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Penicilina, à moda russa

Os russos querem resolver problemas com Penicilina, ao menos esse é o nome de um sistema usado para identificar infecções, e por infecções eu quero dizer barragens de artilharia inimiga.

03/12/2018 às 19:02

Fogo de artilharia é algo  muito desagradável, eu diria que é um incômodo e tanto. Você está feliz e tranquilo em sua trincheira, quando projéteis de 155mm começam a cair à sua volta. O pior é que tal qual dolorosos comentários anônimos na Internet, esses projéteis não tem a decência de trazer remetente, você é castigado pela barragem de fogo e ninguém tem a decência de dizer de onde está atirando.

Para isso foram criadas as técnicas de contra-artilharia.

Um silenciador para artilharia. Sério.

Nos velhos tempos era tranquilo, os velhos canhões tinham um alcance pífio, se você tivesse artilharia era só mirar de volta e acertar o inimigo, SE você conseguisse alguma precisão, o que simplesmente não existia na época.

Não que canhões fossem brinquedos, alguns eram impressionantes, como A Grande Bombarda Turca.

Eu sei, parece.

Construída em 1464 pelo engenheiro militar turco Munir Ali esse monstro pesa 16.8 toneladas, tem 5.18 metros de comprimento e dispara bolas de pedra de 68cm de diâmetro e uma tonelada de peso. Ah, uma rosca permite que você separe a bombarda em duas partes, tornando-a totalmente portátil.

Por portátil, claro, eu quero dizer 200 homens pra operar, 70 bois e 10000 homens pra transportar de um lugar para outro. Esse bicho era tão impressionante em termos de tecnologia que continuou em serviço por 343 anos, sua última ação foi nas Dardanelas, quando foi usada contra navios britânicos e causou 28 baixas entre os súditos de Sua Majestade.

A vulnerabilidade dos canhões foi resolvida quando inventaram o fogo indireto, você atira além do horizonte, ou por sobre um morro, o inimigo é atingido sem saber de onde o fogo vem. A forma de contra-atacar isso é com observadores, na Guerra Civil dos EUA era comum o uso de balões, e mais tarde com o desenvolvimento da aviação militar, passou a eles essa responsabilidade, mas isso não resolve quando o inimigo ataca de surpresa e você não tem ninguém no ar.

Calcular a trajetória de um projétil é algo que por muito tempo não deu muito certo, boa parte da culpa disso é de Aristóteles, mais uma vez provando que filosofia é uma bobagem que não deveria ser usada para estudar fenômenos do mundo real, ele definiu que todo corpo em movimento precisa de uma força e se essa força cessa o movimento cessa junto, então um projétil, como uma flecha (canhões não haviam sido inventados) segue em linha reta, em ângulo, então embica e cai igualmente em linha reta.

Claro que se o sujeito tivesse se dado ao trabalho de OLHAR uma flecha sendo atirada veria que não funciona assim, mas como ninguém ousava contrariar Aristóteles esse modelo persistiu por 1700 anos.

Para saber mais:

Aristotle, projectiles and guns – Stephen M. Walley

Em um mundo ideal, esférico no vácuo um projétil seguiria uma trajetória parabólica perfeita, mas na Terra temos que levar em conta a resistência do ar, então uma trajetória de um tiro de canhão fica mais parecida com isto:

Em teoria é bem simples determinar a origem do tiro, se você tiver dados como ângulo e velocidade terminal, mas isso se complica quando começam a entrar outros fatores, como densidade do ar, temperatura ambiente, velocidade e direção do vendo, etc. Ah sim, e tudo isso é em 3D.

Já na Segunda Guerra era possível usar radar para detectar um projétil de artilharia, mas seria complicado levar um computador da época para a frente de batalha, fora ter que pedir pro projétil ficar parado no ar pelos dois ou três dias que ele levaria calculando a trajetória.

Quando a tecnologia dos computadores avançou do tempo em que eram feitos com barro fofo e pedra lascada, foi possível criar sistemas de detecção de artilharia razoavelmente portáteis, e em 1972 começaram o desenvolvimento do que chegaria às mãos do Exército dos Estados Unidos conhecido como AN/TPQ-37 Firefinder.

É um sistema de radar capaz de rastrear 10 alvos simultaneamente, com alcance de 50Km. Ele funciona para mísseis, foguetes, projéteis de artilharia e morteiros. É capaz não só de identificar a origem do disparo como também calcular exatamente onde ele vai cair. Ele e suas variantes estão protegendo bases avançadas americanas nos lugares mais cabeludos do mundo.

Só que esse sistema tem um calcanhar de aquiles, este brinquedo aqui:

É um  Kh-58, um míssil anti-radiação mas isso não quer dizer que ele evite que você pegue câncer. O objetivo é neutralizar radares inimigos. Ele usa as emissões como guia e consegue atingir alvos a 200Km de distância, detonando uma ogiva de 149Kg de pura democracia russa.

Antigamente existia a possibilidade de desligar o radar, o que resolvia o problema do míssil mas nesse meio-tempo seu radar não funciona também. Hoje os mísseis são espertos o bastante para se lembrar onde estava o transmissor, e mesmo desligado, é pra lá que ele vai.

Idealmente, um sistema desses deveria funcionar sem precisar de radar, mas como?

Entra em ação o sistema 1B75 Penicillin!

Ao contrário dos sistemas tradicionais ele é 100% passivo (ui!) e utiliza câmeras convencionais e infravermelhas, sensores acústicos e quatro sensores sísmicos instalados distantes do veículo principal. Eles triangulam lançamentos, detonações e identificam as trajetórias dos projéteis, computando ponto de lançamento e de impacto.

O alcance é de só 25Km, o que dá menos tempo de reação para os sistemas de armas que eventualmente serão acoplados a ele.

Construído pela Ruselectronics, uma estatal russa (claro) o 1B75 Penicillin já passou por todos os testes e aprovado com louvor terá as duas primeiras unidades entregues em 2020.

Fonte: RT

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