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Apple quer plataforma de TV sem sexo, drogas ou violência. Boa sorte.

A Apple está gastando US$ 1 bilhão para produzir conteúdo para seu canal de TV online, a má-notícia é que está produzindo o tipo de conteúdo que não passaria nem na Sessão da Tarde por ser careta demais.

24/09/2018 às 20:01

Eu vou contar um segredo: todo mundo gosta de sacanagem. E não é de hoje. O Papiro Erótico de Turin é mais ou menos de 1150 AC, e mostra um monte de cenas de alta safardanagem, quase um Kama Sutra na areia. Romanos adoravam pichar paredes com “arte” erótica, e a vida sexual das figuras famosas era assunto preferido, até hoje conta-se histórias suculentas da Imperatriz Messalina, que trabalhava disfarçada em um bordel atendendo por “A Loba”, e certa vez ganhou uma disputa om uma prostituta ao dormir com 25 homens em 24 horas, sem descansar.

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Hoje nada mudou, a América parou para ouvir os relatos de Monica Lewinsky e o charuto do Clinton (não é uma figura de linguagem). Essa semana a internet arrancou os cabelos por causa da Bat-Piroca, e nos EUA boa parte da mídia ficou discutindo o livro da porn star Stormy Daniels, que descrevia o bilau presidencial em detalhes. Segundo ela Trump tem um pênis “abaixo da média mas não assustadoramente pequeno”, mas a cabeça lembra “aquele personagem cogumelo do Mario Kart”.

Boa parte de nossa arte é erótica por natureza, das poesias de Safo aos afrescos de Pompéia ao Cântico dos Cânticos, na Bíblia. Toda inovação tecnológica, da impressão com tipos móveis ao videocassete foi cooptada rapidamente pela turma da sacanagem, produzindo e vendendo material por baixo dos panos.

Nos tempos Vitorianos a sociedade inglesa era extremamente puritana, com exageros como este biombo que faria a alegria da vida do Al Bundy:

Ao mesmo tempo na calada da noite a sociedade estava usando e abusando da prostituição, literatura erótica era impressa e vendida tão rápido quanto saía das prensas, e até os gays ganhavam um refresco, usufruindo um período onde eram aceitos nos círculos intelectuais, só vindo a ser criminalizados no final do século XIX.

Em outras áreas tivemos duas Guerras do Ópio, onde os ingleses forçaram na base do canhão a China a aceitar a importação de ópio indiano. Isso mesmo, é como se os EUA comprassem cocaína da Colômbia e usassem a 6ª Frota pra bombardear a França até eles aceitarem comprar a droga.

Drogas aliás eram a brincadeira da vez no Ocidente. Os recém-inventados anestésicos eram rapidamente desvirtuados para uso recreativo, eram famosas as chamadas “Ether Frolics”, festinhas onde o pessoal de classe média alta se reunia para cantar, dançar e cheirar éter, não necessariamente nessa ordem. Óxido Nitroso, o gás do riso também fazia parte dessas brincadeiras.

Os mais sérios defensores da moral e dos bons costumes não abriam mão de seu Brandy, ou de seu Gin. Cada vez que tentou-se proibir o consumo de substâncias recreativas o tiro saiu pela culatra, seja a inútil guerra às drogas que consumiu incontáveis bilhões de dólares sem nenhum resultado, seja a Lei Seca que gerou Al Capone e toda a cultura de gangsters de Chicago.

Em termos de violência, bem… xadrez é basicamente uma guerra estilizada. Ouvimos histórias de grandes guerreiros (sorry, Yoda) desde antes da invenção da escrita. Nós somos macacos pelados especialmente violentos e gostamos de outros macacos pelados violentos do nosso lado, pois eles nos protegem dos macacos pelados violentos do outro lado do rio.

Além do sexo a violência é outra característica sempre presente em nossa arte, mesmo os mais pacifistas usam metáforas belicistas, como “lutar” pela paz. Nós gostamos de histórias de violência, desde a antiguidade que relatos de guerras fazem sucesso. Jornais mandavam correspondentes para guerras distantes pois isso gerava muitos e muitos leitores.

Illustrated Police News era um tablóide inglês que existiu de 1864 a 1938, era indistinguível de jornais como o Notícias Populares, a diferença era que em vez de fotos ele usava ilustrações para detalhar os crimes, sempre sangrentos. Eles adoraram quando Jack o Estripador surgiu, toda edição era dedicada a ele.

