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Lágrimas na chuva: nosso adeus a Rutger Hauer

Um tributo a Rutger Hauer, um ator maior que a vida, que entrou para a história do cinema com Blade Runner, O Feitiço de Áquila e A Morte Pede Carona

25/07/2019 às 17:56

O incrível ator Rutger Hauer nos deixou ontem aos 75 anos, e eu não posso deixar de escrever sobre ele, alguém que fez parte da minha vida em vários momentos. Esse texto pretende ser ao mesmo tempo um tributo e uma forma de agradecimento a todos os serviços prestados por Rutger Hauer em sua vida como ator, por toda a sua imensa e muito bem sucedida carreira no cinema.

Rutger Hauer será sempre associado a ótimos filmes, mas o mais incrível deles é certamente a obra-prima Blade Runner, filme no qual foi dirigido por Ridley Scott, e no qual teve uma atuação simplesmente perfeita na cena pela qual será lembrado por toda a eternidade, a morte do replicante Roy Batty na chuva, da qual vou falar mais pra frente.

Antes de chegarmos nessa cena magistral, vamos lembrar um pouco da carreira do ator holandês. Sua melhor sequência no cinema certamente foi nos anos 80, que começaram com Blade Runner em 1982 e terminaram com Blind Fury (Fúria Cega) em 1989, no qual ele vive uma adaptação ocidental do clássico Zatoichi, o samurai cego, interpretando um ex-soldado que perde a visão e se torna um mestre nas artes marciais.

No meio dessa década, Hauer fez alguns filmes que marcaram a vida muita gente, incluindo eu. O primeiro deles é o divertidíssimo O Feitiço de Áquila (Ladyhawke), dirigido em 1985 pelo diretor Richard Donner, no qual Hauer contracena com Matthew Broderick e (em poucas cenas) com Michelle Pfeiffer. O filme contava uma história de amor impossível que capturou o imaginário das plateias dos anos 80.

No mesmo ano de Ladyhawke, Hauer participou ao lado de Jennifer Jason Leigh de um filme de seu conterrâneo Paul Verhoeven, Conquista Sangrenta (Flesh & Blood), uma história medieval violenta e pesada que se passa na Itália em 1501 e que mora no meu coração até hoje, por se tratar de um autêntico clássico.

Um ano depois, em 1986, Hauer viveu o seu melhor vilão nas telas de cinema (já que eu não considero Roy Batty um vilão) como John Ryder em A Morte Pede Carona (The Hitcher), um personagem essencialmente malvado até os ossos, e que servia como uma luva para justificar não dar uma carona para estranhos, como o Dori lembra neste post. O ator está simplesmente assustador o carona que simplesmente aterroriza o coitado do personagem de C. Thomas Howell, em um filme que mudou pra sempre a experiência de comer batata-frita.

Além desses filmes mais famosos, seu trabalho em filmes como A Lenda do Santo Beberrão (La leggenda del santo bevitore) de 1988 nos mostram que ele era um ator muito versátil, cujos talentos poderiam ter sido melhor aproveitados nos anos (e nas décadas) seguintes.

A sua carreira continuou nos anos 90 sem nada muito memorável, e a partir dos anos 2000, ele passou a se dedicar mais a séries de TV, mas de vez em quando ainda emplacava um papel digno de seu calibre como ator. Em 2005 ele fez uma ponta em Sin City: A Cidade do Pecado, como o Cardeal Roark. Em 2011, fez Hobo with a Shotgun, um dos seus últimos filmes como protagonista. Um ano depois ele foi o Van Helsing no Drácula do mestre Dario Argento.

Em 2015, Rutger Hauer esteve na série The Last Kingdom em mais um ótimo papel como Ravn, o pai de Earl Ragnar. O que importa é que até o fim da sua vida, Hauer nunca deixou de trabalhar, e sempre se manteve ativo, deixando inclusive alguns trabalhos prontos que ainda serão lançados.

Não tem como terminar um tributo a Rutger Hauer sem lembrar novamente do seu papel mais marcante no cinema, o do replicante Roy Batty, que curiosamente, teria sua vida expirada neste ano. O discurso de Batty na chuva antes de morrer para Rick Deckard, personagem de Harrison Ford que ele acabou de salvar, é algo que transcende a tela, e que faz parte da história do cinema.

Nesse discurso, Roy Batty percebe o quanto sua vida foi tão única quanto breve, e é impossível não pensar na nossa própria mortalidade. É como uma versão moderna do poema Ozymandias, de Percy Shelley (sobre o qual aliás o Max do Entreplanos falou muito bem nesse vídeo ontem), e que trata da transitoriedade das coisas. O mais interessante é que parte do discurso foi adaptada pelo próprio Rutger Hauer, e foi só na hora da filmagem que o Ridley Scott descobriu.

Dez anos atrás, Rutger Hauer escreveu sua biografia, que aliás cita o seu maior momento nas telas no próprio nome, All Those Moments: Stories of Heroes, Villains, Replicants, and Blade Runners, e nela ele contou como mexeu no texto, mas em seu relato ele foi bem modesto, meio que reduzindo seus méritos, dizendo que tinha apenas cortado algumas coisas, e adicionado a frase “todos estes momentos serão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva,” que é justamente a mais impressionante de todo o belo discurso.

I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the dark near the Tannhäuser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Time to die.

Eu vi coisas que vocês não imaginariam. Naves de ataque em chamas ao largo de Órion. Eu vi raios-c brilharem na escuridão próximos ao Portal de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer.

Vou colocar a cena aqui, mas pra quem por acaso ainda não tiver assistido ao filme até hoje, não recomendo que veja, pois esse filme merece ser visto na íntegra.

Além do seu filme mais famoso, Hauer também será lembrado pelos trabalhos que fez em parceria com seu conterrâneo holandês Paul Verhoeven, especialmente o que já citei, Conquista Sangrenta, mas também Turkish Delight e Soldier of Orange, entre outros.

Pra quem cresceu nos anos 80, Rutger Hauer sempre foi um exemplo de heróis incríveis e vilões assustadores, um excelente ator que merece nossa lembrança e nosso tributo, assistindo novamente seus filmes ou os apresentando para as novas gerações que não conheceram seu grande talento.

Eu vi coisas que vocês não iriam acreditar, filmes incríveis com um ator que parecia maior do que a vida. Fica aqui o meu adeus ao Rutger Hauer, além da minha eterna gratidão pela sua belíssima carreira no cinema. Espero que Rutger descanse em paz, pois ele mereceu.

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