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As oito mais furadas previsões na história da tecnologia

Fazer previsões para o futuro é fácil, complicado é acertar, mas bom mesmo é ver como muita gente boa errou e errou feio no passado

33 semanas atrás

Não há nada mais fácil de fazer do que previsões, exceto se forem sobre o futuro. Aí, algumas vezes complica, mas o mundo da tecnologia está cheio de previsões furadas frutos de visão de túnel e... falta de imaginação.

SIm, o futuro está em branco. (Crédito: masbebet christianto via Pixabay )

Na prática, muita gente vê uma tecnologia em sua infância e não consegue extrapolar alguns anos adiante. Câmeras em celulares por anos foram brinquedos inúteis, um monte de gente dizia que eram uma bobagem que os fabricantes queriam empurrar. Para ser justo, isso muitas vezes é verdade, vide os celulares que filmavam em 3D, mas em outros casos é má-vontade mesmo.

Por isso neste artigo vamos listar alguns casos onde gente muito boa em seu ramo falhou miseravelmente em perceber o potencial de novas tecnologias e invenções. Sim, é cômodo escrever esse tipo de texto, visão do passado é 20/20 como dizem os gringos, mas estamos em clima de fim de ano, me dêem um refresco.

1 – Interface gráfica

O Macintosh não inventou a interface gráfica, sequer foi o primeiro computador da Apple com uma, mas a um preço de US$25 mil em valores de 2021, o Apple Lisa não era exatamente popular, muito menos o Xerox Alto, que custava mais de US$100 mil, nos mesmos valores. Por isso podemos dar um desconto para os jornalistas de tecnologia da época, assustados com a mudança dramática da linha de comando para o ambiente gráfico.

Ah Hollywood, nunca mude. (Crédito: CSI - Reprodução Internet)

Para o usuário final o Macintosh, lançado em 1984 era uma experiência completamente diferente de um PC, que mesmo com o Windows 1.0 era basicamente uma máquina DOS, e continuaria assim até o Windows 3.11. Ou 11, dependendo do nível de cinismo de quem você pergunte.

Usuários mais antigos, Unixistas e CP/Mistas viam a interface gráfica como um “emburrecimento” do computador. Eles não tinham o conceito de usuário, quem tinha acesso a um PC deveria merecer esse acesso, tendo conhecimento de comandos arcanos e entendendo o funcionamento da máquina.

Essa percepção fez muita gente desprezar a interface gráfica, incluindo Chrys Goyens, um articulista que defendia que interfaces gráficas eram uma modinha passageira, não traziam nenhuma vantagem sobre a linha de comando, e logo ninguém mais lembraria delas.

É, modinha passageira. (Crédito: Reprodução Internet)

O mais engraçado é que Chrys escreveu isso em um artigo dois anos DEPOIS do lançamento do Macintosh, e com Windows já se popularizando. Sem dar o braço a torcer, ele disse que era tudo fruto do marketing da Apple. Eu entendo. Já recebi mensagens de haters dizendo que as vendas dos iPhones eram fakes, a Apple mandava agentes para comprar os celulares nas lojas e inflar os números.

Felizmente nem todo mundo tinha essa visão, em 1990 o New York Times publicou um excelente artigo sobre as interfaces gráficas, que, sendo honestos, ainda eram uma bela porcaria, mas tinham potencial.

2 – Foguetes Funcionam, NYT

Mostrando que nada muda, no começo do Século XX jornaleiros também não entendiam nada de ciência de foguetes. Por isso um editorialista do New York Times resolveu descascar um artigo de Robert Goddard, na revista Popular Science.

Goddard é um dos pioneiros da astronáutica, construiu o primeiro foguete a combustível líquido (ainda chegaremos lá, Brasil) e sonhava alto. Em seu artigo Goddard detalhava suas pesquisas e fazia previsões de missões lunares, e até propôs escudos ablativos para suportar o calor da reentrada.

Robert Goddard em 1935. Sim ele tinha um programa espacial melhor do que o nosso. (Crédito: NASA)

O jornaleiro do New York Times não gostou, e escreveu um editorial detonando as previsões de Goddard, usando toda sua “lógica” de ensino médio, inclusive um total desentendimento das Leis de Newton, afirmando que um foguete não teria propulsão no espaço pois os gases de escape não teriam uma atmosfera para pressionar.

Obviamente algum tempo depois, para desespero de Londres, Werner Von Braun demonstrou que foguetes podem perfeitamente deixar a atmosfera e voltar para a Terra, mesmo que de forma um tanto violenta.