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A condição humana é refletida na arte que consumimos, uma das máximas da publicidade é que sexo vende, e por mais que ondas moralistas surjam e desapareçam, anúncios mais ou menos safados sempre existirão, a menos que os millennials consigam alterar 4,2 bilhões de anos de evolução (dica: não vão conseguir).

Sexo vende de Sukita a disquetes, que o diga a Gostosa da Datadisk (não é do seu tempo). Por mais que pareçam sem sentido e apelativos hoje, os anúncios de antigamente funcionavam, e pode ser que em 20 anos nossos anúncios sejam considerados moralistas OU igualmente exagerados.

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Nós gostamos de ver histórias de crime e castigo, entendemos a violência punitiva e a queremos em nossa ficção. O PRIMEIRO filme ficcional, L’arroseur arrose, produzido pelos Irmãos Lumiere em 1895 já mostra uma cena de violência, quando o garoto que faz a brincadeira com o jardineiro leva umas palmadas. Na segunda versão, de 1896, o garoto é substituído por um homem e ele leva uns bons chutes no traseiro, assista:


Silvano Preziosi — Louis & Auguste Lumière – L’arroseur arrose’ – 1896

Nós gostamos de sexo, violência, crime, Lei e Ordem não está no ar tem uns 80 anos e 25 spin-offs por nada. Westworld e Game of Thrones, duas das séries mais populares do momento são verdadeiros rios de sangue e outros fluídos corporais, mesmo séries lacradoras como Sense8 têm altas cenas de luta.

Claro, sempre há quem goste de se enganar, como o TNT, que passa versões censuradas de filmes, removendo às vezes cenas inteiras e trocando diálogos e palavras. No Era de Ultron eles trocaram o “shit” do Tony Stark por um… “Damn it”.

Originalmente o canal deveria passar filmes “corretos” e família, seguindo o gosto pessoal de Ted Turner, mas mesmo com censura desnecessária eles já passam muita coisa fora dos padrões originais, como Instinto Selvagem. Até mesmo as produções originais não são mais inocentes, The Last Ship costuma ter episódios bem violentos.

Agora a decisão de tapar o sol com a peneira caiu nas mãos da Apple, que quer competir com Amazon HBO e Netflix vendendo seu próprio canal de produções originais, com orçamento de US$ 1 bilhão. Só que não vai dar certo.

Eles querem competir com Game of Thrones e House of Cards mas não querem que as séries mostrem “sexo, palavrões ou violência”. Querem manter no nível de uma TV aberta, programação vespertina, nada de Sala Especial ou similares.

Tim Cook em pessoa vetou a série sobre a vida do rapper (acho que é rapper) Dr Dre, depois que viu o piloto e achou violento demais com armas, cenas de consumo de cocaína e uma orgia, ou como Mc Hammer chamaria, um bom começo de sábado.

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Eles estão produzindo um programa estilo talk show matinal com a Jennifer Aniston e a Reese Witherspoon, e vai sair caro, US$ 12 milhões por episódio, mas mandaram refazer do zero, não gostaram do estilo de humor. O novo Amazing Stories? Demitiram o Bryan Fuller por achar que a série estava ficando muito dark. Bryan Fuller é responsável por séries como Hannibal, Deuses Americanos, Star Trek Discovery, Heroes, Pushing Daisies, Dead Like Me, Voyager e Deep Space Nine.

Enquanto a Netflix prestigia shows corajosos como os de Ricky Gervais e Dave Chapelle, a Apple cancelou um especial de stand-up da Whitney Cummings por fazer piadas com a turma do #MeToo, a Apple está “preocupada com temas sensíveis”.

A cereja do bolo foi uma série que está sendo produzida por M. Night Shyamalan. Eles mandaram remover todos os crucifixos da casa dos protagonistas pois não querem “se meter com religião”.

Basicamente a Apple está criando um canal que está sendo chamado internamente de “NBC Cara”. Um canal que não passará nenhum programa no estilo dos programas que fazem as pessoas assinarem canais premium e, caso Tim Cook não saiba, os outros canais premium também tem conteúdo família.

O pior de tudo isso, o mais trágico e irônico é que a Apple, empresa tradicionalmente progressista, vanguardista, apoiadora de reformas sociais, campeã de direitos LGBT e outras causas sociais, empresa com um CEO abertamente gay vai prover um conteúdo que é o sonho molhado da ala conservadora caxias e carola.

Fonte: Fortune de novo, mas com autoplay, sem link.

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