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5 promessas tecnológicas que não foram a lugar nenhum

Vivemos cercados de promessas tecnológicas, mas nem todas dão em alguma coisa, e fracassam de forma espetacular. Vamos conhecer algumas

07/10/2022 às 18:43

Promessas tecnológicas não faltam, toda semana aparece um press release novo com uma tecnologia revolucionária de baterias, geralmente usando grafeno, ou algo mágico que vai resolver todos os nossos problemas. Na prática, nada muda, ao menos nada muda instantaneamente.

Sim, de tempos em tempos tentam emplacar carro voador. (Crédito: Reprodução Internet)

Existem vários tipos de promessas tecnológicas. O mais comum são os golpes, armações, marmotagens, em geral criadas por gente que não entende muito de Ciência e vendidas para gente que entende de Ciência menos ainda.

Nesse campo entram os moto-contínuos, sistemas de geradores de energia do nada, quase sempre com complexos esquemas de pesos e polias. Eles nunca funcionam, pois a regra é clara: Neste Universo nós respeitamos as Leis da Termodinâmica!

Outros equipamentos que vivem enganando trouxas se baseiam em promessas tecnológicas de extrair água do ar. A rigor, não há nada de mágico nisso, há bastante água no ar. Em vários lugares isso chega a ser um problema, e existe até uma tecnologia para isso: O Desumidificador.

Água do puro ar? Que magia profana é essa? (Crédito: Harpyja)

Os aparelhos que se propõe a extrair água do ar sempre omitem dois pequenos detalhes: Eles demandam muita energia, e a eficiência cai exponencialmente, de acordo com a umidade presente no ar local.

Em Manaus a umidade relativa do ar pode chegar a 88.5% em maio. Dá quase pra tirar água do ar com uma esponja. Já Belo Horizonte teve dias em que a umidade relativa do ar não passou de 12%. Isso é mais seco que coração de ex, a energia necessária pra tirar água desse ar custa mais caro do que mandar trazer a água de Uber.

Claro, também há o pessoal bem-intencionado, mas que não entende que soluções ideais em laboratório não funcionam no mundo real. Entram aí as estradas solares, que custam uma fortuna, a manutenção é um pesadelo e no final a energia gerada é mínima.

As promessas tecnológicas que vamos ver hoje são diferentes. Elas realmente existiram, chegaram a ser implementadas, mas por vários motivos, nunca saíram do chão. Vamos a elas:

1. Memória de Bolha

Nos primórdios da computação, memória era algo precioso. Um dos avanços usava núcleos de ferrite, que eram magnetizados ou desmagnetizados, armazenando um bit. Era uma tecnologia cara, complicada de ser produzida, mas era isso ou nada.

Um dia um sujeito chamado  Andrew Bobeck desenvolveu um negócio chamado Twistor, que era uma versão da memória de ferrite, mas usando fita magnética. Alguns anos depois ele aperfeiçoou o Twistor, desenvolvendo um conceito fantástico:

Um chip de memória de bolha, com 1Megabit de capacidade. ou 125KB. (Crédito: Texas Instruments)

Uma grade de bobinas magnéticas, em contato com um substrato também magnético pode ser usada para magnetizar áreas específicas da superfície, que ele chamou de bolhas. Assim, ao invés de ter um bloco específico de eletrodos e superfície magnética, você tem uma matrix virtual.

Ele descobriu que granada (a pedra, não a coisa que faz cabum) era especialmente boa para agir como substrato, e as pesquisas avançaram a todo vapor. Logo a Memória de Bolha estava sendo vista como uma das grandes promessas tecnológicas da época.

Sem partes móveis, com velocidade de acesso comparável à memória de núcleos de ferrite e densidade de dados próxima aos discos rígidos, ainda por cima ela era não-volátil, mesmo cortando a energia os dados não se perderiam.

EM 1977 a Texas Instruments lançou o TBM0103 , o primeiro módulo comercial de memória de bolha, mas foi basicamente usado em dispositivos da própria Texas. O módulo tinha 92Kbits, o que era apreciável para a época.

TBM0103 da Texas (Crédito: Texas Instruments)

A promessa era que a Memória de Bolha substituiria discos rígidos, com inúmeras vantagens, uma empresa chegou a lançar um módulo para o Apple II que era 4 vezes mais rápido que o disquete. No final da década toda empresa de tecnologia estava pesquisando memória de bolha. Alguns deram saltos e chegaram a lançar produtos completos, como a Konami, que em 1985 anunciou o Bubble System, um arcade rodando num Motorola 68000, usando cartuchos de memória de bolha.

Placa-Mãe do Bubble System (Crédito: Reprodução Internet)

Infelizmente outras tecnologias começaram a despontar. Os hard disks cresciam sem parar sua capacidade de armazenamento, deixando a memória de bolha para trás, tanto em custo quanto em capacidade.

