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A irritante hipótese de que vivemos em um Universo Simulado

28 semanas atrás

Por muito tempo a filosofia era a única forma que tínhamos de tentar entender o mundo. O conceito de ciência experimental não existia, muito menos no nível necessário para responder à maioria das perguntas. Claro, isso levou a exageros como Aristóteles afirmar que mulheres tinham menos dentes do que homens, coisa que qualquer um que soubesse contar poderia contestar mas quem contestaria o Grande Aristóteles Pai da Filosofia?

Com a Ciência ganhando mais e mais espaço, não era mais preciso filosofar sobre a Natureza das Coisas, observações levavam a experimentos que levavam a hipóteses que levavam a Leis que levavam a Teorias, mas como um membro vestigial, a Filosofia continuou existindo, igual à astrologia.

Hoje pega mal sugerir filosoficamente idéias como as de Aristóteles, de que "mulheres são homens incompletos, deformados" (ele adoraria passar férias na Tailândia) então os filósofos preferem temas menos cabeludos, como afirmar que próteses para deficientes são uma forma de eugenia pois eliminam a deficiência, mas são bobagens localizadas, existem discussões filosóficas mais inofensivas mas muito mais irritantes. A maior delas é a de que vivemos em uma simulação.

A idéia original é bem antiga, remonta a Zhuangzi, filósofo chinês do Século 3 AC, que disse ter sonhado que era uma borboleta, e depois que acordou não sabia se era um homem que sonhou ser uma borboleta ou uma borboleta sonhando que era um homem.

Outros filósofos desenvolveram questionamentos sobre a realidade do mundo, se o que estamos vendo e vivendo é real, ou apenas uma ilusão criada por meios externos. Há um pouco de bom-senso nisso, vários filósofos já se perguntaram se o que chamamos de azul é o que outros chamam de azul, ou se cada pessoa percebe a cor azul de forma diferente.

A Ciência como sempre respondeu, através de um simples experimento: Coloque algo azul e peça para diversas pessoas identificarem a cor. Exceto daltônicos, todo mundo vai dizer "azul".

Curiosidade: A velha anedota que homens e mulheres percebem cores de forma diferente é verdadeira. Há mulheres com genes mutantes que percebem vários bilhões de cores a mais, mas mesmo mulheres comuns são bem mais generosas em termos de percepção de cores, como uma pesquisa do xkcd demonstrou, ao pedir que os leitores identificassem pelo nome um espectro de cores:

Em 1641 Descartes apresentou o seu Demônio, uma ferramenta filosófica, uma alegoria para a situação em que ele duvidava de todas as suas crenças, o demônio teria criado um mundo onde a hipótese testada seria falsa, e o pensador teria que trabalhar dentro daqueles parâmetros artificiais.

O conceito do Demônio de Descartes foi modernizado com a idéia do Cérebro no Jarro.

A idéia é que a realidade como um todo é falsa, você pode ser apenas um cérebro em um jarro, com um supercomputador alimentando seus núcleos sensoriais com informação falsa, indistinguível da informação "real" se você tivesse um corpo.

Essa hipótese foi formulada em 1968 por James Cornman e Keith Lehrer e aprimorada em 1973 por Gilbert Harman, que afirmou não haver nenhum motivo para não sermos cérebros suspensos em jarros, ou então corpos em mesas com eletrodos nos alimentando com informações sensoriais falsas.

A idéia do cérebro no jarro não é tão abrangente quanto o conceito de Descartes, pois parte do princípio que o cérebro é real. Descartes entende que todo seu corpo pode ser criação da tal entidade maligna, e que a única parte real é sua persona, seus pensamentos, daí o famoso "penso, logo existo".

Esse é um dos pontos cruciais da inteligência artificial, e onde a filosofia ainda se mostra útil: Determinar se um computador é realmente inteligente ou se está fingindo inteligência. Talvez nem seja possível chegar no ponto em que essa pergunta precise ser feita, mas o próprio Teste de Turing já se mostrou insuficiente. A SIRI engana boa parte da humanidade. Até a voz do terminal automático no estacionamento do shopping engana minha mãe.

