Meio Bit » Entretenimento » Resenha: The Sandman - a seminal série da Netflix

Resenha: The Sandman - a seminal série da Netflix

Para surpresa, deleite e delírio dos fãs, Sandman virou série, o desejo de 30 anos deixou de ser sonho e virou realidade

10/08/2022 às 19:41

Sandman era a história impossível de se adaptar, e não foi por falta de tentativas. Lançada em 1989, a obra-prima de Neil Gaiman chamou a atenção de um monte de gente de Hollywood, e logo planos surgiram para transformar a história em um filme.

Morpheus e Matthew (Crédito: Netflix)

Desde a Década de 1990 Sandman foi alvo de tentativas de se transformar em séries, filmes, especiais. Alguns roteiros ficaram tão tenebrosos que Gaiman declarou que preferia que Sandman nunca se tornasse um filme, se fosse para ser ruim.

Condensar uma história como Sandman em um filme é o mesmo que tentar resumir uma sinfonia a alguns acordes, mas o problema não era só esse. Com a tecnologia de efeitos visuais da época, um filme de Sandman sairia absurdamente caro, e muitas das imagens da história teriam que ser omitidas ou alteradas, dava a inviabilidade técnica para produzi-las.

Por um tempo houve um projeto de filme que Gaiman queria dar para Terry Gilliam, uma versão produzida por David S. Goyer e estrelada por Joseph Gordon-Levitt, e em dado momento todo mundo tomou um susto imenso ao chegar na locadora preferida e dar de cara com isto:

Sim, isso existiu (Crédito: Reprodução Reddit)

Com direção, roteiro e atuação de Eric Woster (who?), “Sandmané uma historinha de terror medíocre, que foi lançada no Brasil com uma surreal capa kibando a logo dos quadrinhos, e referenciando diretamente a obra de Neil Gaiman, com direito a citação da Folha de S. Paulo e tudo.

Obviamente nem a Editora Abril, nem Gaiman, nem a DC/Vertigo tinham a menor idéia da existência dessa pérola, que decepcionou mais nerds de quadrinhos do que a participação do Rino naquele filme do Aranha.

Sandman – Origens

A série que se tornaria The Sandman, da Netflix começou a ser gestada em 2010, e ficaria nas mãos de Eric Kripke, criador de Supernatural. Neil Gaiman não ficou muito confortável, e a ideia foi esquecida. Enquanto isso outra grande obra de Gaiman, Deuses Americanos, foi adaptada com relativo sucesso, apesar de muitas brigas internas. Ele acabou entrando como showrunner e tomando conta da série.

Sandman atrasou tanto que gerou um spin-off antes da própria série: Lúcifer, que é uma versão bem mais light do personagem, e reflete mais o Lúcifer do final do que a primeira versão que aparece em Sandman. Tom Ellis fez um trabalho brilhante como Lúcifer Morningstar, mas sua versão não se encaixaria em Sandman.

Claro, isso não nos impediu de ganhar o presentão que foi o encontro do Lúcifer de Tom Ellis com o John Constantine de Matt Ryan, na Crise nas Infinitas Terras do CW:

Depois de ganhar experiência com o soberbo Belas Maldições e o irregular mas ousado Deuses Americanos, Gaiman se sentiu seguro de que poderia garantir uma versão televisiva de Sandman à altura de sua (e nossas) expectativas.

O resultado foi – spoilers – magistral, Sandman é um universo imenso, repleto de tramas, histórias e personagens. A grande dúvida era se iriam transformar cada edição do quadrinho em um episódio, ou se correriam condensando vários arcos em uma temporada só.

Sandman não é corrido, nem literal, nem pula tudo. Sandman é brilhantemente adaptado, moldando as histórias, mas mantendo muito, às vezes 100% do original. Mas, afinal, e a resenha? Vamos a ela.

1 – Quem é Sandman?

Sandman é um de seus muitos nomes. Ele é Morpheus, Oneiros, Sonho, Lorde  L'Zoril, Kay’Ckul, a lista é imensa, mas em essência ele é a representação antropomórfica do Sonhar, Morfeu foi criado pelo subconsciente coletivo de trilhões de formas de vida, ele dá forma e ordem ao Reino dos Sonhos, possibilitando que todas as criaturas inteligentes tenham para onde ir durante o sono.

Ele é imortal, caso seja destruído outro aspecto do sonhar assume seu lugar. Oneiros é um dos Perpétuos, grupo de sete entidades que representam outros aspectos fundamentais da Existência: Morte, Destino, Desejo, Delírio, Destruição e Desespero.

