Metal Gear Survive — Review

Quase dois anos depois, a Konami finalmente lançou o primeiro game de uma de suas maiores franquias após a partida de seu desenvolvedor mais famoso: Metal Gear Survive é o título que revisita a obra de Hideo Kojima e adiciona uma série de novas ideias e abordagens, com uma jogabilidade e identidade própria, mas falha em diversos aspectos e não é tão memorável quanto deveria ser.

Acompanhe nossa resenha e descubra o que este game traz (ou não) de especial.

Enredo pirado, jogabilidade sem sal

A trama de Metal Gear Survive segue as maluquices mirabolantes da franquia, e nisso é bom ver que a Konami não perdeu a mão. Os eventos do game ocorrem entre Metal Gear Solid V: Ground Zeroes e Metal Gear Solid V: The Phantom Pain, em que o jogador encarna um “capitão” da base original dos Militaires Sans Frontières, a organização paramilitar que Snake/Big Boss criou como “uma nação de soldados”, que foi aniquilada após um ataque da XOF. Acontece que um portal misterioro surgiu do nada naquele dia, sugando tudo o que encontrou pelo caminho.

Basicamente, o jogador é jogado em uma misteriosa realidade alternativa, tendo não só que se virar para sobreviver e encontrar outros membros de seu antigo esquadrão e de outras missões que foram mandadas para lá, como deve evitar a invasão de estranhas criaturas parasitas, que invadem os corpos dos mortos lhes dando o aspecto de zumbis com cabeças de cristal. Como eu disse, é uma maluquice.

A decisão da Konami em levar a franquia Metal Gear para outra dimensão ofereceu uma nova forma de jogar: em The Phantom Pain você contava com uma cenário de mundo aberto, mas o foco permanecia em se manter sempre indetectável pelos inimigos. Aqui não, temos um game focado em estratégias de combate em grupo e sobrevivência, e nisso Metal Gear Survive é até bem original.

Você tem à sua disposição um arsenal até que variado, mas os recursos são escassos e por isso mesmo é possível abater os zumbis não apenas com armas de fogo, mas também com técnicas de combate corpo a corpo utilizando facas, lanças e bastões que você deverá fazer e reparar frequentemente. O sistema de crafting introduzido permite que você colete materiais, mas terá que depender de manuais que lhe permitam obter o conhecimento necessário para aprimorar ou criar novas armas.

O stealth está lá, claro, é uma marca registrada da franquia e não poderia ser removido. Em situações controlada é possível se esgueirar por trás de um zumbi e abatê-lo, ou evitar entrar em combate caso sua energia esteja baixa. Sobre isso, o sistema de sobrevivência adicionou uma camada maior de dificuldade ao obrigar o jogador a administrar seus índices de fome e sede (e posteriormente de oxigênio), bem como cuidar de sua saúde.

A premissa é simples, se você não beber água ou não se alimentar regularmente perderá resistência e poderá até morrer, porém não é aconselhável comer qualquer tipo de animal ou beber água do riacho: você é forçado a coletar os materiais, voltar para a base e cozinhar a carne dos animais que caçar, e até mesmo ferver a água e torna-la completamente potável. Se você consumir água sem tratamento ou carne crua ficará doente, com status negativos que tornarão sua missão ainda mais difícil.

Administrar o vigor do personagem também é importante: só o ato de andar normalmente, ou de andar agachado consome a barra, correr ou entrar em combate acelera ainda mais o processo e a única forma de recupera-la é se mantendo parado, o que não é aconselhável em situações de combate. Por isso é importante recrutar mais soldados para a sua base, reforça-la com cercas e sentinelas para defende-la contra ataques dos zumbis e pensar em cada passo a ser dado, desde invadir um laboratório que fica muito longe a simplesmente sair para caçar e coletar água.

Pensando dessa forma é como se os personagens fossem caçadores-coletores high tech, o que é verdade mas infelizmente a Konami tornou tudo muito desequilibrado. Tudo em Metal Gear Survive é bastante punitivo, um passo errado pode ter sérias consequências e é preciso colocar um grande esforço e desenvolver estratégias sólidas apenas para fazer o básico no game, que é não morrer.

E essa dificuldade elevada tem uma razão de ser obviamente: o título, embora não seja gratuito emprega as piores soluções do modelo freemium, sendo um autêntico Pay-to-Win.

“♪ Oh lelê, oh lalá, espere um pouquinho, vamos faturar! ♫”

Conforme você avança no game, a dificuldade escala de tal forma que é muito difícil prosseguir sem fazer um planejamento extremo de suas ações, e é nessa hora que as microtransações se tornam a tábua de salvação de muita gente. É possível adquirir pacotes de boost, que darão mais energia Kuban e Battle Points conforme você joga (por um, sete, 30 ou 60 dias) e isso infelizmente manda o sentido do game para o lixo.

Como jogo de sobrevivência, ao oferecer uma saída fácil (e muito fácil) para contornar as dificuldades permite que jogadores com bolsos fundos maximizem seus status e fiquem totalmente desequilibrados em relação ao desafio oferecido e em comparação a outros, que não querem gastar e não são forçados a fazê-lo. Mas serão incentiva-los a comprar as moedas virtuais o tempo todo.

