido Akatsuki, que opera principalmente como uma segunda unidade de animação, respondeu pelos dois capítulos restantes, e isso fica visível nas cenas de movimento, que parecem animes dos anos 1960, e em falhas grotescas de arte-finalização, que foram parar no produto final.
Inacreditável quantos anos levaram so de notícias do anime de Uzumaki sendo produzido, para a produção ja derreter no episódio 2, que decepçãopic.twitter.com/VmRbIrDXs8
— Tarsi🦋 (@shadowarlok) October 9, 2024
O resultado é uma comédia de erros excruciante, uma pataquada visual que arruína completamente a experiência de Uzumaki enquanto animação, ainda que o texto permaneça excelente e fiel ao original (o filme de 2000 tem um final diferente).
No fim das contas, se o que importa é a história escrita por Junji Ito, que faz uma ponta na dublagem em japonês, como a voz do tornado, o público será melhor atendido lendo o mangá, ao invés de se torturar vendo a minissérie.
O último episódio, que mantém um nível de qualidade de animação próximo ao do piloto, é mais agradável aos olhos, mas a essa altura, o estrago já está feito de uma forma irremediável.
A coisa ficou tão feia, que o co-fundador do Toonami, e produtor executivo de Uzumaki, Jason DeMarco, admitiu que seu time fez besteira e que tinham algumas opções, mas acabaram escolhendo a pior delas (lançar a série completa com todos os problemas na animação, que eram conhecidos), por "respeito ao trabalho duro" da equipe.
O grande, enorme, helicoidal problema, no processo DeMarco e cia. desrespeitaram os fãs e os assinantes do Max, onde a série está disponível, que pagam a assinatura do serviço de streaming (sem citar a Locadora, por razões óbvias).
Uzumaki é uma das melhores obras do terror japonês dos últimos 30 anos, mas apenas se estivermos considerando o mangá, e em certa medida, o filme live-action. A minissérie anime é uma tragédia no sentido técnico da palavra, com uma qualidade de animação terrível que estraga todo o clima.
Você vai passar a maior parte do tempo apontando os defeitos, ao invés de imerso na narrativa.
Caso a Warner tivesse dado a Uzumaki o mesmo tratamento que o OVA de Hellsing recebeu, uma série de 10 episódios que levou 6 anos para ser concluída, de 2006 a 2012 (e que passou por três estúdios diferentes), os fãs de Junji Ito dificilmente reclamariam da espera, se isso significasse uma obra de qualidade. Mas como tudo que envolve a cúpula da companhia, o dinheiro (no caso, a economia dele) falou mais alto.
Na minha opinião, fuja. O primeiro episódio, apesar de ótimo, não sustenta a série, e você aproveitará melhor o seu tempo lendo o mangá.
1/5 Narutos.
Uzumaki está disponível no Max, mas sinceramente, fique longe.