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Polícia de São Francisco quer liberar robôs assassinos, e porque isso não é nada demais

Robôs assassinos fazem parte do imaginário popular, o problema é quando a mídia imagina que eles realmente existem e a polícia está prestes a usá-los

27/11/2022 às 18:33

Robôs assassinos vivem no imaginário popular. Todo novo vídeo da Boston Dynamics é acompanhado dos comentários “nossa que legal” e “vamos todos morrer”. Agora a Polícia de São Francisco está considerando dar a robôs permissão para matar. Vamos todos morrer?

Esse robô assassino eu respeito! (Crédito: Carolco)

Não, não vamos.

A tal decisão, que nem foi tomada ainda, envolve cenários hipotéticos para seus equipamentos, e mesmo assim como último recurso:

“Os robôs só serão usados como uma opção de força letal quando o risco de perda de vida para membros do público ou oficiais for iminente e superar qualquer outra opção de força disponível para o Departamento de Polícia”

É um último caso onde um robô de controle remoto será usado para tentar deter um suspeito, nada fora do normal.

Claro, alguns discordam. Tifanei Moyer, advogada sênior do Comitê de Advogados para os Direitos Civis da Área da Baía de São Francisco, foi enfática:

“Estamos vivendo em um futuro distópico, onde debatemos se a polícia pode usar robôs para executar cidadãos sem julgamento, júri ou juiz. Isso não é normal, nenhum profissional de Direito ou cidadão comum deve continuar agindo como se isso fosse normal.”

Quem lê essa declaração imagina uma linha de montagem de Robocops, ou Exterminadores pelo menos classe T-1000, com armas carregadas e uma escala de cores que estão autorizados a exterminar.

Note, eu deixei o ED-209 de fora pois o robô assassino da polícia de São Francisco, o Remotec F6A Andros tem capacidade de subir escadas.

Remotec F6A Andros. Esse é o terrível robô assassino. (Crédito: USAF)

Dito isso, ele está longe do imaginário popular quando falamos de robôs assassinos. As pessoas visualizam monstros metálicos com tentáculos, humanoides prateados implacáveis, a Thandiwe Newton matando um pobre (in)feliz de Snoo-Snoo. O que as pessoas não imaginam é um carrinho de controle remoto.

E em termos de robôs assassinos, é nesse estágio que estamos.

As discussões éticas e filosóficas sobre autorizar ou não robôs a matarem seres humanos são uma grande bobagem, por dois motivos: Primeiro, sempre há um humano no circuito. O que chamamos de robôs, hoje em dia, são carrinhos de controle remoto glorificados.

Há um operador por trás, o tempo todo, é ele quem puxa o gatilho. O robô não difere de um barbante amarrado ao gatilho de uma arma.

A Robótica é uma área que vive de hype. As demonstrações da Boston Dynamics são impressionantes, mas são isso: Demonstrações. Seus robôs dependem de ambientes conhecidos e mapeados, as acrobacias são todas programadas e ensaiadas. Mude uma caixa de lugar e o resto dos dominós cairão como um castelo de cartas. Cheque-Mate.

No Twitter houve até gente acusando a polícia de deliberadamente ignorar as Leis da Robótica, de Isaac Asimov. A saber:

1ª Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.

2ª Lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que entrem em conflito com a Primeira Lei.

3ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.

Claro, quem reclamou ignorou que boa parte da obra de Asimov envolve casos onde as 3 Leis não funcionaram, foram contornadas ou produziram resultados indesejados.

O principal é que as 3 Leis só podem ser aplicadas no dia em que um robô souber diferenciar um Homem de uma Pedra, e quem lida com aprendizado de máquina, IA e similares sabe com é complicado identificar um humano, fora de condições ideais.

Daleks, os temíveis robôs assassinos no popular seriado infantil britânico Dr Who (Crédito: BBC)

O discurso de robôs assassinos já foi bastante usado contra drones, o afegão médio (ok, péssimo uso da expressão) acha que drones são máquinas autônomas que atacam indiscriminadamente, quando são aviões de controle-remoto, com toda uma cadeia de comando para autorizar um ataque, sempre com operadores humanos no controle.

O documento da Polícia de São Francisco lista o Remotec F6A Andros como seu robô principal para atividades mais pesadas, como remoção de explosivos, reconhecimento, etc. Ele permite o uso de diversos acessórios, e uma arma pode ser instalada, se desejado.

Em termos de robôs assassinos, ele é um ancião. 10 anos atrás já não era novidade, e já era usado pela polícia nos EUA.

Indo mais além, podemos dizer que a idéia de robôs assassinos foi de HITLER EM PESSOA! Ou de algum engenheiro. Falo do Golias, também conhecido como Tanque-Besouro, era um mini-tanque fofinho, com 1,5 m de comprimento, 370 kg total e carregando até 100 kg de explosivos.

Ele era controlado por um operador, um cabo era desenrolado do tanquinho, até um limite de 650 metros. O Golias era usado para atacar tanques inimigos, grupos de infantaria, bunkers, veículos, qualquer coisa que não gostasse de ter 100kg de explosivo detonando ao seu lado.

Mais de 7500 foram construídos, mas não deu muito certo. Ele era vulnerável a armas de pequeno calibre, o cabo enrolava fácil em obstáculos e o inimigo dificilmente ficava parado esperando ser atingido.

Mesmo assim, segundo todas as definições práticas, o Golias era um robô assassino, com tanta inteligência e autonomia quanto o F6A Andros.

Mísseis são robôs assassinos também. Um AGM-158C LRASM pode viajar 400km até a região onde seu alvo se encontra. Ele pode ser guiado por radar, GPS ou navegação inercial, mas o grande trunfo é que ele funciona independente de interferência externa. Ele possui radar e sistemas infravermelhos capazes de criar uma imagem do alvo, e compará-la com um banco de dados de alvos válidos. Sistemas de inteligência artificial evitam que o LRASM atinja alvos civis, em áreas de tráfego intenso.

AGM-158C LRASM com as asinhas dobradas (Crédito: Lockheed Martin)

O míssil sozinho pode atingir um navio específico, o mais provável de ser atingido, ou pode mirar no maior navio do grupo. Tudo sem interferência ou comandos externos.

Do outro lado temos os robôs assassinos mais simples e mortalmente eficientes: Minas terrestres.

É uma máquina com um único propósito: matar ou mutilar quem, ou o quê acione seu detonador.

Com toda sua sofisticação, o T-1000 é uma máquina programada para matar John Connor. A missão da mina terrestre é mais simples ainda. Filosoficamente os dois são a mesma coisa.

Essa histeria contra “robôs assassinos” só serve para desviar a atenção do fato bem mais grave: Nós JÁ TEMOS máquinas de matar, autônomas, muito mais eficientes do que um carrinho com uma espingarda colada.

Chega a ser indigesto ver gente perdendo tempo com essas discussões filosóficas onanistas, ao mesmo tempo em que a Rússia polvilha a Ucrânia com a PFM-1, conhecida como Mina-Borboleta. Um corpo de plástico a torna difícil de ser detectada. 40g de explosivo fazem com que ela seja não-letal, mas poderosa o suficiente para mutilar ou amputar um membro.

Elas parecem inofensivas e atraem principalmente crianças. Mas vamos nos preocupar com os robôs assassinos imaginários, eles sim são importantes...

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