Quando os gênios americanos construíram um navio no meio do deserto

Quando a guerra acabou os EUA levaram para casa além dos cientistas muitos mísseis V-2, que foram a base do programa espacial e armamentista do país. Um desses mísseis foi testado em 1947 no convés do porta-aviões USS Midway, pois a Marinha queria descobrir se era possível lançar um míssil de um navio. Depois de quase bater na ponte de comando, perder o rumo e cair bem próximo à frota, alguém percebeu que talvez fosse melhor fazer testes em condições mais seguras, então construíram um navio no meio de um deserto.

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A Marinha ficou realmente preocupada com a idéia de uma V-2 explodir no convés de um navio e, para testar isso, construíram uma réplica no deserto. O local escolhido foi o futuro Campo de Mísseis de White Sands, no Novo México, a quase 700 km do mar.

A V-2 foi colocada em uma plataforma com cargas explosivas em duas das quatro pernas. O motor foi acionado e imediatamente as pernas seccionadas. O foguete caiu, explodiu e demonstrou que realmente um lançamento mal-sucedido é extremamente prejudicial à saúde de um navio:

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Comprovado que era melhor testar mísseis em terra, foi iniciada a ampliação da base. Em verdade a Marinha decidiu construir um campo de testes mesmo antes de ter qualquer programa de mísseis em andamento, assim quando os programas surgiram a base acompanhou, e a instalação principal ficou pronta justamente quando começaram os testes do míssil Talos, este bicho aqui:

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O Talos é resultado final do Projeto Bumblebee, criado para enfrentar a ameaça de bombas teleguiadas nazistas e kamikazes japoneses. Havia outros mísseis e canhões automatizados, mas o Tales era a arma principal, ele teria um motor RAMJET capaz de atingir alvos a até 240 km de distância. Isso com tecnologia de 1958, onde o sistema de guia era provavelmente um estagiário com um ábaco, por isso a ogiva era pequena, só tinham espaço pra 211 kg de explosivos.

Claro, quando o alvo passou a ser bombardeiros soviéticos os americanos passaram pra grosseria e equiparam o Talos com uma ogiva nuclear W30 de 5 quilotons. O segundo radar, responsável pela guiagem final foi até retirado desse modelo. Quem precisa de precisão pra matar uma formiga com uma montanha.

Ah sim aqui o teste da V-2 que quase mandou o Midway pra vala:


XPlaneFly — V2 rocket launch from USS Midway Aircraft Carrier (1947)

Os testes foram feitos no chamado Launch Complex 35, cuja principal construção reproduz a estrutura interna de um navio, para que seja possível testar sistemas e procedimentos da mesma forma que seriam usados em embarcações. O complexo fica em 32°24′14″N · 106°20′39″W e foi chamado meio de brincadeira de USS Navio do Deserto, ou USS Desert Ship.

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O nome meio que pegou e quando ficou pronto o prédio foi devidamente batizado com uma garrafa de champanhe, e o nome pintado no “costado”:

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A designação LLS-1 significa “landlocked ship”, mas mesmo essa situação pouco ortodoxa não impediu a burocracia de entrar em ação. Mesmo de brincadeira a designação USS, de United States Ship só pode ser atribuída pelo Congresso, que se reuniu para dar uma autorização especial. Não é uma comissão de verdade: o USS Desert Ship não é tecnicamente um navio, mas o nome é aprovado.

Apesar de não parecer muito bom-senso a Marinha ter instalações no meio do deserto, estrategicamente faz bastante sentido. No meio do nada eles estão fora do alcance dos vôos espiões russos, submarinos curiosos e, em uma época em que satélites espiões ainda estavam em sua infância, podiam testar seus mísseis sabendo que os únicos olhinhos vermelhos que os veriam seriam dos hippies que iam acampar no deserto pra fumar cigarrinho de artista.

O USS Desert Ship continua em uso até hoje, tendo sido usado para testar os principais mísseis em uso pela Marinha dos EUA. Quanto ao Talos, só foi descontinuado 21 anos depois de sua entrada em serviço, o último foi lançado em 1979, depois de uma honrosa carreira. Seu primeiro uso bem-sucedido em combate foi em 1968, quando derrubou um MiG vietnamita a 100 km de distância do USS Long Beach.

Curiosamente esse não é o único navio em terra da Marinha. Do outro lado do país, em Nova Jersey, o Exército construiu uma instalação de pesquisas, mas depois de alguns anos o prédio ficou sem utilidade. A Marinha se ofereceu pra comprar, pagou US$ 1,00 e nascia um centro de pesquisas de sistemas AEGIS, o sistema de combate envolvendo radares computadores mísseis etc que torna um simples destróier como o USS Nathan James em uma máquina de guerra temível.

Como simbolismo a Marinha aproveitou a superestrutura de um cruzador nuclear que desistiram de terminar de construir, espetou o negócio no teto e viraram sem-querer ponto de referência.

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Navios terrestres não são exclusividade americana. A internet ficou encucada quando descobriram esta cópia de um porta-aviões classe Nimitz na China, perto de Shanghai:

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Ou este, em Binzhou:

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As teorias eram muitas, as mais populares envolviam instalações secretas de treinamento de comandos especiais para invadir e dominar um porta-aviões dos EUA, mas no final a realidade era em menos sinistra.  Ambos feitos de concreto, o segundo porta-aviões é um shopping-centre, e o primeiro é um hotel em um parque temático para crianças.

Fonte: The Drive.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e para seu blog pessoal, o Contraditorium,

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