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O Estranho Efeito Dzhanibekov

Efeito Dzhanibekov — qual a relação entre a Porta dos Desesperados e uma raquete de tênis atirada para o alto? Os dois se comportam de forma estranha e não-intuitiva, demonstrando que o Universo está pouco se lixando para o bom-senso e nossa necessidade de tudo fazer sentido.

3 anos atrás

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Uma das correntes filosóficas mais ridículas defende um Universo Antropocêntrico, onde o Homem é a Medida das Coisas, e tudo existe para nos satisfazer. Na prática a regra é clara: o Universo está obrando para nós, não há NENHUMA regra ou obrigação de que Ele seja justo, equilibrado ou faça sentido. Karma fora do Reddit não existe, seus atos têm consequências mas como o Filósofo Tom Riddle dizia, não existe Bem ou Mal, são conceitos abstratos e só. 

Acima de tudo o Universo não existe para fazer sentido. A imagem acima é um bom exemplo, mas existem casos igualmente contra-intuitivos. Um deles é o Problema de Monty Hall, algo muito simples, mas que deixou milhares de cientistas em negação, se recusando a aceitar até que por experimentação comprovaram ser real.

Imaginemos a Porta dos Desesperados, o clássico Game Show onde uma das portas contém um prêmio, outras duas contém um monstro/bomba/etc.

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Não é preciso ser PhD em exatas para saber que a chance de acertar a porta com o prêmio é de 33%, ou 1/3 (eu sei!). Você não sabe qual porta escolheu. Aí o apresentador abre uma das outras duas, e tem um monstro.

Neste momento ele pergunta se você quer mudar de porta ou ficar com a que tem.

Todas as células do seu corpo dizem que não faz sentido mudar. São duas portas, a que você escolheu e a outra. Uma contém o monstro, a outra o prêmio. 50% de chance, se você mudar continua com 50%. É como pedir cara, jogar a moeda e enquanto ela cai, mudar para coroa, certo?

Errado. O bom-senso, que não vale de nada no mundo real diz que a probabilidade mudou, mas matematicamente as chances são as mesmas. Antes você tinha 1/3 de chance de ter acertado o prêmio. As duas outras portas somadas representam 2/3 das chances.

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Quando o apresentador abre a porta com o monstro, ele não aumenta as suas chances de ter escolhido certo ou errado, sem mudar sua escolha você terá acertado em 1/3 das vezes. Só que ele também não afeta a probabilidade do resto. Se a sua porta tem 1/3 das chances de ser premiada, as outras duas têm 2/3 de chances. Quando o apresentador revela que uma das duas tem um monstro, a probabilidade do conjunto não se altera, então a porta que sobra agora tem 66% de chance de ser premiada.

Portanto quando o Sérgio Mallandro perguntar se você fica com a porta que escolheu ou quer mudar, mude. Suas chances de acertar vão dobrar. Faz sentido? Não, mas isto aqui também não faz:


Канал пользователя zapadlovsky — Эффект Джанибекова The Effect Dzhanibekova

A explicação científica mais simples é: chuta que é macumba. Se estudarmos mais um pouco esse comportamento completamente bizarro se chama Efeito Dzhanibekov.

Aqui nossos amigos russos demonstram com mais detalhe:


Roman Vladimirovich F. — про эффект Джанибекова -- (дополнительно, в описании под видео)

É uma demonstração linda de mecânica básica, aquilo que você aprenderia no colégio se não tivesse que aprender Geometria Caiapó ou Topologia Yanomami. O efeito tem a ver com Momento de Inércia que, no caso de objetos tridimensionais, significa 3 eixos livres.

Segundo o teorema se você induzir uma rotação em um objeto, ela será estável se for no eixo principal ou no secundário, mas se a força for aplicada no eixo intermediário, a rotação será instável e forçará a inversão dos outros eixos.

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Isso definitivamente não é uma simples curiosidade. Tem profundas implicações na forma com que estabilizamos nossas naves espaciais e sondas. Isso foi demonstrado de forma dramática em 1966, durante o vôo da Gemini 8.

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Parte da missão era acoplar com o veículo de testes Agena, experimentar vários sistemas, etc. Só que logo depois da conexão o Controle da Missão detectou que estavam girando. A Gemini tentou corrigir, mas a rotação voltou. O combustível do sistema de manobra orbital continuava caindo e depois de baixar as reservas para 30% conseguiram ejetar a Agena, mas a rotação aumentou e muito.

Por eliminação descobriram que um dos oito propulsores de manobra estava travado, acionando continuamente, forçando um giro descontrolado que chegou a 60 RPM. Os dois astronautas já estavam com visão de túnel e se fossem humanos lesmões como eu e você, teriam desmaiado.

Só que o piloto era um Jedi chamado Neil Armstrong. Ele desligou o sistema de manobra orbital e acionou os propulsores de manobra para reentrada. Usando a Força ele conseguiu zerar a rotação nos 3 eixos, mas pra isso consumiu 75% do combustível da reentrada. A missão foi abortada e tiveram que fazer um pouso no Pacífico, ao invés do Atlântico, mas ao menos sobreviveram.

O Efeito Dzhanibekov é algo tão simples que pode ser comprovado com um livro ou uma raquete de tênis, mas tem profundas implicações. É um caso clássico de Ciência de Verdade, onde observação gera hipóteses que são comprovadas por experimentação, e o experimentador foi homenageado. Ele tem esse nome por causa do cosmonauta Vladimir Dzhanibekov, que em 1985 demonstrou de forma prática o efeito.

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