2 – Qual a trama dessa temporada de Sandman?

Em 1916 um grupo de ocultistas na Inglaterra realiza um ritual para capturar ninguém menos que a Morte. O objetivo é exigir, em troca de sua liberdade, riqueza, poder, imortalidade. O ritual dá errado e captura outro Perpétuo que por acaso passava por ali: Sonho.

Ele tem seus instrumentos – um Elmo feito com os ossos de um deus morto, um Rubi capaz de transformar sonhos em realidade, e uma bolsa com areia dos sonhos – roubados. Morpheus fica preso em uma esfera de cristal por 106 anos, enquanto Roderick Burgess e seus descendentes continuam tentando fazer com que o Rei dos Sonhos fale com eles, e faça algum tipo de acordo.

Gregory, o Gárgula, e Abel (aquele) (Crédito: Netflix)

Nesse meio-tempo os instrumentos de Morpheus são roubados de Burgess. O Reino dos Sonhos, sem um Líder, começa a se degradar, sonhos e pesadelos fogem para outros reinos, e no mundo real o efeito se faz sentir, inclusive gerando uma misteriosa doença do sono que afetou 500 mil pessoas, e foi embora tão misteriosamente quanto apareceu. E o mais incrível: A epidemia da doença do sono foi real.

Um dos pesadelos que fugiu do Sonhar foi o Coríntio, um serial killer que acabou inspirando gerações de matadores, e estava prestes a ser destruído por Morpheus. Ele agora conspira com ocultistas humanos para evitar que o Rei dos Sonhos ganhe sua liberdade.

Morpheus acaba escapando, 106 anos depois de sua captura, e depois de uma breve recuperação no Sonhar, parte para recuperar seus pertences. Ele tem que enfrentar seu rubi, modificado por um psicopata e agora uma arma usada contra o Rei dos Sonhos, e ainda tem que enfrentar uma batalha contra Lúcifer, em pleno Inferno, para ter de volta seu elmo, negociado com um demônio.

Nesse meio-tempo Morpheus encontra aliados humanos, como Johanna Constantine, uma versão bem mais light do canalha John Constantine dos quadrinhos e séries, e tem sua história entrelaçada com Rose Walker, bisneta de uma das vítimas da Doença do Sono e – mais tarde descobre-se – um Vortex, capaz de destruir o Sonhar, e com ele todo um universo.

Oneiros também encontra sua Irmã Mais Velha, Morte, que lhe dá uma lição de vida, explicando que ter responsabilidades não é necessariamente ruim, mesmo que outros não entendam seu trabalho. O episódio da Morte é o mais lindo da temporada, tocante, emocionante, e ainda aproveita para apresentar Rob Gadling, um sujeito que no Século XIV resolveu se tornar imortal por teimosia, e por pura curiosidade Morfeus e Morte decidiram conceder a dádiva. Ou maldição.

Morpheus acaba diante de uma situação impossível: Ele tem que proteger o Sonhar eliminando o Vortex, isso significa matar Rose Walker, uma jovem inocente. A situação se resolve de forma inesperada, e Oneiros percebe que foi vítima de uma conspiração maligna de alguém muito, muito próximo.

3 – Quais as diferenças para o quadrinho de Sandman?

Essa primeira temporada colocou ênfase no Coríntio, transformando-o em um vilão ativo e presente. Foi uma decisão inteligente, amarrando os episódios de uma forma compatível com televisão. Algumas simplificações foram feitas, John Dee nos quadrinhos era o Doutor Destino (da DC), um vilão da Liga da Justiça que tem um rubi capaz de manipular sonhos. Na série de Sandman ele é filho da amante de Roderick Burguess, psicopata mas sem nenhuma pretensão de supervilão.

Nos quadrinhos há referências a super-heróis, e até uma aparição de Ajax, o Caçador de Marte, e Hector Hall é “o” Sandman, vivendo no Reino dos Sonhos com Hippolyta Hall, sua esposa e também a heroína chamada Fúria. Eles estão sendo manipulados por Brute e Glob, dois pesadelos que os usam para se alimentar de seus sonhos.

Infelizmente perdemos essa subtrama, é delicioso ver Morpheus gargalhando quando Hector se apresenta como Sandman.

Lucienne e Gilbert (Crédito: Netflix)

Na série esse Sandman de araque é o irmão perdido de Rose Walker, que se refugia nos sonhos para fugir de seus guardiões abusivos, sem perceber que está sendo manipulado por um pesadelo com boas intenções.

