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Um tributo a Kazuo Koike, que vai deixar muitas saudades

O mundo dos quadrinhos perdeu o grande Kazuo Koike, autor da obra-prima do mangá Lobo Solitário, e que também era um mestre em ensinar a sua arte

20/04/2019 às 13:33

Nos deixou nesta semana aos 82 anos de idade o grande escritor Kazuo Koike, que revolucionou o mundo dos quadrinhos com o lançamento de Lobo Solitário (Kozure Okami no original, ou Lone Wolf and Cub em inglês), a obra-prima que ele que criou com o artista Goseki Kojima (falecido em 2000), e que conta a história de Itto Ogami e seu filho Daigoro.

Perdemos Kazuo Koike, o grande autor de Lobo Solitário

Antes de sua falar dessa obra-prima, vale destacar que mais que um simples autor de mangás, Kazuo Koike também era um mestre da arte de ensinar, e fazia questão de passar adiante todo o seu conhecimento na formação de novos autores e artistas. Ele foi responsável por formar muitos novos mangakás em seu curso educacional Gekiga Sonjuku, entre eles Rumiko Takahashi, Tetsuo Hara, Yuji Horii, Keisuke Itagaki e Hiroshi Shiibashi, entre muitos outros.

Lobo Solitário é um verdadeiro épico que conta a história do executor do Shogun que cai em desgraça, e coloca em ação um plano elaborado de vingança contra a família Yagyuu, enquanto sobrevive com seu filho recém nascido viajando de cidade em cidade e trabalhando como um Ronin executor, mas só se reconhece o mérito do contrato.

O começo do mangá é inesquecível, no qual o pequeno Daigoro precisa escolher entre uma bola ou a espada, para saber se acompanhará seu pai no caminho que o destino lhe reservou, ou irá acompanhar a sua mãe, que foi morta pelos conspiradores. A cena no filme (imagem acima) também é bem impactante.

Eu só fui ler essa maravilha décadas depois de seu lançamento, mas quando li, Lobo Solitário simplesmente mudou minha vida. Acredito que ese seja o caso de qualquer pessoa que tenha lido, pois trata-se de uma obra-prima, que une de forma inspirada o texto épico de Koike com as ilustrações incríveis de Kojima. Se você não leu Lobo Solitário, recomendo muito que o faça, pois é uma daquelas raras obras que ajudam a moldar nosso caráter.

O mangá deu origem a vários filmes produzidos entre 1972 e 1974, os clássicos Lobo Solitário - A Espada da Vingança (1972), O Andarilho do Rio Sanzu (1972), Contra os Ventos da Morte (1972),  O Samurai Assassino (1972), Na Terra dos Demônios (1973) e Paraíso Branco no Inferno (1974).

Pôster de Shogun Assassin, que juntou os dois primeiros filmes do Lobo Solitário para o mercado ocidental

Os dois primeiros foram lançados nos Estados Unidos muito tempo depois editados em um só filme, Shogun Assassin, enquanto os 6 filmes originais foram lançados em Blu-ray alguns anos atrás em um box da Criterion que está bem alto entre os itens da minha (sempre crescente) lista de sonhos de consumo.

Os personagens de Kazuo Koike na linda versão da capa do box Blu-ray de Lobo Solitário da Criterion

A história também foi adaptada para a TV algumas vezes, e aqui no Brasil, a série O Samurai Fugitivo passou na TV nos anos 80 e 90. Atualmente existe um projeto pra um remake de Lobo Solitário que pode chegar aos cinemas através dos produtores da versão live-action de Ghost in the Shell, mas ainda não tem nada certo. O filme é um projeto pessoal de Justin Lin, diretor de Star Trek: Sem Fronteiras, assim ainda mantenho as esperanças que o remake saia do papel.

Além da sua obra mais famosa, Koike criou ao lado de Kojima outro verdadeiro épico, Samurai Executor, que também um mangá absolutamente fantástico. Aliás, tudo que li até hoje dele pode ser enquadrado nesta categoria, e eu não estou exagerando.

