Parem de chamar aquele brinquedo do Larry Page de carro voador!

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Que a mídia tem memória de peixe dourado azul não é novidade, mas as pessoas também não colaboram, vivem batendo palma pra bobagens, deslumbradas com as mesmas manchetes sensacionalistas de sempre. É o caso do “carro voador” da startup bancada por Larry Page, do Google.

Até o deslumbrado do Casey Neistat se deslumbrou, fez um vídeo intercalando as imagens do bicho voando com cenas d’Os Jetsons. HELLO?

Ele batizou o vídeo de “Eu pilotei o primeiro carro voador”


CaseyNeistat — I FLEW THE FIRST FLYING CAR!!!!

Err… hello?

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Carros voadores não são novidade, eles só nunca foram e continuam não sendo práticos. Isso que o pessoal da Kitty Hawk está vendendo nem chega a ser um carro, até porque NÃO TEM RODAS, é um brinquedo, só isso.

Como demonstrado ao contrário de Ruby, drones escalam, mas por causa da Lei dos Quadrados e dos Cubos, você precisa de muito mais energia e isso se reflete nos números de performance.

Flyer tem nada menos que DEZ motores. Mesmo assim ele só consegue velocidade de 32 km/h, altitude máxima de 3 metros e autonomia de 20 minutos, que convertidos em distância dão 10 km.

O tempo de vôo é bem pior do que um drone decente, e é exatamente isso que o Flyer é. Um dronão.

Eles removeram toda a complexidade, usaram provavelmente os mesmos chips que controlam automaticamente drones, cuidando de toda a parte de estabilização e orientação. E removeram todo o peso extra.

Flyer tem dois controles, uma manete de potência e um manche que faz a movimentação esquerda direita frente trás. Mais nada. Sem telas, indicadores, painéis. Isso significa também que ele não tem qualquer redundância. Uma falha catastrófica em um dos motores, e você já era.

Máquinas de voar nada práticas não são exatamente novidade:


spottydog4477 — US Army trial Nazi concept one man flying machines

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A Hiller VZ-1 Pawnee, chamada de Rosquinha Voadora foi desenvolvida em 1953, era surpreendentemente estável e atingia 26 km/h, voando a 10 metros de altura, mas não foi considerada prática e acabou abandonada.

Já o de Lackner HZ-1 Aerocycle humilhava o brinquedo do Page. Ele voou pela primeira vez em 1954, atingia 121 km/h, autonomia de 45 minutos ou 24 km e tinha teto de 1.500 metros. Em 1954.

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Óbvio que as pessoas não se entusiasmaram muito com a idéia de fiar precariamente em cima de duas hélices girando a milhares de RPM prontas para Thanosificar o infeliz que escorregasse da plataforma, e por esse entre outros motivos o projeto foi cancelado. O piloto de testes chegou a ganhar uma medalha por ter sobrevivido a dois acidentes graves.

Lembram daqueles projetos de moto voadora, revolucionário que ia mudar o mundo?

Este é o Piasecki VZ-8 Airgeep, voou pela primeira vez em 1959, tinha velocidade máxima de 136 km/h, alcance de 56 km e teto de 914 m.

Millenials estão firmes e fortes reinventando a roda, com uma dose de deslumbramento que chega a ser comovente, mas como vamos avançar esquecendo do passado e repetindo tudo num loop infinito Dormammu eu vim barganhar?

E sim, claro que eu acho divertidíssimo o brinquedo do Larry Page, eu adoraria que fizessem uma versão com mais uns 50 motores e lançassem a Blogueiro Edition, mas é um brinquedo, nada mais. E essa é a questão. “Incrível e revolucionário carro voador do fundador do Google” é uma manchete muito mais simpática do que “investidor bilionário fomenta empresa que cria brinquedo caro pra gente rica”.

De resto, o Aerocar, que voou pela primeira vez em 1949 é muito mais carro voador do que o Dronão.

 

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Autor: Carlos Cardoso

Entusiasta de tecnologia, tiete de Sagan e Clarke, micreiro, hobbysta de eletrônica pré-pic, analista de sistemas e contínuo high-tech. Cardoso escreve sobre informática desde antes da Internet, tendo publicado mais de 10 livros cobrindo de PDAs e Flash até Linux. Divide seu tempo entre escrever para o MeioBIt e para seu blog pessoal, o Contraditorium,

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