Em Sandman aparentemente não há super-heróis, não é um Universo compartilhado com outras séries, o que é bom, por dar um bom pé na realidade, mas ao mesmo tempo perdemos a chance de um crossover com Patrulha do Destino.

Há mudanças menores, também. A própria adaptação da série, que agora se passa em 2022, não no final dos Anos 80, exigiu atualizações. Outras mudanças reforçaram o sacrifício de Morfeus, como o que ele teve que fazer com Gregory. Uma em especial demonstrou o sadismo de Neil Gaiman, que deixou os fãs apavorados até o último segundo da interação entre John Dee e Rosemary.

Como toda adaptação, Sandman é diferente do original. Normalmente isso significa ser pior. Em raros casos, como The Boys, a adaptação é melhor. Sandman é... diferente. Sandman é uma versão ligeiramente diferente de uma canção, interpretada por dois artistas brilhantes.

4 – Quem são os Perpétuos?

Essa a gente já respondeu aqui.

5 – Como estão as atuações?

Em geral, excelentes. Tom Sturridge fez um Morfeus meio emo, meio irritado, andando como se estivesse com um cabo de vassoura no fiofó. Ele está PER FEI TO. Patton Oswalt como o Corvo Matthew está excelente, embora como humano ele seja bem diferente de Matt Cable, mas aí é problema do Monstro do Pântano.

Vivienne Acheampong como Lucienne ganhou muito mais espaço do que sua contraparte nos quadrinhos, Lucien, e ela está maternal demais, Lucien tem um pouco de Alfred, e falta à ela.

Gwendoline Christie fez uma Lúcifer excelente, mais parecida com a original do que o Lúcifer de Tom Ellis, que por sua vez é mais parecido com o Lúcifer do quadrinho spin-off. Ela fala no plural majéstico, e não levanta a voz, com toda a (merecida) arrogância de um monarca em seu reino. Ela é a segunda criatura mais poderosa do Universo, e sabe disso.

Jenna Coleman como Johanna Constantine é... meh. Ela é cuti-cuti demais pra fazer um traíra canalha como o John (Crédito: Netflix)

Kirby Howell-Baptiste matou a pau como a Morte. Sim, eu sei, nerds odeiam mudanças e ela não se parece em nada com a Cinamon Hadley, mas feche os olhos e a escute por 30 segundos. Kirby capturou toda a Joie de vivre da personagem. Ela age e fala como Gaiman a escreveu, 30 anos atrás, e se há algo imperdoável aqui, é ela não ter tacado o pão em Morpheus, como nos quadrinhos.

Stephen Fry como Fiddler’s Green? Bem, é Stephen Fry.

David Thewlis, que a gente viu no primeiro Mulher-Maravilha como Ares é um MONSTRO, em mais de um sentido. Ele é um sujeito idoso, frágil, você não dá nada por ele, aí quando vê o cara é um psicopata manipulador (literalmente) de mentes e capaz de crueldade e violência em um nível assustador.

Se eu chegar num café e deparar com uma cena assim, saio correndo na hora. Se puder (Crédito: Netflix)

Como John Dee ele protagoniza um episódio baseado em uma das mais aterrorizantes histórias de Sandman, e para desespero dos fãs, a versão live action não perde em nada. 90% do mérito, é de David Thewlis.

6 – Quanto do Quadrinho já virou série?

A primeira temporada de 10 episódios de Sandman é composta dos primeiros 16 números do quadrinho, que tem 76 revistas, fora especiais. Há material para muita série ainda, vários desses números são histórias isoladas que dariam um episódio inteiro.

Sem contar que Gaiman sempre pode sonhar mais algumas histórias.

7 – Qual o significado de Sandman para os fãs?

Assim como a Inquisição Espanhola, ninguém esperava Sandman. É uma história em quadrinhos amada pelos fãs, nós recitamos as linhas, conhecemos cada fala, cada quadrinho. É um Universo fascinante, multicultural, repleto de referências, de História. Ver Sandman como uma série apavorou muita gente, havia o medo de se tornar algo irreconhecível.

O resultado nos surpreendeu e nos aliviou, reforçando a crença de todo fã de Lorde Morpheus: Sonhos podem, sim, se tornar realidade.

Onde Assistir:

Sandman passa na Netflix.

Cotação:

15/15 Goldies

Trailer:

Leia mais sobre: , , .

relacionados


Comentários