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Tesla alerta para escassez de metais para futuros carros elétricos

07/05/2019 às 21:02

Olhe pra latinha de cerveja na sua mão neste momento. Olhou? Agora repense sua vida, são 10 da manhã.

Essa latinha, que não recebe um mínimo de atenção e só tem valor pra mendigos e ecochatos já foi, literalmente, o metal mais valioso da Terra. Alumínio é abundante, mas é quimicamente reativo e embora conhecido desde a antiguidade na forma de compostos, só foi isolado em 1824. Mesmo assim era o grafeno da época, só funcionava em laboratório.

Por causa disso não havia uso industrial para o alumínio, ele era essencialmente uma curiosidade, usado em raros casos e em produtos de luxo. Custando mais caro do que ouro, era comum entre os ricos europeus ostentar prataria de alumínio (você entendeu). Dizem que Napoleão recebia convidados com talheres de alumínio e todo mundo achava o máximo.

Vide estes brincos de alumínio feitos entre 1860/1870. Nada dessa porcaria de prata, é ouro e alumínio. Principalmente alumínio, gentalha!

Como você já deve ter deduzido pela latinha de cerveja na sua mão (sério, 10 da manhã, procure ajuda) essa farra não durou pra sempre. Em 1852 produzir 1 quilo de alumínio custava US$ 1.200, em 1859 o preço já havia caído pra US$ 40.

Aí ocorreu um efeito muito interessante: apesar da queda vertiginosa no preço do alumínio, a quantidade de aplicações industriais para o metal mais que compensou a queda, e toda uma indústria de mineração e purificação do metal surgiu, a ponto de nem durante a segunda guerra mundial o preço ser afetado.

Note que houve um pico assustador entre 1914 e 1918, talvez algum acontecimento de menor importância na Europa nessa época tenha influenciado a demanda em um tempo em que a oferta era limitada, mas eu não sou historiador...

Hoje as exigências são outras. Com o mercado de metais estabilizado, a nova geração de carros elétricos não afetará o mercado de ferro ou alumínio, é trocar seis por meia-dúzia se o alumínio, que seria usado num carro convencional, for parar em um Tesla. O problema é outro.

Há metais que terão aumento de demanda, como cobre, que é usado em maior quantidade em carros elétricos, mas o problema é o lítio.

Não, pombas, LÍTIO.

Voltando: lítio é um metal alcalino de número atômico 3, é um elemento com diversas funções úteis, de processos químicos a baterias, e ainda é excelente pra acalmar aquele seu primo esquisito que vive tentando morder o cotovelo. Aliás, esse é um problema pra quem usa Lítio como medicamento: Ele está acabando.

Todo o Lítio no Universo foi formado no Big Bang, e muito pouco é formado em explosões estelares, que na verdade tendem a destruir os átomos existentes. Um dia no futuro quem depende de Lítio como estabilizador de humor vai precisar de uma alternativa. Sugiro homeopatia, vai que em alguns bilhões de anos, quando o Lítio acabar, esse negócio finalmente funciona. (spoiler: nah)

Na Terra ele é o 25º elemento mais comum, com uma concentração média de 20mg/Kg de solo. A maior mina fica no Chile, com uma produção total de 14000 toneladas por ano. (O Brasil produz 200) Parece pouco e é, a demanda não é tão grande assim.

O método consiste em injetar água sob pressão em depósitos subterrâneos de sais de Lítio, bombear a água salobra pra piscinas de evaporação e depois reunir os sais, igual a uma salina tradicional.

O aumento da demanda tem feito as empresas chilenas ampliarem suas minas, bem como as australianas e as chinesas, o mesmo está acontecendo com o Cobre, mas se quem tem Cobre não tem medo, com Lítio é diferente, veja o preço corrigido pela inflação do Lítio nas últimas décadas:

"Ah mas esse vai até 2010 e mostra uma subida nos preços"

Sim, aí as minas começaram a produzir mais Lítio, aumentando a demanda, que era crescente mas não explosiva. Resultado:

A preocupação da Tesla, e por extensão de todo mundo que depende de Lítio, Cobalto e outros metais mais raros é que o excesso de demanda torne o negócio inviável, com o custo de produção ficando mais caro que o preço de venda. As margens do Lítio são muito apertadas, agora o investimento para aumentar a produção jogou o custo no chão, e os novos players entrando no mercado não vão ajudar.

Corre o risco de muita gente falir por não conseguir segurar a mina aberta até o esperado aumento no preço, que pode nem acontecer, dado o aumento de demanda. Lítio pode virar um produto escasso mesmo sendo relativamente abundante, pois o simples ato de colocar mais Lítio no mercado torna sua venda comercialmente inviável.

O Lítio está se aproximando de US$11,00 por Kg. Em 1998 esse valor era de US$95,00. Vale a pena produzir Lítio? Ainda vale, em salinas. Existem zero minas convencionais abertas hoje. Se a tendência continuar, os fabricantes de bateria, como a Panasonic terão que comprar as minas falidas e controlar também essa parte da cadeia de produção, do contrário, é melhor manter seu bom e velho fusca funcionando.

 

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