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Guia Meio Bit para identificar se um asteroide gigante vai destruir a Terra

Asteroides em colisão com a Terra aparecem toda hora em sites sensacionalistas, e as pessoas repassam sem muito critério. Aprenda como identificar o que é clickbait

13/09/2019 às 5:40

O mundo vai acabar no ano que vem. Ao menos é o que você vai descobrir se fizer uma busca no Google. Ano que vem, este ano, ano passado... Infelizmente a internet está repleta de bobagens apocalípticas e mesmo fugindo dos fanáticos religiosos, temos os fanáticos dos asteroides.

Os antropólogos do futuro vão adorar estudar esses comportamentos sociais, as pessoas adoram ler e compartilhar essas manchetes de asteroides do apocalipse, mas estranhamente elas não causam pânico como o cometa Halley, que por centenas de anos veio e foi embora sem maiores problemas, mas com o advento da mídia de massa na virada do século, se tornou fonte de desespero generalizado.

O New York Times publicou um artigo falando das previsões de um tal Camille Flammarion, astrônomo, autor de ficção científica e (red alert!) pesquisador paranormal, que usando pesquisas recentes que haviam identificado cianureto na cauda do cometa, previu verdadeiras catástrofes.

Segundo ele como havia Cianureto, Hidrogênio e Nitrogênio na cauda do Halley, quando ela passasse pela Terra nós poderíamos morrer envenenados, o Hidrogênio poderia pegar fogo e a Terra seria engolida em chamas ou no Nitrogênio se combinaria com o Oxigênio da atmosfera, formando óxido nitroso, gás do riso e morreríamos sufocados rindo como vítimas do Coringa.

Nas semanas que antecederam a passagem do Halley, aconteceram suicídios, governos recomendaram à população vedar com papel as fechaduras e frestas das janelas, em Nova York um idiota soltou um balão de Hidrogênio, que explodiu, uma multidão de 500 pessoas saiu em disparada. Com um monte de gente pisoteada.

Mais sério caso aconteceu em Aline, Oklahoma, quando um xerife local conseguiu impedir que Henry Heineman, líder de um culto religioso local, sacrificasse uma moça de 16 anos chamada Jane Warfield. O sacrifício havia sido exigido por Deus, do contrário o cometa destruiria o mundo.

Uma tal Clementian Derienzo, em Pittsburgh, viu uma nuvem cinza no horizonte, achou que fosse o cometa chegando, reuniu 18 crianças da escola próxima na sala de casa, trancou as portas e deu um tiro na cabeça.

O Halley veio, foi embora, nada aconteceu, mas as previsões continuaram. Na China, jornais espalharam as teorias de um grupo de astrônomos meio lesados que disseram que a cauda do cometa não existia, era um facho de luz, pois o cometa era transparente e agia como uma lente, a cauda era apenas o reflexo dessa luz concentrada e da próxima passagem talvez a Terra não desse sorte. Poderia ficar na frente da luz e ser queimada como formigas por crianças politicamente incorretas e lentes de aumento.

Como o mundo acabou em 1986, eles estavam certos.

A Moda dos Asteroides

Cratera do Meteoro - Arizona, USA.

Por incrível que pareça, o próprio conceito de meteoritos não era aceito pela comunidade científica, só depois da Chuva de Meteoros de 1803 que a ideia de pedras caindo do espaço se tornou inequivocamente parte da ciência oficial. A própria Cratera do Meteoro, no Arizona, com mais de 1 quilômetro de diâmetro (imagem acima) era vista como uma formação vulcânica.

O conceito de asteroides, meteoros e cometas como ameaça à vida na Terra demorou a se popularizar, mas agora com astrônomos amadores e observatórios no mundo todo, descobrindo asteroides todos os dias e a mídia desesperada atrás de pautas apocalípticas, eles caíram no gosto popular.

Faz sentido, é uma ameaça distante o bastante para não ser realmente temida e grande o bastante para dar aquela sensação gostosa de fim do mundo, quando as pessoas podem por alguns minutos se livrar de todos os problemas, imaginar o chefe sendo engolido por uma bola de fogo, mas o lado ruim é que tem gente que sempre acredita nessas bobagens.

É possível um asteroide grande atingir a Terra?

Sim, é possível. Todos os corpos do Sistema Solar são constantemente bombardeados por asteroides de todos os tamanhos, quanto mais os observamos, mais impactos vemos, como este em Marte, ocorrido em algum ponto entre fevereiro de 2017 e março de 2019:

Ou este impacto na Lua, durante um eclipse filmado em Janeiro de 2019:

 

Estatisticamente quanto maior o asteroide, mais rara a chance de um impacto. O Meteoro de Chelyabinsk, que deu aquele incrível show nos céus da Rússia alguns anos atrás, tinha 20 metros de diâmetro e meteoros desse tamanho atingem a Terra em média uma vez a cada 60 anos. Meteoros de 100 metros de diâmetro atingem a gente a cada 1.500 anos. Manja a Cratera algumas fotos acima, no Arizona? Foi resultado de um impacto de 10 megatons, causado por um meteoro de 50 metros.