Mainframes não usavam mais memória de núcleo de ferrite, chips, que em 1977 já estavam aparecendo, desbancaram qualquer possibilidade da memória de bolha competir como RAM.

Logo ela se tornou uma solução que por um breve e fugaz momento era excelente, mas o avanço da tecnologia foi rápido demais.

2. Chips Java

Nos anos 90, quando “Developer” ainda era chamado de programador, Java era uma febre, uma Dengue, uma Ebola. Você não podia espirrar sem respingar em alguém lendo um livro de Java. Ninguém sabia ainda a diferença entre Java de Applet, Javascript e Java Java. Os clientes queriam Java, todos queriam Java, Java estava entre uma das maiores promessas tecnológicas de todos os tempos.

O conceito na teoria era excelente. Uma linguagem de programação completamente agnóstica, independente de hardware ou sistemas operacionais. O alvo do Java seria uma Máquina Virtual, e a implementação local do Java cuidaria de fazer a intermediação entre o hardware real e as necessidades do Java.

Java vem aí, escondam seus filhos, escondam sua esposa! (Crédito: InfoWorld)

Compile uma vez, rode em todo lugar, era o lema. Até que descobriram que isso não era realmente eficiente, e em termos de recursos se você quisesse real interoperabilidade, teria que se ater ao menor denominador comum.

O fato do programa em Java ser compilado para Bytecode, que por sua vez é interpretado pela Máquina Virtual Java torna o processo... lento. Hoje está mais tranqüilo, mas antigamente, acreditem, Java era horrendo de lento.

Eis que em 1996 a Sun Microsystems aparece com uma idéia revolucionária: Criar chips para rodar o Bytecode Java em hardware. Com isso (em teoria) a máquina não precisaria de sistema operacional, e nem precisaria ser um computador.

As promessas tecnológicas dos chips Java cobriam um monte de campos, até cafeteiras inteligentes foram prometidas, a idéia de um chip executando uma linguagem de alto nível, sem as restrições dos microcontroladores era boa demais.

Boa demais para ser verdade. Na edição de Fevereiro de 1996 da Infoworld, foi apresentado o projeto dos chips Java, incluindo thin clients e workstations da Sun. Eles queriam chipar terminais, celulares, set-top boxes, PDAs e até cantoras nordestinas famosas.

Alguns chips foram apresentados, como o Picojava, licenciamentos foram acertados, mas basicamente nada chegou ao Mercado. Uma extensão para a arquitetura ARM, Jazelle, executava Java Bytecode em hardware, dizem que alguns fabricantes de celular usaram processadores com esse recurso, no sombrio período em que celulares rodavam Java ME.

Morreu, morreu antes ele do que eu Crédito: InfoWorld)

A um custo estimado de US$47,19 (em valores de 2022) por chip, não era um recurso barato.

Em outubro de 1997, a Sun silenciosamente abandonou o projeto de chips Java, provavelmente percebendo que uma solução em software é sempre mais flexível, e que as CPUs estavam ficando cada vez mais rápidas.

3. Videofone

Patenteado em 1876, o telefone foi uma revolução nas comunicações, mas sempre há os que sonham além, e nem dois anos depois, a ficção científica já trabalhava com o conceito do videofone, e não demorou, um monte de picaretas correram para patentear, e até angariar investidores para construir aparelhos capazes de transmitir em duas mãos uma conversa de áudio e vídeo em tempo real.

O próprio Alexander Graham Bell estudou algumas dessas patentes, definindo-as como “conto de fadas”. Não que ele fosse um cético intransigente, ele mesmo tinha idéias de como um videofone poderia funcionar, a tecnologia apenas não estava lá ainda.

Ah o futuro... quer dizer, o passado, essa era a visão de como seria 2012. (Crédito: Domínio Público)

Nos anos 30 surgiram várias promessas tecnológicas de transmissão de imagens à distância, algumas eletromecânicas, e a mais avançada mas bem mais complicada solução puramente eletrônica, de Philo Farnsworth.

Vários projetos desenvolveram soluções eletromecânicas, com protótipos sendo demonstrados nos EUA e Europa, mas foi a Alemanha quem primeiro criou uma versão comercial.

Entre 1936 e 1940 mais de 1000km de cabos interligaram várias das principais cidades alemães. Nos postos telefônicos cabines especiais com câmeras e telas de TV eletromecânica inicialmente (depois evoluíram para a versão eletrônica) permitiam que as pessoas conversassem por áudio e vídeo.

Era uma novidade tecnológica imensa, mas ainda uma curiosidade, e de qualquer jeito a Alemanha se distraiu com outros assuntos, e em 1940 o sistema foi desconectado.

Uma cabine de videophone em 1922 (Crédito: Internet Archive Book Images)

Nos anos 60/70 a AT&T tentou de novo emplacar videofone nos EUA, primeiro em 1964, com o Picturephone, um trambolho que funcionava no mesmo modelo do sistema alemão, com cabines em estações de trem e áreas de exposições, mas o custo era proibitivo. Uma ligação de 3 minutos entre Washington, DC e Nova York custava o equivalente a US$258,00 em 2022.