Solipsismo

A hipótese do Cérebro no Jarro parece absurda? Tem uma pior, vale até o pequeno desvio pra falar dessa bobagem. É uma bobagem filosófica chamada solipsismo, que parte do princípio de que NADA existe além da própria mente.

Não "as" mentes, não qualquer mente, mas a mente do idiota arrogante que defende o solipsismo. O conceito é simples: EU existo, tenho certeza disso. TODO O RESTO, o jornaleiro, o cachorro na rua, as civilizações alienígenas em Andrômeda, a Luciana Vendramini, o Exército de Brancaleone, todos os arenques canhotos do ártico, TUDO é obra da minha imaginação, tudo existe apenas no MEU cérebro, na MINHA mente.

Óbvio que a cura do solipsismo é uma tapona no comedor de lavagem.

O Universo Simulado

Quando a tecnologia começou a se aprimorar a filosofia, sua rêmora favorita veio atrás, polindo e atualizando as velhas hipóteses. Agora o demônio de Descartes vestiu os trajes da Realidade Virtual.

A idéia da simulação ganhou força em 2003, quando Nick Bostrom levantou a hipótese de que se houver um número suficiente de civilizações avançadas pós-humanas, com capacidade computacional quase infinita, mesmo que um número ínfimo dessa capacidade seja usada para simular nosso mundo, devem existir incontáveis versões dessa simulação.

Tradução:

Muito tempo atrás a Humanidade transcendeu o estágio atual da civilização, nos tornamos uma espécie imensamente evoluída, e alguns nerds gostam de estudar o passado, fazendo simulações em computador, mas elas são tão precisas e fiéis à realidade que simulam Universos inteiros, átomo a átomo, e nós somos parte de uma dessas simulações.

Sim, Nick Bostrom provavelmente cheirou maconha estragada, mas isso não impediu um monte de gente que levar a sério a hipótese.

Por uma simples questão de lógica (você tem aquário em, casa, certo?) a hipótese do Universo Simulado acaba com a hipótese dos Multiversos, pois é impossível por definição simular infinitos universos, mas só alguns, tudo bem.

Não há como saber qual a capacidade de computação necessária para simular um Universo inteiro, não sabemos nem se esse computador hipotético consegue rodar Crysis, mas há métodos para diminuir essas exigências. Se a simulação se resumir à Terra, todo o resto do Universo pode ser só uma Skybox, um modelo estático. Só são gerados dados em casos específicos, como radiotelescópios examinando buracos negros.

Tão trivial que pra chegar nesses dados reais simulamos várias vezes a mesma quantidade de informação

Essa parte inclusive é tão simples que mesmo com a tecnologia atual conseguiríamos simular os dados coletados por observatórios astronômicos espalhados pelo mundo. O que não é possível é simular coisas mais complexas, como uma folha caindo ou uma mitocôndria.

Agora imagine simular átomo a átomo um planeta inteiro.

Hoje conseguimos simular todos os átomos de um único gene, mas para isso precisamos de um dos maiores supercomputadores existentes, e para simular um nanosegundo de atividade da molécula, precisamos processar os dados por 24h.

Essa aliás é outra parte da hipótese do Universo Simulado: Podemos não estar vivendo em tempo real. Se nosso programador -vamos chamá-lo de Chuck- criou uma simulação do Universo que leva 1000 anos para simular um segundo, e Chuck é imortal, não faz diferença nem pra ele nem pra nós.

O Risco da Simulação

Existem filósofos que alertam para o perigo de ficar discutindo a hipótese do Universo Simulado. Talvez Chuck não goste que tomemos conhecimento de nossa condição, e quando gente demais começa a desconfiar, eles são eliminados do programa ou a simulação é resetada como um todo. Pode ser um reboot total ou Chuck aciona o comando de desastres naturais e seleciona METEORO como fez com os dinossauros.