Antes tarde do que nunca. (Crédito: Reprodução Internet)

Em 17 de Julho de 1969 o New York Times publicou uma errata dizendo que novas pesquisas e experimentos demonstraram que um foguete poderia sim, se mover no vácuo, e “O Times lamenta seu erro”.  Um dia antes a Apollo XI havia pousado na Lua.

3 – Televisão? Modinha também

Darryl F. Zanuck é uma lenda. Um dos maiores produtores de cinema de todos os tempos. Sua filmografia sozinha justificaria a invenção do cinema. Por isso mesmo ele não conseguia ver outra coisa. Sua vida era cinema e uma invenção nova, precária, desajeitada jamais poderia tomar seu lugar. Daí a frase:

“A televisão não vai criar seu espaço no mercado e as pessoas logo vão se cansar de ficar olhando para uma tela toda noite”

Essa previsão foi feita em 1946, uma época em que toda TV vinha com um marionetista, toda a programação era ao vivo. TV era rádio com imagem, tipo a Armação Ilimitada, mas então surgiram equipamentos para filmar filmes com câmeras de TV (literalmente, a imagem era projetada em uma tela e captada pela câmera de TV) foi aberto espaço para noticiários, peças de teatro, filmes e muito mais.

TV pra quê? (Crédito: Wandavision / Disvel)

O cinema começou a brigar com a TV, e daí surgiu a guerra de formatos, com o clássico 4:3 do cinema, copiado pela TV sendo substituído por Cinemascope, Movierama e inúmeros outros formatos com proporções que deixavam os filmes impossíveis de assistir em uma tv comum.

Lawrence da Arábia por exemplo tinha cenas na irreal proporção 2.35:1. Mesmo em uma tv wide de hoje em dia isso ficaria horrível.

Imagina isso num celular na vertical. (Crédito: MGM)

No final a previsão de Darryl F. Zanuck foi furada, assim como a previsão de muita gente que o cinema mataria a TV. Ambos aprenderam a coexistir, e ironicamente quem salvou a indústria cinematográfica durante a primeira pandemia de COVID foi a TV.

4 – Processamento de Dados, quem precisa?

Computadores de uso geral não existiam durante a 2ª Guerra Mundial, equipamentos como o Colossus e o ENIAC eram programados fisicamente para tarefas específicas, e como eram segredos de guerra, pouca gente tinha sequer noção de que esse tipo de máquina existia ou poderia existir. “Computers” é uma palavra que poderia ser adaptada para “Calculadoras” e essas eram as calculadoras:

As calculadoras da NASA (Crédito: NASA, duh)

A idéia de computadores para uso geral ainda era essencialmente acadêmica, o que fez com que o editor de livros de negócios da editora Prentice Hall colocasse sua “experiência” à frente do conhecimento, e soltou a abestada previsão:

“Eu viajei por todo o país e conversei com os melhores profissionais da administração de empresas. Posso garantir da mais alta autoridade que processamento de dados é uma moda passageira e não vai durar até o final do ano. ''

Ele disse isso ao rejeitar um manuscrito de um livro sobre processamento de dados. Foi uma falta de visão total, toda uma indústria existente estava se adaptando, e empresas como a IBM já faziam máquinas de tabulação de dados, as peças existiam, era esperar a tecnologia para conectá-las.

PS: Às vezes a experiência fala mais alto, é importante saber reconhecer os hypes. Uma das minhas decisões mais acertadas foi rejeitar a oferta de um editor que queria um livro sobre VRML (Virtual Reality Markup Language) . Ele ouviu minha previsão, e riu com a concorrência atolada de livros encalhados sobre essa bobagem.

5 – Quem precisa de carros quando temos cavalos?

Henry Ford vinha tentando fabricar automóveis desde 1901, mas só em 1903 ele conseguiu abrir sua fábrica, produzindo vários modelos de carros, ainda artesanalmente. Mesmo nessa época automóveis e motores a gasolina não eram novidade, o primeiro “carro”, chamado Motorwagen, rodou na Europa em 1885, tornando-se celebridade com o primeiro grand tour, obra de sua esposa Bertha Benz, em 1888.

Henry Ford em seu Ford Quadriciclo, em 1896. (Crédito: Domínio Público)

Em 1903 o automóvel não era exatamente popularizado, nos EUA a densidade era de 0.41 veículos para cada mil habitantes. Em 2012 esse número atingiu a marca de 807.99. Mesmo assim era evidente que máquinas eram mais eficientes do que tração animal, exceto para uma cavalgadura que opcupava o cargo de Presidente do Banco de Investimentos de Michigan. O sujeito resolveu aconselhar um advogado chamado Horace Rackham a não investir em ações da Ford Motor Company:

“O cavalho veio para ficar, já o automóvel é uma curiosidade e uma modinha”

Rackman por sua vez tinha motivos para investir: Sua firma havia sido contratada por Henry Ford para cuidar da abertura de capital da empresa. Ford ofereceu a Rackman 50 ações, de um total de 890, a um custo de US$5 mil, equivalentes a US$157.925,00 em valores de 2021.

