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Mosquitos geneticamente modificados criaram o Mosquitorassic Park na Bahia [atualizado]

Mosquitos geneticamente modificados são uma ótima arma contra Dengue, e outras doenças, mas agora eles estão passando o DNA alterado para outros mosquitos.

18/09/2019 às 18:41

[atualização] a Oxitec enviou uma resposta, publicada no final do texto.

Mosquitos geneticamente modificados são uma das principais armas contra a Dengue e outras doenças, e vem sendo testados faz tempo, inclusive no Brasil. O que ninguém exceto o Jeff Goldblum esperava era que os mosquitos desobedecessem os cientistas...

Mosquito geneticamente modificado com leves efeitos colaterais

O projeto, desenvolvido pela empresa inglesa Oxitec em si é excelente e demonstrou que esse tipo de controle biológico é possível. Ao final do projeto em Jacobina, BA, 92% da população selvagem de mosquitos Aedes aegypti haviam sido eliminados, com ajuda do que a empresa batizou de... Aedes do Bem™.

O projeto, que também foi implantado em Juiz de Fora e Indaiatuba, envolve uma modificação genética do mosquito, alterando o gene OX513A. Essa alteração faz com que os mosquitos geneticamente modificados não consigam se desenvolver além da fase de larva, a não ser que sejam tratados com Tetraciclina, e você já tentou dar comprimido pra mosquito?

Por 27 meses foram liberadas cargas semanais de 450 mil mosquitos machos, com a alteração genética. A idéia é que eles furunfem com as mosquitas, e quando a menor cegonha do mundo trouxer os mosquitinhos, eles morrerão ainda na tenra idade, virgens e puros, sem deixar descendentes.

Como o gene não é passado adiante, e mosquitos machos sem o tal gene continuam por aí. Com o tempo a população modificada desaparece, e o número de mosquitos volta ao normal.

Em testes em Juazeiro a população voltou a crescer depois de 17 semanas da última liberação, em Jacobina o efeito durou por 32 semanas1.

Mosquito geneticamente modificado ameaça a população ribeirinha

Mosquito geneticamente modificado ameaça a população ribeirinha

Os cientistas notaram que os mosquitos geneticamente modificados estavam sendo rejeitados pelos fêmeas, o que aumentava a população viável, mas também descobriram outra coisa: Mosquitos com o gene estavam se reproduzindo e gerando prole viável. O tal gene começou a aparecer entre a população nativa, não só entre os diretamente afetados pelo projeto.

Segundo um artigo publicado na Nature em 10 de Setembro de 2019, algo inesperado aconteceu. Entre 10% e 60% dos mosquitos vivos serelepes da região possuem o gene OX513A.

Em laboratório 3% das proles produzidas eram viáveis, mas os cientistas achavam que eles eram fracos demais para se reproduzir, tipo quando a patroa fica cutucando a gente domingo de manhã depois do churrascão de sábado, querendo coelhar.

O problema é que assim como Informática, Biologia não é uma ciência exata. Genes não são operadores booleanos, não funcionam como 0 ou 1. A expressão de um gene depende de N fatores além de sua existência, em cada célula ele vai funcionar de forma diferente, e sua simples presença não é garantida em todas elas. Por isso você tem pessoas com uma imensa variedade de tons de pele, cor de cabelo e resistência a lactose.

O mosquito geneticamente modificado com baixa expressão do gene conseguiram jogar um caô para as mosquitas, dizendo "eu não sou como aqueles outros caras", e créu, passou seus genes adiantes. Os filhotes sobreviveram, e como a alteração atenuada não era mais 100% mortal, alguns sobreviveram. Outra geração, os sobreviventes se reproduzem, e o ciclo continua. Temos agora 60% da população natural portando o tal gene, não sendo afetados se houver uma nova introdução de mosquitos modificados na região.

mosquitos geneticamente modificados atacam agricultores na Bahia. Juro!

Segundo a pesquisa divulgada2, não há nenhum efeito do tal gene na carga viral dos mosquitos, eles não estão mais poderosos, infecciosos ou resistentes. É um risco da engenharia genética, e por causa disso muita gente tem medo de organismos geneticamente modificados. Eu ficaria com medo também se não soubesse que todo dia bilhões de mutações aleatórias ocorrem pelo mundo, e não temos nenhum controle sobre isso. Se preocupar com engenharia genética é mais ou menos como ter medo de engasgar com um copo d´água no bar do Titanic.