Também há a hipótese de que santos, milagres e relatos de feitos sobre-humanos sejam pessoas que descobriram que estamos dentro de uma simulação, e se isso te lembra as continuações de Matrix, só reforça o triste estado da filosofia moderna.

Outro risco da hipótese do Universo Simulado se tornar popular é que as pessoas mergulharão em um profundo niilismo, afinal se nada é real pra quê se preocupar com Aquecimento Global, pobreza, crime, água no chopp? Chuck que se vire se quiser que seus NPCs sejam felizes. Qual o sentido de se esforçar se nada é real e as dificuldades da vida foram colocadas artificialmente por um programador sádico? Livre-arbítrio não existe se você só funciona dentro de parâmetros artificiais pré-estabelecidos.

Mas é de verdade essa simulação?

Em 2012 um paper escrito por Silas R. Beane da Universidade de Bonn e Zohreh Davoudi e Martin J. Savage, da Universidade de Washington propôs uma técnica para determinar se vivemos uma simulação.

Eles partem do princípio que é extremamente complicado simular modelos de cromodinâmica quântica, as interações que criam as forças fundamentais do Universo, e isso é feito em matrizes, hoje conseguimos uma granularidade de 10-15m. Computadores do futuro distante conseguirão uma granularidade bem maior, mas de qualquer jeito, transformar forças lineares em uma simulação matricial gera artefatos matemáticos.

grosso modo, e uma analogia bem imperfeita, imagine que você espera uma linha suave, mas quando chega perto vê que é uma linha que foi suavizada com técnicas de antialiasing:

Outro grupo escreveu um paper com experimentos práticos para tentar determinar a realidade da simulação. Tom Campbell, Houman Owhadi, Joe Sauvageau e David Watkinson propuseram em On Testing the Simulation Theory que o Universo Simulado, como todo engine só renderiza algo quando o jogador estiver visualizando o objeto ou cenário.

Tipo: Nenhum jogo vai gastar GPU renderizando objetos que só aparecerão na próxima fase, ou que estão do outro lado do mapa. A hipótese é que qualquer coisa que exija computação só será computada quando for observada, e aí as regras da física quântica jogam a nosso favor.

O paper virou um projeto no Kickstarter, pedindo US$150 mil e arrecadando US$263.590,00 para executar os experimentos e produzir um documentário com os resultados. Após os atrasos habituais, eles vão começar os experimentos no Inverno de 2019, se tudo der certo.

Conclusão

Longe de mim criticar gente que apóia com dinheiro projetos questionáveis, afinal de contas eu tenho um Padrim, mas a hipótese do Universo Simulado parece mais sonho molhado de nerd fã de Matrix que não tem disposição pra aprender Kung Fu da forma mais difícil. É uma forma de jogar a culpa de todos os problemas no programador, as pessoas preferem virar NPCs do que tomar as rédeas da própria vida.

A hipótese do Universo Simulado é tão irrelevante quanto o superpoder de saber os números da Mega-Sena depois do sorteio. Nas imortais palavras do filósofo Cypher, ignorância é uma bênção, aproveite seu steak, que diferença faz saber se ele é simulado, se o gosto e a textura são idênticos ao de um bife de verdade?

Sermos uma simulação cai na Navalha de Occam, "entidades não devem ser multiplicadas desnecessariamente" e o Universo Simulado faz exatamente isso, pois gera o problema da origem dos autores da simulação. E sim, há onanistas filósofos que sugerem que como somos muito primitivos, podemos ser uma simulação criada por outra simulação.

Faz sentido? Pois é, por essa bobajada toda que fico irritado com a perda de tempo e dinheiro nessas discussões. Ou talvez seja apenas despeito pelas vezes em que fechei os olhos, me concentrei imaginando que digitava IDDQD e nada aconteceu.

 

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