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País prioriza Ciência, reestrutura agência espacial, planeja nova base e vai lançar foguetes em 2021*

1 ano atrás

* Eu não disse qual país.

Mesmo que o brasileiro felizmente não tenha aquele ranço de colonizado, e por mais que gostemos de nossos patrícios do outro lado da poça, séculos de piadas (ironicamente importadas de lá mesmo) fazem que seja difícil associar Portugal com alta tecnologia, mas o pequeno país ibérico já foi a Wakanda de seu tempo, e quer voltar a ser.

As caravelas portuguesas dominaram os mares nos Séculos XV e XVI, eram embarcações ágeis, versáteis, capazes de se defender sozinhas e navegar em alto-mar ou em áreas bem rasas. Seu desenho era Segredo de Estado, era crime capital, punido com morte revelar detalhes de sua construção.

Estrangeiros não podiam comprar caravelas, e durante viagens ao exterior se um marinheiro português desse muitas informações ou deixasse um estrangeiro vistoriar a embarcação... dedo no pescoço, que como até o Drax sabe, significa morte.

Portugal já foi uma potência mundial, hoje é uma sombra do império que foi, basicamente uma Inglaterra que gosta de bacalhau, mas os Estados Unidos deles somos nós então um pouco de empatia, galera.

Mesmo assim eles investem o que podem em ciência e tecnologia, e desde 2000 são membros da Agência Espacial Européia, e enquanto o Brasil estava dando calote e sendo expulso da Estação Espacial International e do telescópio ESO, Portugal em 2016 aumentou sua contribuição para a Agência Espacial Européia.

Esse desejo de não ficar para trás resultou na iniciativa Portugal Espaço 2030, onde o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia escreveram o mapa para a criação e auto-suficiência de toda uma indústria espacial.

Hoje Portugal produz muitos cérebros, mas que acabam em outros países, com o programa eles pretendem ter pelo menos 1000 novos empregos especializados na área até 2030, e angariar investimentos corporativos na casa dos  €400  milhões.

Inicialmente foi criada a Agência Espacial Portuguesa, ou Portugal Space. Já estão em fase de escrita dos estatutos e toda a burocracia envolvida, mas já foram tomadas duas decisões importantes: A primeira, que no Brasil daria urticária aos nacionalistas xenófobos, é que o Diretor da agência será um estrangeiro com experiência no setor.

A segunda é que a sede da Agência Espacial Portuguesa será nos Açores, na Ilha de Santa Maria:

Com pouco menos de 100km2 e 15km em sua maior extensão, a Ilha de Santa Maria é lar de 5500 pessoas, e embora não esteja em uma latitude ideal, ficando a 1400km de Portugal tem espaço suficiente para lançar foguetes sem que eles caiam na Espanha. E antes que alguém sugira, não faz sentido lançarem do Brasil se a sede vai ficar por lá mesmo, e mandar os burocratas e cientistas pra cá seria crueldade, eles ainda lembram que isso aqui era terra de degredo em pior grau.

A Nova Base

O projeto prevê um aporte de verba de diversas fontes, inclusive €320 milhões da Agência Espacial Européia, no período entre 2021 e 2027. Inicialmente Portugal vai colocar entre 500 mil e um milhão de Euros para o pontapé inicial.

A idéia é construir na Ilha, além da sede da agência uma base de lançamento de micro-satélites, com toda a infraestrutura necessária, incluindo radares, sistemas de comunicação, prédios para montagem de foguetes, tanques de armazenamento de combustível, alojamentos, escritórios, salas de controle, plataformas de lançamento e um botequim, afinal de contas nenhum português que se preza trabalharia em um lugar onde não tivesse aonde no final do expediente tomar uma cerveja comendo uma sardinha frita.

Base de Lançamento da Rocket Lab, na Nova Zelândia. Não exatamente Cabo Canaveral, e nem precisa.

A beleza dos micro-satélites é que a cada dia eles se tornam mais capazes e poderosos, a eletrônica evolui sem cessar, hoje com um equipamento muito pequeno podemos fazer muita coisa. Pense na quantidade de sensores e câmeras em um celular comum, imagine isso no espaço.

A tecnologia de foguetes também evoluiu de forma impressionante. O Electron, da Rocket Lab tem 17 metros de comprimento, pesa 12,5 toneladas e consegue colocar cargas de 225Kg em órbita. O VLS, aquela porcaria que o Brasil nunca conseguiu construir sem explodir pesava 50 toneladas, media 19,7 metros e sua carga máxima em órbita era de 380Kg.

Faz todo o sentido biológico Portugal investir na construção de uma base para lançamento de micro-satélites, o mercado está bombando, há literalmente dezenas de empresas construindo foguetes que podem se beneficiar de uma base próxima da Europa, longe de regiões habitadas e com clima bom.

Portugal vai ganhar muito dinheiro alugando os serviços da base, seus cientistas e engenheiros irão ganhar conhecimento inestimável e a Agência Espacial Européia pode no futuro pensar seriamente em trazer para Santa Maria o lançamento de foguetes menores, como o Vega.

Claro, isso seria uma idéia excelente para o Brasil, mas quer saber? NÃO VAI ACONTECER. Nossa mentalidade vira-lata nos torna pobres mas orgulhosos, nossa "soberania" jamais aceitaria um estrangeiro comandando uma agência espacial, sendo realista não aceitamos estrangeiros nem como técnicos de futebol.

Se Neil Armstrong e Werner Von Braun se oferecessem pra trabalhar de graça a gente botaria pra correr com cartazes YANKEE GO HOME. Alugar plataformas de lançamento para gringos? Nem pensar também, só com a assinatura do Acordo de Salvaguardas Tecnológicas com os EUA já há histéricos acusando o Governo de se vender aos Americanos, acabar com nosso programa espacial e -sério, eu vi- dar aos EUA uma base de onde irão atacar a Venezuela.

Eu já expliquei em detalhes neste texto aqui que ninguém grande vai investir em Alcântara, não há incentivo ou justificativa pra uma SpaceX vir pra cá. A solução seria achar investidores para construir uma estrutura de micro-satélites ou lançadores médios, Israel é um excelente candidato, já que eles precisam lançar em órbita retrógrada, o que consome muito combustível, vindo pra cá seus foguetes como por mágica ficaria 60% mais eficientes.

Vai acontecer? De novo, duvido. A única certeza é que todas as nossas piadas do foguete português agora tem prazo de validade, depois de 2021 elas perderão a graça e a piada seremos -ok, continuará sendo- nós mesmos.

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