Impactos maiores, com objetos de 1 quilômetro de diâmetro ocorrem em média a cada 500 mil anos, já asteroides causadores de eventos de extinção, como o que matou os dinossauros, com mais de 10 quilômetros de diâmetro, nos atingem a cada 100 milhões de anos em média.

Dificilmente seremos surpreendidos por um desses grandes, quase todo asteroide de tamanho significativo já foi descoberto, quanto aos pequenos é pura sorte, ou como preferimos chamar em Ciência: estatística. Quanto menor, mais difícil de identificar a uma distância razoável e nada impede que um asteroide de 30 ou 40 metros apareça e elimine uma cidade pequena, mas -de novo- a estatística nos protege.

E quando os jornais anunciam o fim do mundo?

Existem alguns truques simples de identificar uma história de asteroides assassinos de verdade. Pra começar, os sites. Qual o mais provável, que uma notícia de interesse mundial apareça na capa dos principais sites de notícias do mundo, ou só seja noticiada em uma página do blogspot.com, junto com denúncias sobre Illuminatis e Área 51?

Claro que um blog pequeno pode dar um furo, eu já dei várias vezes (ok isso não soou como eu imaginei), mas a fonte precisa ser compatível e nesses casos os blogs nunca listam um astrônomo anônimo renegado, para vender pseudocredibilidade. Sempre listam "astrônomos da NASA", que é a única organização ligada com astronomia que conhecem.

Aí eu pergunto: se um asteroide gigante estiver em colisão com a Terra, a NASA vai fazer uma coletiva e mandar releases pro New York Times, pro Washington Post ou pro blog deste cara aqui?

Uma notícia com esse impacto (sorry) estaria na capa de TODOS os jornais e não em blogs esporádicos ou naquelas seções "cotidiano" de portais, que costumam aceitar todo tipo de lixo. O ataque de 11 de setembro estampou praticamente todos os jornais do mundo. Acha mesmo que um asteroide em rota de colisão seria mantido no fundão de alguns portais e no hpg.net?

Usando ciência

É comum os alertas de asteroides assassinos distorcerem informações reais, apostando, muitas vezes corretamente, que a maioria das pessoas não conhece o assunto e nem vai pesquisar, confiando na credibilidade do veículo.

Um muito comum é o alerta de que o asteroide malvado vai passar "entre a Terra e a Lua", dando ideia de que é um espaço apertado, raspando. Na realidade a distância média entre os dois corpos é de 384 mil quilômetros. Esta é a proporção real, de distância e tamanho entre Terra e Lua:

São 384 mil quilômetros, é distância pra caramba. Entre a Terra e a Lua dá pra encaixar TODOS os planetas do Sistema Solar (sorry, Plutão) e ainda sobra espaço.

Portanto, um asteroide de 20 ou 30 metros tem espaço de sobra para passar entre a Lua e a Terra e mesmo assim são raros, a maioria das vezes os asteroides passam a várias vezes a distância da Lua, mas isso não impediu manchetes apocalípticas de asteroides dez vezes mais distantes que a Lua. Na imagem abaixo posicionei o cometa Halley nessa distância.

Não exatamente assustador, né?

Um bom procedimento quando você lê uma matéria sobre um desses asteroides é pegar o nome dele e fazer uma busca no site da NASA, que concentra informações sobre asteroides e outros corpos de menor porte.

O asteroide da moda é o 2019 OK, colocando o nome dele no campo de busca e depois clicando em "orbital elements" temos sua órbita, que podemos usar os comandos de avançar e recuar no tempo, para saber aonde ele estava está e estará, e nossa, parece perto mesmo, né?

Em um terço da distância da Lua, 141 mil quilômetros, perigoso, será que os sites estavam certos?

Agora vou dar o pulo do gato: o espaço, minha gente, o espaço assim como Avatar é em 3D. E nem todo mundo ocupa o mesmo plano, mesmo que você não seja espírita. O asteroide está passando "perto" da Terra em um plano bidimensional, mas se você clicar com o botão direito do mouse e mover o diagrama, verá posicionamento tridimensional.

O tal asteroide está passando num plano bem abaixo da Terra, ou seja, além de errar no plano bidimensional, erra na terceira dimensão.

Se você quiser se adiantar aos sites sensacionalistas, pode visitar o Centro da Nasa para estudos de Objetos Próximos da Terra. Ele mostra uma tabela simples com os asteroides conhecidos e a distância mínima que chegarão da Terra, em múltiplos de Distâncias Lunares (LD):

Por exemplo: amanhã, 14 de setembro, passará a 13,87 distâncias lunares uma coisa com algo entre 290 e 650 metros de diâmetro, que felizmente tem sua órbita muito bem mapeada. Vamos colocar o nome do bicho, 2000 QW7 no banco de dados e ver a órbita:

Olha a diferença de inclinação. Mesmo que ele passassem bem mais perto, a inclinação o manteria longe de nós. Reconfortante, pena que não dá manchete sensacionalista.

Conclusão

Agora vocês já sabem, meninos e meninas: se está noticiado só em blogs duvidosos ou em seções sensacionalistas de portais, é mentira. Se tem o nome do asteroide, bota no Google da NASA e veja você mesmo se os sites estão exagerando ou mesmo mentindo descaradamente. Não seja vítima do pânico gerado por caça-cliques.

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