Home » Ciência » O incrível (mas não inédito) caso do piloto que atirou no próprio avião

O incrível (mas não inédito) caso do piloto que atirou no próprio avião

08/04/2019 às 23:13

Atirar no próprio pé nem é difícil, por um tempo era comum entre soldados, para alegar ferimento e ganharem dispensa, mas é preciso todo um talento especial para fazer como um piloto da Força Aérea Real Holandesa, que conseguiu atirar no próprio avião, com seu canhão.

Primeiro, antes que corrijam, eu sei que o nome correto não é Força Aérea Real Holandesa, tecnicamente seria dos Países Baixos, mas a confusão entre Holanda, Netherlands e KINGDOM of Netherlands é imensa (esse ótimo vídeo quase explica).

O incidente ocorreu semana passada na área de tiro na Base Aérea de Leeuwarden. O avião em questão foi um caça General Dynamics F-16 Fighting Falcon como este aqui:

O F-16 é um caça multi-missão introduzido em 1978. Funciona como caça de superioridade aérea, bombardeiro, apoio a tropas, observação, só falta entregar pizza. É supersônico, barato, confiável e foi testado em combate diversas vezes, nas duas Guerras do Golfo, na Guerra do Kosovo, invasão da Líbia, Sìria, etc. Israel, Paquistão e outros países também usaram e usam F-16s em missões de combate.

Ele leva uma variedade de armamentos, mas o que os pilotos mais fazem questão de ter à disposição é o canhão Vulcan de 20mm M61A1, este bicho aqui, que algum maluco no Vietnã resolveu montar em um helicóptero:

Ele tem 6 canos giratórios, disparando projéteis de 20mm a uma cadência de 6000 tiros por minuto. O F-16 leva 511 cartuchos, ou seja: Se o piloto segurar o dedo em menos de 5 segundos está sem munição, mas dificilmente ele vai fazer isso. É preciso muito pouco tiro de 20mm para estragar a semana de alguém em um caça, um camelo ou uma viatura blindada. Um bicho desses indo em sua direção a 1km/s só traz más notícias:

Foi o que aconteceu com o avião holandês.

Durante o treino o piloto disparou uma rajada de projéteis de 20mm, em seguida mergulhou acelerando usando os pós-queimadores para produzir 28600 libras de potência (eu sei). O azar é que ao contrário do caça, os projéteis não estavam acelerando. Todo projétil começa a perder velocidade no momento em que sai do cano da arma, por causa da gravidade e da resistência do ar.

Muito rapidamente os projéteis desaceleraram a ponto de estarem mais lentos do que o avião que os disparou, e por um imenso azar estatístico, vários projéteis de 10cm de comprimento acabaram no caminho do avião.

Ele literalmente atirou, acelerou, ficou mais rápido do que o projétil e acabou batendo neles. O resultado:

Alguns projéteis atingiram o exterior do avião, outros foram parar dentro do motor, mas o piloto conseguiu fazer um pouso de emergência, e entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

Não foi a primeira vez que os caças holandeses se metem em situações inusitadas. Em 2013, no campo de tiro da Ilha de Vlieland, também na Holanda um F-16 se confundiu e metralhou a torre de controle, que parece ser um alvo bem convidativo, já que em 2001 um Tornado alemão fez a mesma coisa, e em 1998 um F-16 dinamarquês lançou um míssil contra a mesma torre.

O caso recente também tem precedente, mas não na Holanda, e sim nos Estados Unidos.

O dia era 21 de Setembro de 1956, o piloto, Thomas W. Attridge Jr, piloto de testes da Grumman, voava em um F-11 Tiger, um dos primeiros caças supersônicos dos Estados Unidos:

O Tiger voava a 20000 pés quando o piloto embicou em um ângulo de 20 graus. Quando chegou a 13 mil pés e na velocidade do som, ele disparou uma rajada de 4 segundos com seus quatro canhões Colt M12 de 20mm cada um com uma cadência de 1000 tiros por minuto.

Em  seguida ele aplicou os pós-queimadores, acelerando mais ainda, e disparou uma nova rajada para esgotar a munição.

Mais ou menos um minuto depois o vidro do cockpit se estilhaçou, Thomas achou que tivesse atingido um pássaro. Mesmo sem enxergar direito e com muita dor, ele reduziu a velocidade para tentar evitar que a coberta fosse esmagada para dentro do cockpit.

Determinado a chegar até a base, ele baixou o trem de pouso e os flaps, enquanto o motor protestava. Vendo que não iria conseguir, aumentou a potência só para em suas palavras o motor soar como um aspirador que sugou um monte de pedrinhas.

A um quilômetro da pista, Thomas mudou de planos, fez um pouso de emergência em uma região arborizada, abrindo um caminho de 100 metros, deixando para trás seu estabilizador vertical e a asa direita. O avião começou a pegar fogo mas ele conseguiu se soltar e fugir para longe. Momentos depois o helicóptero de resgate chegava.

A investigação do acidente descobriu que ele havia atingido na descida três dos projéteis. Um atravessou e estilhaçou a coberta do avião, outro o atingiu bem no nariz, e um terceiro atingiu a entrada de ar do motor, danificando as pás e indo se alojar no compressor da turbina. Esse projétil foi até recuperado:

O avião deu perda total, e Thomas quase foi junto. Ele quebrou a perna e fraturou três vértebras, mas depois de muita fisioterapia e determinação em seis meses voltou a voar, até que foi promovido na empresa e se tornou gerente de projeto do Módulo Lunar da Apollo 9, construído pela Grumman.

Leia mais sobre: , , .

relacionados


Comentários