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Quando John F. Kennedy tentou cancelar o Projeto Apollo

25/07/2019 às 19:29

Você com certeza já se empolgou com o segundo melhor discurso presidencial da História, só perdendo para o de Independence Day. John Kennedy, o clássico "We choose to go to the Moon". O discurso empolgou e unificou uma nação, e tornou imperativo que os Estados Unidos chegassem na Lua, certo?

Kennedy proferiu o clássico discurso duas vezes, a primeira em 25 de Maio de 1961, no Congresso dos EUA, e a segunda em 12 de Setembro de 1962, na Universidade Rice, em uma época onde 58% da população era contra o Programa Espacial.

O discurso foi extremamente ousado, proferido em um momento em que os Estados Unidos tinham um total de 15 minutos de experiência com vôos espaciais tripulados, e foi seguido de algo raro em termos de política: Ações práticas.

Em 1958 o orçamento da NASA era de US$788 milhões em valores de 2019. Em 1962 ele subiu para US$10.6 bilhões, chegando em 1968 a US$34,7 bilhões.

Em 1958 o orçamento da NASA era 0.1% do orçamento federal dos EUA. No auge do Programa Apollo chegou a 4.41%. Hoje a NASA recebe 0.48% de cada dólar arrecadado pelo governo. Isso mesmo, menos de meio centavo.

 

Em 1969 (spoilers) Neil Armstrong deu seu pequeno passo no Mar da Tranquilidade, e Kennedy entrou para a história como o mentor do Programa Apollo, apesar da assinatura na placa na superfície da Lua ser de Richard Nixon, mas será mesmo que Kennedy era o grande campeão do programa espacial?

A Realidade Sobre Kennedy

Antes do discurso Kennedy não era exatamente um fã de foguetes ou astronautas. Ele tinha preocupações maiores, e nem falo de papar a Marilyn Monroe. Os Estados Unidos estavam no meio do Movimento dos Direitos Civis, com tensão racial no máximo, a Ameaça Comunista era um perigo constante. Ele era e sempre foi um político, pragmático e objetivo.

No final dos Anos 50 John e seu irmão Robert Kennedy se encontraram para almoçar com Charles Draper, um dos grandes cientistas de seu tempo, fundador do Laboratório de Instrumentação do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o grupo que construiu o computador da Apollo.

Draper foi ridicularizado pelos dois irmãos, que consideraram seus sonhos de viagens espaciais algo ingênuo, ele foi tratado de forma condescendente e paternalista e os políticos "não ficaram convencidos de que foguetes não eram um total desperdício de dinheiro".

O Espaço só entrou na agenda do Kennedy em 1961, quando Yuri Gagarin fez seu histórico vôo espacial, e os Estados Unidos foram humilhados internacionalmente. Kennedy por sorte tinha a quem recorrer: Seu vice, Lyndon B. Johnson, esse sim um nerd de foguetes. Rapidamente restabeleceram o Conselho Espacial da Presidência, e Kennedy mandou uma questão formal:

"Nós temos alguma forma chance de vencer os soviéticos colocando um laboratório no espaço, ou fazendo uma viagem ao redor da Lua, mandando um foguete para pousar na Lua ou um foguete para ir até a Lua com um homem e voltar? Há algum programa espacial que prometa resultados dramáticos e que nós consigamos vencer?"

Em uma reunião com James Webb, administrador da NASA Kennedy repetiu que só estavam "gastando todo aquele dinheiro" por causa dos russos e disse com todas as letras:

"Eu não sou muito interessado em Espaço"

Kennedy inclusive vetou verbas adicionais, mesmo concordando com todos os pontos da carta de James Webb explicando a necessidade dos investimentos.

Internamente Kennedy falava para seus confidentes que temia que o Projeto Apollo fosse sua ruína, e que ele entraria para a História como o Presidente que gastou bilhões para nada.

Esse medo chegou ao auge em 1963, quando John Kennedy discursou perante a Assembléia Geral da ONU, em 20 de Setembro.

Em seu discurso ele propõe, com todas as letras, que Estados Unidos e União Soviética parem com os gastos excessivos e pesquisas duplicadas, e se unam em um projeto conjunto para ambos chegarem na Lua.

O conceito é louvável, e teria avançado em mais de uma década a missão Apollo-Soyuz de 1975, mas dois anos antes Kennedy decidiu ir para a Lua para vencer os comunistas, ele estava se lixando para a Ciência, o objetivo era mostrar para o mundo a superioridade da ciência e tecnologia espacial americana.

Quando os boletos começaram a chegar, ele, como bom político viu que a conta era maior do que imaginava, e como tinha ótimas chances de se reeleger, teria que arcar com os custos por muito tempo.

Ninguém pode ter certeza do que aconteceria, talvez Kennedy cancelasse o Projeto, talvez reduzisse a verba da NASA, que em 1963 já estava em US$21 bilhões (corrigidos). O programa Gemini foi fundamental para criar as tecnologias usadas no Apollo, mas será que o povo americano e seus políticos continuariam apoiando os investimentos insanos que só fariam o primeiro vôo tripulado de uma missão Apollo em 1968?

Ou será que o apoio quase fanático foi culpa deste sujeito?

Poucos meses depois de ter proposto uma missão conjunta, e em meio a várias brigas internas com a NASA, Kennedy foi assassinado, uma nação inteira entrou em choque e seu sucessor foi o Vice-Presidente que era realmente entusiasta do programa espacial. Ele imediatamente baixou uma Ordem Executiva rebatizando o Cabo Canaveral de Cabo Kennedy (em 1973 a mudança foi revertida).

Cumprir o desejo de Kennedy era agora questão de honra, e assim foi feito, e John Fitzgerald Kennedy será para sempre lembrado como o Presidente que levou os EUA até a Lua, mesmo não dando a mínima para espaço, tendo interesses mesquinhamente políticos e tendo se arrependido um ano depois da histórica decisão.

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