Os cientistas esqueceram de um conceito básico: A Vida sempre acha um caminho, o imperativo reprodutivo é forte demais, o DNA, assim como a especiaria precisa fluir. Se houver a menor brecha, ela vai ser explorada.

Mosquitos geneticamente modificados modificados

A Oxitec cancelou a produção de novas unidades do mosquito OX513A, agora vão produzir uma versão nova, onde a alteração genética mata especificamente as fêmeas, eles esperam que dessa vez os genes não sejam repassados para as futuras gerações, e a perda de eficiência seja menor ou desapareça. A eles, 4,5 bilhões de anos de evolução dizem "vai na fé, irmão".

Fontes:

1 - Garziera, L. et al. Effect of interruption of over-flooding releses of transgenic mosquitões over wild populatio of Aedes aegypi: two case studies in Brazil. Entomol. Eperiment. Appl. 164, 327–339 (2017).

2 - Benjamin R. Evans et al. Transgenic Aedes aegypti Mosquitoes Transfer Genes into a Natural Population. Scientific Reportsvolume 9, Article number: 13047 (2019)

 

[RESPOSTA DA OXITEC]

A assessoria da Oxitec entrou em contato e como apoiamos a troca saudável de idéias, publicamos aqui os esclarecimentos da empresa sobre a matéria:

  1. O estudo de Jacobina, em 2013, teve como objetivo gerar dados sobre a segurança e a eficácia do OX513A e obter dados para a aprovação comercial junto à CTNBio. O foco não era o controle populacional dos mosquitos selvagens.

  2. Mesmo assim, o projeto conduzido na cidade brasileira de Jacobina-BA, em 2013, foi bem-sucedido. Mosquitos OX513A foram liberados durante 117 semanas e resultaram na supressão contínua das populações de Aedes aegypti nas áreas tratadas, totalizando uma redução de 94% na população de mosquitos, durante o experimento.

  3. Como previsto, os resultados demonstram que a técnica requer uma liberação contínua nas áreas tratadas. A linhagem OX513 desaparece do ambiente algumas semanas após a interrupção das liberações. Funciona como um inseticida, mas com um processo biológico: enquanto você aplica, vê o efeito. Se parar de usar, os mosquitos voltam. Além disso, o efeito de supressão populacional não é imediato: é preciso liberar continuamente por aproximadamente um ano para que se possa começar a controlar a população. 

  4. Os resultados apresentados em Jacobina foram exatamente os esperados. Essa informação estava presente no dossiê regulatório apresentado pela Oxitec e aprovado pela CTNBio, em 2014:

“A penetrância do fenótipo letal do transgene foi avaliada em híbridos F1 entre machos homozigotos OX513A e fêmeas de Cayman. Os ovos de cruzamentos de machos homozigotos OX513A com fêmeas do tipo selvagem de Cayman, e de OX513A autocruzados (cruzamentos de controle) foram criados na presença e na ausência de tetraciclina e o número de adultos resultantes avaliado. Na ausência de tetraciclina, foi observada mortalidade de 96,5% (IC 95% = 95,1 – 97,6%) de heterozigotos (n = 913)..." - ou seja - já se sabia que existiria cerca de 5% de sobrevivência. A CTNBio julgou seguro esse índice, já que os 5% não causam nenhum efeito adverso e desaparecem do ambiente em algumas semanas.

  1. O grupo editorial Nature emitiu, no dia 17 de setembro de 2019, um aviso de isenção relacionado ao artigo citado na reportagem, afirmando que os editores estão revendo o artigo. Isso foi feito à luz das preocupações levantadas sobre integridade científica, da não divulgação de potenciais conflitos de interesse e de declarações prejudiciais e enganosas contrárias às evidências.

  2. Os mosquitos transgênicos não criam mosquitos mais resistentes – é exatamente o contrário: o próprio artigo da Scientific Reports, assim como outros publicados à época, mostraram que a linhagem OX513 desaparece do ambiente algumas semanas após a interrupção das liberações, como esperado.

  3. Foram 14 anos de pesquisas antes do ensaio de campo em Jacobina. No local, foram 36 semanas de estudos antes da liberação dos mosquitos. Sendo assim, é um equívoco afirmar que a liberação foi precipitada - principalmente se a afirmação vier de concorrentes, com interesses comerciais contra o estudo.

 

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