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Good Omens - A Inefável mini-série que quer cancelar o Apocalipse sem o Idris Elba

28 semanas atrás

ALERTA: RESENHA (QUASE) SEM SPOILERS.

Belas Maldições é de longe o livro que mais dei de presente. É uma deliciosa mistura do humor de Terry Pratchett e do sobrenatural de Neil Gaiman. Uma história modesta, apesar de lidar com O Fim de Todas as Coisas, inglesa até o osso, sem um pingo de remorso.

O livro Belas Maldições: As Belas e Precisas Profecias de Agnes Nutter - Bruxa publicado originalmente em 1990 é uma deliciosa farsa de escatologia cristã (não é o que você está pensando). Para quem conhece Neil Gaiman por Deuses Americanos, acredite, o tema é basicamente o mesmo mas o tom completamente diferente.

Não há gênios gays muçulmanos, deusas com pepekas devoradoras de homens ou sangue jorrando, mas há anjos, demônio, o anticristo e a Besta, mas não tão besta quanto todo mundo se sentiu no final de temporada de Deuses Americanos.

A Mini-Série em seis partes da BBC foi escrita e produzida pelo próprio Neil Gaiman, que adaptou e expandiu o material original. O resultado é bastante fiel ao livro, apenas com a ação mudando para os dias atuais.

O Enredo:

Os protagonistas são um anjo e um demônio que se conhecem desde aquele infeliz incidente no Jardim do Éden que resultou na nascimento do MST., e logo perceberam que não fazia sentido os dois ficarem na Terra um tentando fazer o Mal, o outro tentando fazer o Bem, se no final o trabalho dos dois acabava se anulando. Eles logo chegam a um acordo onde mandam relatórios de progresso pras suas matrizes, mas tudo inventado. Só de vez em quando fazem alguma coisa, o demônio por exemplo nessa versão é o inventor do Selfie, mas embora tenha ficado com os créditos a Inquisição Espanhola foi totalmente idéia dos humanos.

Com o passar dos milênios os dois acabam se tornando amigos relutantes, mais unidos pela convivência do que qualquer coisa, o que desperta até olhares esquisitos. Ainda mais com o anjo, Aziraphale, sendo um almofadinha pomposo inglês que qualquer um acharia que era um rapaz mais alegre do que uma árvore cheia de macacos chapados de gás do riso, mas anjos não têm sexo, a não ser que se esforcem muito.

A paz dos dois acaba quando o demônio recebe ordem de entregar um bebê que será o anticristo, dando início ao apocalipse. Só que ele se confunde, e em um acidente que poderia ser fonte de uma excelente discussão sobre os efeitos de genética vs criação, o anticristo é entregue a um casal perfeitamente normal, e criado não por pais satanistas mas por um casal irritantemente normal pros padrões ingleses.

Céu e Inferno se preparam para a batalha final, os quatro cavaleiros do Apocalipse (versão 2.0) rumam para se encontrar com o anticristo, junto com o Exército de Caçadores de Bruxas (2 membros ativos) um anjo, um demônio, três crianças de 11 anos mais ou menos, um Bentley e uma guerra termonuclear global afinal pra quê inventar?

Ah sim, também tem uma bruxa, descendente de outra bruxa que foi uma profetisa fracassada pois só fazia profecias extremamente precisas, tipo:

"Em Dezembro de 1980 aparecerá uma Maçã que ninguém pode comer. Invista vosso dinheiro na máquina de Mestre Jobbes e boa fortuna acompanhará seus dias."

Ah sim, a mais importante de todas, de 1973:

"Não comprarás Betamax."

Os Personagens

Crowley

Vivido por David Tennant, ele é um demônio que adora novidades, e tem problemas lá embaixo para explicar seus feitos. Ninguém entende que tentar um vigário não chega aos pés de derrubar toda a rede de celulares de Londres, deixando milhões de pessoas irritadas e com pensamentos ruins.

Crowley adora um bom vinho e dirigir feito um maníaco seu Bentley 1926, que tem a peculiar característica de toda fita (no livro, CD na série) eventualmente se transformava no álbum Best of Queen.