O Picturephone II – A Missão surgiu em 1970, era um equipamento teoricamente domiciliar, mas o foco foi o mercado corporativo. O custo era astronômico. Em valores de 2022: O primeiro aparelho custava U$1.144,99.  A assinatura era US$1,221,32 por mês, com franquia de 30 minutos, acima disso cada minuto custava US$2,00. Obviamente foi um fracasso comercial, mas a AT&T e outras empresas continuaram insistindo, por décadas. Entre todas as promessas tecnológicas, o videofone era a que todo mundo menos queria.

Com a popularização dos computadores e webcams, a videochamada continuou relegada a situações específicas, avós vendo netos na semana do Natal, e webnamorados, se bem que nesse caso a câmera raramente ficava apontada pros rostos.

Agora com todo celular minimamente decente (e a maioria dos indecentes) vindo com câmera frontal, era de se esperar que todo mundo fizesse videochamadas, mas isso é considerado algo extremamente rude. As pessoas simplesmente não querem olhar pra fuça dos outros, sem aviso.

Em um episódio de 1962 -The Space Car- Os Jetsons já resumiram perfeitamente o motivo do Videofone nunca ter dado certo.

4. VRML

Era o longínquo ano de 1995. Dinossauros caminhavam sobre a Terra, o fogo era uma invenção recente e computadores rodavam com barro fofo e pedra lascada. Um excelente PC rodava em cima de um processador 480 DX4-100, com clock de 100MHz interno, 33Mhz externo.

Memória? 8MB era uma quantidade excelente. Barramento PCI havia sido introduzido (epa!) 3 anos antes. HDs? 540MB te tornariam a inveja dos amigos. Sua placa de vídeo topzeira conseguiria uma resolução de 800x600 e 65K cores. E velocidade de internet de linha discada. Porque era linha discada.

DVD, Bluetooth, WIFI? Nada disso existia, nem na imaginação de seus criadores ainda.

Nesse cenário, alguém resolveu que a Internet era futuro e o futuro era 3D, então criaram a VRML (Virtual Reality Modeling Language), uma linguagem para modelar “mundos” 3D em... browsers.

Nota: O demo acima é moderno, o vídeo é de 2010

Na época VRML virou um hype imenso. Meu diretor me encomendou um livro sobre o tema. Eu fiz uma reunião, expliquei os Fatos da Vida. Ele desistiu do projeto. Em pouquíssimo tempo a moda passou, e as livrarias ficaram cheias de livros encalhados sobre o tema.

VRML é uma daquelas promessas tecnológicas que se antecipam demais, a tecnologia simplesmente não existia. Não havia placas 3D, as CPUs engatinhavam, qualquer “mundo” VRML demorava uma eternidade para baixar e rodar. Ninguém tem tempo pra isso, podendo jogar Duke Nukem.

5. WAP

Imagine um tempo antes dos Smartphones, mas já com um princípio de conectividade. Por volta do Ano 2000 começam a ser implantados serviços de GPRS - General Packet Radio Service, que conectam celulares à Internet em velocidades entre 56Kb e 114Kb, em teoria, na prática, bem menos, mas a gente estava acostumado à linha discada...

Com alguma macumbaria tecnológica dava para usar o Nokia 3320 como modem externo para o Palm Pilot, eu me sentia o Hackerman fazendo isso. Já o telefone em si era basicamente inútil, isolado.

Esse era moderno, já tinha até tela colorida. (Crédito: Reprodução internet)

Os fabricantes queriam que as pessoas usassem internet em seus celulares, mas a tecnologia não estava avançada o suficiente. A solução? Inventaram uma gambiarra chamada WAP – wireless Access Protocol, que seria uma versão simplificada da World Wide Web, voltada para conexões de baixa velocidade e recursos.

Eu confesso, eu trabalhei com desenvolvimento de soluções WAP, e não solucionavam nada. Imagine uma tela de texto mínima, uso restrito de imagens com resolução ínfima, sem NADA dinâmico rodando no browser.

Mesmo o Symbian s60 no N80, E71 ou N95 era anos-luz mais confortável do que o browser WAP nos celulares primitivos. Se juntar todos os meus anos nessa indústria vital, não consigo pensar em uma experiência de uso PIOR do que os browsers WAP.

Aqui uma demonstração de como era doloroso usar WAP.

O WAP foi e esquecido e abandonado, assim que navegadores decentes começaram a aparecer, junto com aplicações específicas, como ICQ e MSN. O Opera Mini, rodando em Java se tornou bem popular, pulando o WAP e dando acesso direto à Internet de verdade.

A lição que ficou: Nunca deixe o marketing especificar protocolos de comunicação.

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