Rackman não tinha essa grana dando sopa, então correu para pedir empréstimos e vender terrenos, ignorando solenemente o alerta do tal banqueiro.

Com o dinheiro das ações, Ford investiu em sua nova idéia, a Linha de Montagem. Rackman foi eleito chairman da empresa, os carros da Ford começaram a vender feito água, em 1908 veio o Modelo T, vendido ao baixíssimo preço de US$260 (US$7.855,05 em valores de 2021).

Em 1919 Edsel, filho de Henry Ford negociou a compra das ações de Rackman. Os US$5 mil originais valiam então US$12.5 milhões. Em valores de 2021 a “curiosidade” e “modinha” rendeu ao advogado o equivalente a US $200.829.479,77.

Horace Rackham, depois de vender as ações da Ford (Crédito: Walter Lantz)

 

6 – Satélites não servem para nada

Dizem que a mentalidade burocrática é a única constante no Universo, e nada pior do que colocar gente sem qualificação em cargos burocráticos. Isso aconteceu inúmeras vezes na História. Junte a isso falta de conhecimento na área e idade avançada, e a caca está feita.

Daí a frase de Tunis Augustus Macdonough Craven, oficial da Marinha dos EUA, engenheiro e um dos primeiros a trabalhar com rádio. Ele deu baixa em 1930, mas como tinha boas conexões, foi cavando seus carguinhos no Governo, até se tornar Comissário do FCC, o Conselho Federal de Comunicações, a ANATEL dos gringos.

Aproveitando seu carguinho confortável, ele nunca se deu ao trabalho de se atualizar, e como resultado quando começaram a perguntar sobre foguetes e uso comercial do espaço, ele soltou a brilhante pérola:

"Praticamente não há chance de satélites espaciais de comunicação serem usados ​​para fornecer melhores serviços de telefone, telégrafo, televisão ou rádio dentro dos Estados Unidos."

Isso foi dito em 1961, quando Craven tinha 68 anos, mas não é desculpa. Em 1958 os EUA lançaram o SCORE, o primeiro satélite de comunicações. Em 1960 o TIROS transmitia imagens meteorológicas de TV. Em agosto do mesmo ano o Echo 1 se tornava o primeiro satélite de comunicações passivo (ui!) refletindo sinais da Terra.

O Echo 1 é talvez o maior satélite já lançado. Ele era um balão feito com material reflexivo. Só isso. (Crédito: NASA)

Dois meses depois o Courier 1B era lançado e ocupava o posto de primeiro satélite de comunicações ativo (ui!) repetindo e amplificando sinais da Terra.

Em Julho de 1962 o Telstar 1 realizava a primeira transmissão de TV transatlântica, e se tornava o primeiro satélite retransmissor de TV, telefone e dados.

Craven só morreu em 1972, tendo bastante tempo para ver, ao vivo e a cores o pouso na Lua e sua falta de visão.

7 – Especial IBM

Todo mundo conhece as histórias da IBM, de como sua imensa arrogância e falta de visão a fizeram perder repetidamente a chance de dominar mercados, principalmente no campo do consumidor final, mas como sempre a verdade está no meio, não nos extremos.

Você já deve ter ouvido a clássica frase de Thomas J. Watson, Presidente da IBM, com a previsão:

“Eu acho que há um mercado mundial para talvez cinco computadores”

Ninguém nunca conseguiu autenticar essa citação, mas a própria IBM descobriu a provável origem: Em 1953, durante uma apresentação o então Presidente Thomas J. Watson, Jr. (nepotismo? Nah) falava sobre o primeiro computador da empresa voltado para cálculos científicos.

IBM 701. 9216 bytes de memória para você se divertir. Não rodava Crysis. (Crédito: IBM)

O aluguel mensal do brinquedo equivalia a US$187 mil em valores de 2021, então havia poucos lugares com verba pra isso. Ele criou um projeto de vendas e saiu em uma maratona pelos EUA, apresentando o IBM 701 para as instituições. Segundo Watson Jr, a projeção era que haveria um mercado para 5 desses computadores, mas no final eles receberam 18 encomendas.

Outras vezes a IBM foi burra mesmo, quando em 1959 desaconselhou a Xerox a investir no ramo de copiadoras, com a previsão de que haveria um mercado mundial para 5000 máquinas, no máximo. Essa nem preciso explicar, né?