Crying Freeman foi uma das obras mais famosas de Kazuo Koike

Koike também criou outros mangás muito especiais como os fantásticos Crying Freeman, desenhado por Ryoichi Ikegami (adaptado em 1995 para o filme O Combate: Lágrimas do Guerreiro), e Lady Snowblood, que conta a história de Yuki, uma menina que nasce dentro da cadeia, e cresce para se tornar uma grande assassina.

O mangá deu origem ao filme Lady Snowblood: Vingança na Neve (1973), que inspirou Quentin Tarantino em várias cenas de  Kill Bill, Parte 1, e também na busca por vingança da personagem O-Ren Ishii (e da própria noiva, além das cenas da luta das duas na neve. Como estamos falando de Kill Bill, vale citar que Koike e seu velho parceiro Kojima fizeram juntos Hanzo no Mon (Path of the Assassin), um mangá que conta a história de Hattori Hanzo.

Lady Snowblood de Kazuo Koike influenciou até mesmo Quentin Tarantino em Kill Bill

Além de escritor, Koike também era letrista e é autor de músicas como Shura No Hana (Flower of Carnage), que faz parte da trilha sonora de Kill Bill, e assim como Urami Bushi, também é cantada por Meiko Kaji, que era a atriz principal de Lady Snowblood.

Em Novo Lobo Solitário, Kazuo Koike deu continuidade a história de Daigoro, e a série começa bem no instante em que acaba Lobo Solitário.

Já sem Kojima, Koike também continuou a saga de Daigoro no mangá Novo Lobo Solitário, de 2003, que foi ilustrado por Hideki Mori, e que eu ainda estou lendo, pois está sendo lançado no Brasil agora pela Panini. O interessante é que Koike pediu permissão para a viúva de Kojima, que disse ter certeza que ele adoraria a ideia (descobri essa informação nesse ótimo vídeo sobre o Novo Lobo Solitário).

Alguns dias atrás, o criador de Lupin III, Monkey Punch (Kazuhiko Katō) morreu, o que também foi muito triste. Koike lamentou o fato em seu perfil, dizendo que eles chegaram a ser rivais 40 anos atrás quando escreviam na revista de mangás Weekly Manga Action, mas que iria sentir sua falta. Os dois eram amigos e chegaram a trabalhar juntos, e a perda deles está sendo muito sentida no mundo dos mangás.

Quem quiser conhecer mais sobre Kazuo Koike em suas próprias palavras pode ler o AMA (Ask me Anything) que ele fez no Reddit alguns anos atrás, no qual ele disse várias coisas interessantes. Pra quem não tiver paciência ou tempo, eu vou colocar algumas das respostas aqui.

Samurai Executor era o mangá favorito de Kazuo Koike

Koike que não tinha tempo para ler outros mangás, já que ainda estava produzindo os seus, mas que os mangás criados por seus estudantes eram os seus favoritos. Sobre os seus próprios trabalhos, ele contou que o seu favorito entre era Samurai Executor, e também o que deu a ele mais trabalho.

Em outra resposta, ele diz que gostaria que todos os seus mangás fossem adaptados para filmes. Kazuo Koike também dizia que não se sentia ensinando nada aos seus alunos, e sim, que os estava ajudando a criarem seu próprio trabalho, ao sentar e conversar com eles, em uma clara demonstração de humildade. O autor também apostava no crescimento contínuo dos sucesso dos mangás, mas não em papel, e sim em forma digital.

No post de despedida postado no perfil de Koike no Twitter, o texto agradece a todos que amavam o autor e seus trabalhos, mas são seus fãs que devem agradecê-lo por suas criações. Eu simplesmente não tenho palavras pra dizer o que Lobo Solitário significa na minha vida, então vou terminar dizendo simplesmente, muito obrigado pelos peixes (e pelo arroz)!

Descanse em paz, Koike-Sensei!

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