Austrália prestes a legalizar bebês com três pais

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Normalmente uma criança com três pais é fruto de uma daquelas festinhas de embalo caprichadas, onde ninguém é de ninguém e acaba-se com um rabo-de-galo de DNA. Ou, como é mais frequente, tudo começa com uma intervenção genética para salvar uma criança da morte certa.

Os dois pais no caso são duas mães, o procedimento é uma daquelas magias tecnológicas que soam como ficção científica, mas já são feitas tem pelo menos 6 anos. Basicamente envolve este bichinho aqui:

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É uma bolsomitocôndria, a mais interessante das organelas celulares. Ela parece uma bactéria, e a teoria mais popular é que muito, muito tempo atrás (uns 5.900 anos se você estuda no Texas) uma bactéria entrou em uma célula e desenvolveu uma relação de simbiose.

As mitocôndrias possuem DNA próprio, e são 100% das vezes repassadas somente pela mãe. A desvantagem é que elas acabam desenvolvendo doenças próprias, e é basicamente impossível tratar doenças de DNA mitocondrial.

A solução? Você pega um óvulo de uma mulher sem doenças mitocondriais e o óvulo da futura mãe. Retira o núcleo do óvulo da mãe, que é onde está todo o DNA suculento de primeira que garantirá ao futuro Cléverson Carlos seus olhos azuis, e o implanta no óvulo da doadora, que antes teve seu núcleo removido.

Fecha-se tudo, apresenta-se o Sr óvulo de roupa nova ao Sr Espermatozoide, e como eles se amam muito, dão um abraço especial e… — ok essa analogia está complicada sem uma analogia feminina pro óvulo. Úvula? Não, ela costuma ver espermatozoides mas em desvio de função.

Ok: o óvulo é fecundado, a criança se desenvolve com todas as características genéticas do pai e todas as da mãe menos as mitocôndrias, e seus descentes estarão livres da doença que a teria matado ou prejudicado pelo resto da vida.

Como era de se esperar a técnica é mal-compreendida pelo comentarista de portal que se comunica por grunhidos, e despertou bastante polêmica, com as acusações de sempre: eugenia, brincar de deus, há coisas que os cientistas não devem mexer, etc.

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O curioso é que a técnica que permite que esse óvulo manipulado seja usado foi alvo das MESMAS críticas no começo dos anos 80: a Fertilização In Vitro, o popular bebê de proveta, algo tão comum hoje em dia que as pessoas nem mencionam que nasceram graças a ela.

Na época o Vaticano chilicou, um monte de gente fez previsões apocalípticas de bebês-frankenstein, e havia até o argumento de que bebês de proveta não seriam criação divina então nasceriam sem alma, o que é um absurdo sem nenhum embasamento científico, todos sabemos que só os bebês ruivos não têm alma.

Agora a mesma Inglaterra que foi pioneira na fertilização in vitro é pioneira na terapia mitocondrial, é o primeiro país onde o procedimento é Legal, desde 2016. Singapura está discutindo o assunto, e agora parece que serão atropelados pela Austrália.

Um comitê do Senado passou três meses estudando o processo, e confirmaram que a técnica não envolve edição de DNA, nem pode ser usada para criar “bebês de butique”, com características escolhidas pelos pais. Isso are caminho pra uma legislação aprovando o procedimento no país.

Em média são 60 bebês com doenças mitocondriais nascidos na Austrália todos os anos. Esse número pode ser reduzido virtualmente a zero com a técnica.


Fonte: Inverse.

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e para seu blog pessoal, o Contraditorium,

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