8 – A Internet? Bah!

Todo mundo errou em previsões sobre a Internet, eu mesmo achei que ela se tornaria uma Segunda Renascença da palavra escrita, com todo mundo lendo e escrevendo cada vez melhor. Alguns meses antes do lançamento do Windows 95, a Microsoft fez uma apresentação para usuários VIP do Unikey BBS, mostrando sua visão para a Internet, com diversas aplicações Office.

Eu questionei, dizendo que aquilo só funcionaria se os computadores estivessem online o tempo todo, e todo mundo só tinha Dial Up. O sujeito apresentando explicou que a Microsoft via um futuro bem próximo onde conexões mais permanente substituiriam a linha discada.

Realmente, em 1999 a TELERJ lançou o ISDN, e mais tarde o Velox.

Os nerds, em geral fãs de ficção científica víamos a Internet com imenso potencial, exceto nos casos acima, quando a gente sabe que nada dá certo nesse país, mas os conceitos de ligações de voz, vídeo sob demanda, mensagens instantâneas, estava tudo lá. E talvez por isso mesmo até Bob Metcalfe fez uma previsão catastrófica.

Metcalfe é um nome que a maioria das pessoas desconhece, mas eu garanto que você já pegou no negócio dele. No bom sentido, é claro.

Thanks, Bob! (Crédito: wyrls)

Ele inventou nada menos que o padrão Ethernet, o sistema de comunicação de rede que hoje é usado em basicamente tudo que envolve rede de computadores.

A previsão de Bob Metcalfe? Em 1995 ele previu que a Internet implodiria, no ano seguinte. Havia um surto de demanda de vídeos, áudio, dados, imagens, comunicações, e nem os computadores nem as redes e muito menos a infra-estrutura dos backbones e servidores conseguiria agüentar.

Bob chegou a dizer que comeria sua coluna na Infoworld se a Internet não implodisse.

Spoiler: Não implodiu, mas ao menos ele cumpriu sua promessa.

Promessa é promessa (Crédito: InfoWorld / Reprodução Internet)

Mesmo assim, o Oscar de previsão furada não é de Bob, mas de um colunista da Newsweek chamado Clifford Stoll.

No mesmo ano de 1995, ele publicou um artigo chamado “A Internet? Bah!”, que mais tarde foi amenizado na versão online (ah, a ironia) para “Porque a Internet não será um Nirvana”.

Stoll não é burro, ele é um astrônomo, com bastante conhecimento de redes e ficou semi-famoso ao trabalhar caçando hackers, mas a transição do mundo dos BBS e redes corporativas para a Internet foi algo que ele não conseguiu fazer.

Ele conseguiu pegar todas, TODAS as tecnologias e serviços nascentes e detonar, com previsões e mais previsões de coisas que NUNCA iriam funcionar. Sumarizando:

  • Nenhuma rede de computadores vai mudar a forma com que governos funcionam
  • Bancos de dados online não substituirão jornais
  • Todo mundo podendo se expressar só gerará ruído e ninguém será ouvido
  • Ler em um computador é horrível e (sic) você não pode levar um laptop para a praia
  • Ninguém vai comprar livros e jornais pela internet
  • É muito trabalhoso procurar informações na World Wide Web
  • Ninguém vai usar a Internet para acessar informações governamentais, como relatórios e projetos
  • Computadores e internet não ajudam em nada estudantes
  • Não há uma forma segura de enviar dinheiro pela Internet, e ninguém quer comprar online, as pessoas gostam de interagir com vendedores de carne e osso
  • Comunidades virtuais? Bah
  • Ninguém vai trocar um concerto ao vivo por uma experiência multimídia interativa
  • Cybersexo? Ninguém quer isso, todo mundo vai preferir a coisa real.

O artigo de Stoll conseguiu errar em todos os aspectos, a ponto de 28 anos, em 2017, a própria Newsweek dar uma boa zoada, com um editor fazendo anotações em vermelho, explicando tudo de errado com a falta de visão do texto original.

Isso é uma desgraça. (Crédito: Newsweek)

Prever o futuro é complicado, às vezes é até mais fácil criá-lo, mas o mais importante é estar pronto pra ele. O futuro chega sem avisar, não importa se vai incomodar ou estragar seus planos. O futuro é meio como o seu cunhado.

O ideal é manter a mente aberta, usar a experiência para perceber o que tem potencial e o que é puro hype (VRML, sério?). Principalmente, temos que ficar atentos e não ter medo de mudar de idéia, reconhecendo uma nova tendência ou tecnologia que deixamos passar.

Exceto Snapchat. Nunca vou entender a interface daquela desgraça. Malditos millenials.

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