O descaramento da Konami em querer arrancar o dinheiro do jogador é tamanho que só é possível abrir um novo slot de salvamento de progresso utilizando as moedas virtuais. Se você logar todos os dias reunirá o suficiente para fazê-lo em 34 dias, o que já é absurdo mas se não quiser esperar, será forçado a gastar seu dinheiro apenas para manter mais de um progresso e personagem em Metal Gear Survive.

De todas as ideias imbecis que já vi desenvolvedoras empregarem em se tratando de monetizações, esta conseguiu superar de longe a decisão da Capcom de vender o final verdadeiro de Asura’s Wrath como um DLC; o que foi vergonhoso, este é um excelente game que acabou com uma mancha horrível em seu histórico, graças à fome louca por dinheiro do estúdio.

Aqui, a Konami conseguiu ser ainda mais mesquinha.

O game por sorte não é exclusivamente online, a campanha offline é bastante interessante e embora seja um título Always Online, não o força a jogar com outras pessoas se você não quiser. O que é excelente, já que a jogabilidade do modo online é um mero Tower Defense, em que você precisa defender um reator de ondas e ondas de zumbis. Embora bem feito, é enjoativo e nada original.

Por outro lado, tecnicamente o game é um primor: a Fox Engine oferece gráficos de primeira qualidade e roda-lo no PS4 Pro, mesmo com uma TV apenas Full HD oferece uma quantidade de elementos, efeitos de luz e sombra muito bons (imagine no Xbox One X ou num Windows PC com todas as configurações no máximo). O som é adequado, as músicas são boas e há a opção inclusive de trocar a dublagem para inglês ou japonês caso o jogador assim deseje. Por fim os controles são simples e intuitivos, quem jogou qualquer outro game da série Metal Gear se sentirá em casa.

O grande pecado de Metal Gear Survive, no entanto é ele não ter carisma. Ele conta com uma série de boas ideias que não foram bem implementadas e o abuso na monetização põe tudo a perder, destruindo o propósito do game e no fim das contas, oferecendo um título que não gera maiores reações no jogador. Ele é apático, ou como diria Immortan Joe “medíocre”, no sentido literal da palavra: absolutamente mediano, nem fede nem cheira.

Conclusão

Metal Gear Survive é o segundo game em um espaço de dois anos que merece o troféu secundário “Picolé de Chuchu”, com o primeiro sendo Mighty No. 9. Embora apresente uma série de novas ideias e um novo olhar sobre a franquia idealizada por Hideo Kojima, o primeiro game da série após sua partida da Konami falha em implementar as funcionalidades de um modo adequado e não consegue empolgar, prender a atenção, causar tensão, nada. Este não é um game é ruim, longe disso mas não é ótimo. Ele é apenas… meh.

Ao invés de aprimorar a jogabilidade a Konami decidiu tornar Metal Gear Survive artificialmente difícil, aumentando a dificuldade de modo a frustrar o jogador e força-lo a abrir a carteira, o que é uma estratégia rasa e lamentável para monetizar um game e que muitos desenvolvedores estão abraçando, e nem estou falando da ideia idiota de cobrar por um slot de save adicional. A estratégia Pay-to-Win é errada em qualquer cenário, o que enfraquece este título que se tivesse sido melhor refinado, seria um representante digno da franquia Metal Gear.

Só que da forma que se apresenta Metal Gear Survive está mais para o esquecível Snake’s Revenge, a sequência não-oficial do primeiro Metal Gear que a Ultra Games lançou para o Nintendinho em 1990, sem que Hideo Kojima estivesse envolvido. A única coisa para a qual ele serviu foi levar o desenvolvedor a dar início na franquia, com o canônico Metal Gear 2: Solid Snake que saiu no mesmo ano para o MSX.

Eu realmente esperava que Metal Gear Survive seria um game de qualidade, mas a verdade é que recebemos um título absolutamente esquecível, e dada a recepção as chances da Konami investir numa sequência ou mesmo continuar lançando outros games que não os da série PES para consoles são bem baixas. Afinal, sempre haverão os pachinkos para fazer grana fácil.

Cotação:

2,5/5 Martinex.


METAL GEAR SURVIVE Launch Trailer | Konami (ESRB)

Ficha Técnica

  • Título — Metal Gear Survive;
  • Plataformas — PS4, Xbox One e Windows via Steam (análise baseada na versão de PS4 Pro);
  • Desenvolvedora — Konami Digital Entertainment;
  • Distribuidora — Konami;
  • Preço — R$ 149,99 para PS4, Xbox One e Windows/Steam;
  • Pontos Fortes — roteiro continua sem pé nem cabeça, o que é ótimo; introdução de elementos de criação de itens e sobrevivência é um fator interessante; a Fox Engine continua mostrando por que é um dos mais poderosos motores gráficos;
  • Pontos Fracos — decisões lamentáveis de monetização (cobrar por espaço adicional para salvamento, Konami? Sério mesmo?); jogabilidade sem carisma; modo online “mais do mesmo”.

Agradecimentos à Konami pela cópia digital de Metal Gear Survive cedida para review.

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Autor: Ronaldo Gogoni

Profissional de TI auto-didata, blogueiro que acha que é jornalista e careca por opção. Autor do Meio Bit e Portal Deviante, podcaster/membro fundador/Mestre Ancião do SciCast e host/podcaster do Sala da Justiça.

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