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A série Silent Hill e sua curiosa ligação com banheiros

Com participações importantes em quase todos os capítulos, os banheiros foram uma das maneiras encontradas pela série Silent Hill para nos aterrorizar.

17/01/2020 às 9:15

Quando se trata de jogos de terror, eu sempre achei que nenhuma série é capaz de passar tanto medo quanto a Silent Hill. Mesmo tendo perdido um pouco de sua genialidade nos últimos capítulos, a franquia da Konami continuou carregando consigo uma das atmosferas mais pesadas dos jogos eletrônicos e parte disso se deve ao terror psicológico presente nos games e alguns detalhes que se tornaram quase que uma marca registrada.

Silent Hill 2

Da abordagem a religião até referências — algumas mais sutis, outras nem tanto — a sexualidade, a série nunca teve medo de explorar assuntos delicados, mas há outro tema recorrente que passou despercebido por muitos jogadores e que pode ter um papel importante na criação da tensão que costumamos sentir quando jogamos um Silent Hill: os banheiros.

Quem jogou o Silent Hill 2 provavelmente lembra de uma cena em que o protagonista, James Sutherland, se vê obrigado a enfiar a mão em uma privada imunda localizada no prédio Blue Creek Apartments. Aquela porém foi apenas uma das vezes em que os criadores dos jogos usaram esses lugares de maneira importante e quem notou isso foi Joe Donnelly, que publicou um artigo muito interessante no site VG247 onde tenta desvendar a fascinação da série por esses cômodos.

Mas ao invés de criar as teorias mais mirabolantes sobre o assunto, o ex-encanador resolveu conversar com profissionais diretamente ligados ao desenvolvimento da série, como por exemplo Akira Yamaoka. Após dizer que esta é uma pergunta que nunca haviam lhe feito, o lendário compositor deu a sua explicação para o inusitado assunto.

Penso que o banheiro normalmente é um lugar associado à calma e à tranquilidade, mas ao mesmo tempo é um lugar onde podemos nos sentir vulneráveis. Psicose, de Alfred Hitchcock, é provavelmente o exemplo mais notável de como usar este cenário para explorar temas [mais sombrios] do gênero terror e, em Silent Hill, ele costuma estar associado ao Otherworld.

Em Silent Hill 2, falando dessa cena com James, ele está desesperado. É muito cedo no jogo, então ele ainda está descobrindo o que está acontecendo e qual o seu lugar naquilo tudo. Ele fará qualquer coisa para continuar. Este é um homem que viajou para Silent Hill depois de receber uma carta de sua esposa morta, afinal, então tudo é possível. Ele quer entender o que está acontecendo, por que o mundo ao seu redor está desmoronando e se isso significa fazer coisas que ele normalmente não faria, então é isso que ele precisa fazer.

[…] Os banheiros do Alchemilla Hospital ao longo da série costumam ser lugares perigosos, o que reflete a maneira como vemos os hospitais como lugares assustadores e nos quais preferimos não estar.”

Silent Hill

Quem defendeu uma opinião parecida foi Jason Allen, designer responsável pelo Silent Hill: Homecoming. Desenvolvido pela Double Helix Games, neste jogo é justamente num banheiro que encontramos com uma das assustadoras enfermeiras pela primeira vez, além de fazermos a primeira transição para o Otherworld.

Mesmo fazendo questão de deixar claro que aquilo que diria se tratava apenas de sua própria visão e não do estúdio em que trabalhava ou da Konami, Allen também citou o clássico Psicose e seguiu afirmando que depois dele, quase todo filme de terror mostrou algo se escondendo atrás da cortina do box. Porém, foi outra parte do seu comentário que mais chamou minha atenção. Veja:

Pessoalmente, sinto que a eficácia de um susto de horror se baseia no quão seguro o protagonista se sente em qualquer situação. Naturalmente, todas as espécies quando ameaçadas protegem aspectos de seu corpo físico com maior preferência em relação a outras partes de sua anatomia. Criaturas protegem suas genitálias em detrimento a outras partes do corpo, caso contrário elas não podem produzir descendentes. Assim como protegemos nossos olhos, pois eles são necessários para sobrevivermos no mundo.

Com isso em mente, estar em um banheiro tem uma associação a estar exposto — órgãos genitais expostos — então ser atacado ali é particularmente efetivo; deveria ser um local seguro […]

Nós temos uma forte aversão aos nossos fluídos e gostamos que os nossos banheiros sejam limpos. O Silent Hill claramente brinca com esse motivo, forçando os personagens a estarem espaços que deveriam ser ‘seguros e limpos’, mas que são tudo menos isso.

Silent Hill

Mesmo o P.T., aquele teaser jogável que Hideo Kojima criou para o Silent Hills, contava com uma cena impactante num banheiro. Nela tínhamos um feto vivo que podia ser visto se contorcendo em uma pia e como a Konami preferiu cancelar o projeto, o que provavelmente faria com que ninguém envolvido com ele iria se manifestar, Joe Donnelly optou conversou com Lance McDonald, um sujeito que tem se dedicado a descobrir alguns segredos do jogo.

O banheiro é um local de conexão. Uma ligação entre a limpeza do nosso mundo e um nojento e invisível lugar abaixo. A sensação desconfortável de que algo poderia vir de outro lugar e emergir dos buracos na sala. Se chegarmos um pouco perto demais, talvez sejamos puxados para lá.

A série Silent Hill é sobre buracos e aqueles no banheiro são coisas absolutamente terríveis. Coisas terríveis aconteceram no banheiro do P.T., talvez alguém tenha se aproximado demais do outro lado por lá.

Mesmo no filme Terror em Silent Hill o banheiro possui um papel importante na trama, já que uma das cenas mais impactantes é quando a protagonista se depara com o monstro em que o zelador se transformou. Foi também lá que o sujeito havia estuprado a pequena Alessa Gillespie, em mais uma demonstração de como a franquia gosta de associar esses lugares a situações horríveis.

Talvez nunca saibamos se essa houve uma real intenção da equipe em explorar os banheiros como causadores de terror, mas acredito que as explicações dadas pelos entrevistados façam bastante sentido.

Como um dia eu ainda pretendo jogar todos os capítulos da série, acho que ao fazer isso prestarei mais atenção neste fascinante aspecto dos Silent Hill, mas a certeza que tenho é de que nunca mais verei um banheiro da maneira como via antes. Principalmente aqueles públicos, que devido a sua falta de manutenção agora sei que devem ter saído diretamente daquela assustadora cidade amaldiçoada.

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