Aziraphale

O personagem de Michael Sheen é um anjo de doçura e educação, mas que já está meio cansado de ser um anjo no resto. Sua principal preocupação é uma loja de livros antigos que raramente  vendeu algum livro, é apenas uma forma de Aziraphale exibir sua coleção para curiosos invejosos.

A princípio ele se recusa a ajudar Crowley a impedir o apocalipse, mas ele acaba convencido, visto que no céu não teria os jantares, recitais e musicais que tanto gosta. Assim como seu colega demônio, Aziraphale é capaz de fazer milagres, como consertar bicicletas e conseguir uma mesa no Ritz para o almoço.

Arcanjo Gabriel

John Hamm faz o anjo mais consistente com o padrão atual, ele ficaria confortável em Supernatural, Preacher e quase todo filme ou série que use anjos: Ele é um perfeito babaca. A atitude de "estou certo e dane-se", a arrogância, está tudo ótimo, e Aziraphale tem que rebolar pra não deixar Gabriel perceber que há algo errado com o Apocalipse, pois o importante é vencer a guerra.

Adam Young

O Anticristo, filho de Satã, fonte de todo o mal, senhor dos exércitos, exterminador das estrelas, etc, etc. Quer dizer, em teoria. Na prática ele é um garoto perfeitamente normal vivendo uma infância de cidade do interior, brincando com os amigos, roubando frutas do vizinho e cuidando de seu cachorro, que na verdade é um cão-fera do Inferno (mas Adam não sabe).

Quando seus poderes começam a se manifestar tudo que um garoto de 11 anos acha ser verdade começa a se tornar realidade, então não é surpresa que coisas como aliens e Atlântida comecem a aparecer.

Adam está dividido entre o destino que nasceu para cumprir, e o que ele acha que é certo, e os dois acabam se confundindo. Lembra a última temporada de Supernatural? Sim, mas com muito menos drama.

Anathema Device

Por algum motivo a descendente da bruxa inglesa é vivida pela porto-riquenha Adria Arjona, mas não vou discutir com o departamento de diversidade da BBC. Anathema foi treinada desde criança para conhecer as profecias de sua antepassada, e é citada nominalmente em várias. Sua função é proteger o livro de Agnes Nutter e impedir o Apocalipse.

Ao contrário das bruxas mais comuns Anathema é (e se descreve como) uma ocultista, do tipo que vê auras, mas não tem nenhum grande poder místico, exceto o conhecimento do futuro.

A lista de personagens é enorme, mas quanto mais falar mais do enredo acabo entregando, e a graça é a surpresa.

Diferenças do Livro

Neil Gaiman como todo escritor é preguiçoso então o texto está muito fiel, mas algumas partes foram ampliadas. Boa parte de um episódio é dedicada às aventuras de Aziraphale e Crowley através da História. Lembra muito Highlander, o que não deixa de ser correto afinal os dois são imortais, só não gostam de ser mortos por causa da imensa burocracia envolvida em uma desincorporação não-planejada.

A participação dos outros anjos e demônios também é ampliada, eles se tornam muito mais antagonistas, e acabam rendendo uma ótima sequência que coloca Crowley e Aziraphale em rara posição de vantagem.

O final da mini-série encerra o arco de vários personagens que no livro ficam soltos, o que é bem satisfatório. Adianto que não há nenhum funeral, não é Endgame, é uma aventura fantástica em tons de comédia.

Conclusão:

Good Omens, Belas Maldições é uma mini-série que os fãs do livro esperaram 30 anos para assistir, e não sairão decepcionados, apesar da ausência de dragões. Tudo foi feito com respeito e carinho, nenhum personagem está forçado, não tentam fazer cinco gêneros diferentes na mesma história, e não há nenhuma ambição de fazer um Senhor dos Anéis ou Dez Mandamentos. É apenas uma história quase intimista sobre o Fim de Tudo, e muito bem contada.

Como assistir:

Já está disponível na Amazon Prime.

Como ler:

Belas Maldições está disponível nas melhores livrarias, online e offline, e nas piores também. Se possível tenta achar a edição da Bertrand, com a capa bonita, as novas são horrendas, ou pegue pra Kindle, mas compre e leia, depois me agradeça.

Cotação:

4/5 Frutos proibidos, que nunca foi uma maçã, maçãs não existiam no Oriente Médio de 6000 AC. Neil Gaiman mentiu para nós!

 

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