Home » Ciência » Andrei perdeu outro submarino

Andrei perdeu outro submarino

02/07/2019 às 17:28

Hoje não é um bom dia para o camarada Putin. Um incêndio no submarino nuclear de "pesquisa"  Losharik matou 14 tripulantes, e dependendo da extensão dos danos, pode privar Moscou de uma ferramenta estratégica, ainda mais em tempos onde os russos estão de olho no Ártico.

Primeiro de tudo, "submarino de pesquisa" é só uma daquelas bobagens oficiais que não enganam ninguém. O Losharik é um submarino espião, do qual se sabe muito, muito pouco.

O Pouco Que Sabemos

A gente imagina que submarinos mergulhem muito fundo, mas com a pressão aumentando uma atmosfera a cada 10 metros, logo se torna inviável construir algo que resista. Um U-Boat da Segunda Guerra tinha profundidade de teste entre 90 e 100 metros. Um submarino moderno classe Los Angeles mergulha até 240 metros. Mesmo um Alfa russo, com seu casco de titânio não passa de 350 metros.

Isso mesmo. Os mais avançados submarinos não chegam a uma profundidade equivalente a altura do Empire State (380m). Em comparação aviões de carreira voam normalmente na altura da Fossa das Marianas (11Km).

O Losharik teria profundidade de operação de 3Km.

Com 70m de comprimento de deslocamento de 2000 toneladas, ele é um submarino bem pequeno, do tamanho do Riachuelo, que o Brasil está terminando de construir, mas utiliza propulsão nuclear.

Diagrama do reator nuclear do Losharik

A estrutura interna do Losharik é bem diferente da de um submarino comum, ele é composto de sete esferas de Titânio (os russos adoram Titânio), capazes de resistir a uma pressão monstruosa de 300 atmosferas.

Qual a utilidade disso?

Em 1970 os EUA realizaram a Operação Ivy Bells, uma das mais ousadas ações de Inteligência de todos os tempos. Em essência o USS Halibut navegou at[e poucas dezenas de metros da costa soviética para instalar um dispositivo de escuta em um cabo telefônico submarino.

O Losharik pode colocar escutas em qualquer cabo submarino do mundo, com a certeza de que ninguém vai patrulhar e descobrir o equipamento. Ele também pode instalar minas inteligentes em águas profundas, que são ativadas remotamente em caso de necessidade. Como é extremamente silencioso, ele pode se esgueirar em meio a uma frota inimiga e acompanhar exercícios militares, ou pode vasculhar profundezas abissais em busca de restos de foguetes, drones ou aviões, como o F-35 japonês que caiu no mar uns meses atrás.

Embora tenha autonomia ilimitada por ser nuclear, o Losharik é pequeno demais para levar os suprimentos necessários para alimentar a tripulação, então ele viaja atrelado a um submarino-mãe, um DELTA-III adaptado.

O acidente ocorreu quando um curto-circuito iniciou um incêndio, os tripulantes aparentemente conseguiram controlar mas pagaram um preço bem alto. Dos 25, 14 morreram intoxicados ou queimados. O submarino foi rebocado para a base naval em Severomorsk, no Mar de Barents.

Dos 14 mortos, sete tinham a patente de Capitão, e pelo menos dois tinham sido condecorados como Heróis da Rússia, a mais alta condecoração do país. É uma prática comum condecorar membros de missões de Inteligência, mas eles geralmente não podem falar sobre as missões, e em alguns casos nos EUA a própria condecoração é secreta, não consta do registro oficial do tripulante.

Esse foi o pior acidente com um submarino russo desde o Kursk, em Agosto de 2000, e estrategicamente é muito mais importante, pela perda de um recurso estratégico importante, ainda mais em tempos de tensão com o Irã.

Os russos não tem exatamente uma frota desses submarinos, o Losharik mesmo teve sua quilha batida em 1988, mas só foi lançado ao mar em 2003, por falta de verba, uma obra de igreja de fazer inveja ao submarino nuclear brasileiro.

Agora é esperar que ninguém mais morra, e que comecem o rigoroso inquérito para determinar as causas do acidente, e então consertar os danos, se não tiver dado PT.

Leia mais sobre: , , .

relacionados


Comentários