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Cientistas que nunca viram um filme na vida inserem genes humanos em cérebros de macacos

11/04/2019 às 23:40

Em alguns de seus livros, Arthur Clarke descreve como chimpanzés geneticamente modificados são usados para auxiliar em tarefas mais simples, como carregar terra em expedições arqueológicas. A ideia tem seu mérito, mas abre uma caixa de Pandora de considerações éticas que a China aparentemente escolheu ignorar completamente.

Organismos transgênicos não são novidade, genes de espécies são introduzidos em outras, para produzir coisas como o arroz dourado, que é riquíssimo em vitamina A, cortesia de genes de tomate. Outros cientistas pesquisam transgênicos mais ambiciosos, como genes de cacau em vacas pra produzir leite achocolatado, ou cruzar cobras com porcos-espinho pra criar arame farpado, mas raramente essas pesquisas envolvem primatas.

Como primatas somos (modéstia à parte) muito evoluídos, e por isso complexos. Mesmo algo que parece simples, como cor dos olhos, em humanos envolve mais de 15 genes e genes não são especializados, o HERC2 por exemplo, influencia na pigmentação dos olhos e em instinto maternal, além de ser relacionado com doenças neurológicas. Altere o HERC2 pra produzir um pimpolho de lindos olhos azuis e você corre o risco dele passar o dia tentando morder o cotovelo ou investir em Bitcoin.

Essas considerações não passaram pela cabeça do pessoal do Instituto de Zoologia de Kunming, China.

Eles estavam interessados em um gene específico, o MCPH1, que é associado com desenvolvimento cerebral. Humanos com defeitos no MCPH1 nascem com cabeças pequenas, com o cérebro bem menos desenvolvido, em casos extremos microcefalia mesmo.

Os cientistas estudaram os macacos Rhesus (Macaca mulatta), que tem uma versão do MCPH1 diferente do humano. Para isso primeiro eles modificaram um lentivírus, um tipo de retrovírus, composto apenas de RNA, usando CRISPR (clique aqui que eu explico que diabo é isso) para contaminar ovócitos, que depois foram inseminados em cinco macacas, que produziram oito filhotes.

Exames comprovaram que os oito tinham o gene humano modificado. Comparando com seis macacos normais, foram descobertas várias diferenças. Os macacos com o gene humano não tinham cérebros maiores, mas seu desenvolvimento foi mais... lento.

Não no sentido de criar macacos comentaristas de portais, claro, mas lento no bom sentido, no sentido do cérebro humano, que é extremamente maleável, adaptável, complexo e por isso demora mais pra "ficar pronto".

Os macaquinhos foram examinados continuamente com testes padronizados, e eles apresentaram memória de curto prazo melhor do que a média dos macacos normais, e também eram excelentes em tempo de reação.

A conclusão foi que mesmo com a alteração de um único gene os macacos já ficaram mais inteligentes. Trabalhando com vários outros genes ao mesmo tempo os cientistas poderão produzir super-macacos, o que não é uma boa ideia.

E se a história lembrou muito um roteiro de ficção científica, vamos recapitular: os cientistas usaram um vírus para criar macacos com genes de cérebros humanos, esses genes são introduzidos através de um vírus e os descendentes desses macacos herdaram os genes dos pais, e já nasceram com a mesma inteligência avançada. Você já viu esse filme? Eu também.

Para saber mais: Transgenic rhesus monkeys carrying the human MCPH1 gene copies
show human-like neoteny of brain development.

 

 

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