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Charlie Charlie — demônio das profundezas ou: nah, você sabe que é idiotice...

Aquela bobagem do Charlie Charlie atingiu níveis de vergonha alheia épicos. Por onde começar? Era um viral de um filme. Gente que não tem a menor noção de como física de 4ª série funciona deu ataques sem nunca ter empilhado dois lápis. Pastores denunciaram o risco de invocar demônios. Escolas tiveram aulas suspensas e tumultos com crianças desmaiando em crises histéricas. Isso tudo em 2015. Não 2015 AC, 2015.

4 anos atrás

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O fascínio dos mortais com as Dimensões Escuras é bem antigo. Textos como o Paginarum Fulvarum, o Necronomicon, o Magdalene Grimoire ensinam como contactar essas dimensões, mas alertam que não é uma boa idéia. Mexer com os Senhores das Trevas não é saudável, magia sempre tem um preço e nesse nível o preço é alto demais.

Invocar demônios normalmente envolvia sacrifícios de sangue, mas de uns tempos pra cá o que antes era reservado aos mais avançados e poderosas satanistas e magii, virou lugar-comum. Qualquer idiota em uma encruzilhada arria uma oferenda e invoca um demônio.

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As portas do Inferno, antes raras e bem-guardadas foram trocadas por portas giratórias, e nem falo só de Sunnydale. Antigamente demônios corriam atrás de peixes grandes, tentando gente graúda. Mesmo em tempos modernos Damien cresceu para virar conselheiro do Presidente dos EUA.

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Agora demônios azedam leite, fazem estudantes perderem provas do ENEM e convencem homens safados a dar em cima da vizinha gostosa. Demônios são culpados até por homens que se engajam em atividade recreativa retrofuricular.

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Nosso mundo mediocremente assolado por demônios vem passando por uma trivialização inaceitável desses discípulos do Primeiro Entre os Caídos. Antigamente os Irmãos Winchester, que eram exímios Caçadores passavam uma temporada inteira para eliminar um demônio. Hoje eles despacham esses seres das trevas com uma eficiência que deixaria qualquer pivete do Rio de Janeiro com inveja.

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A suprema humilhação agora vem — que surpresa — da internet. Um pobre demônio mexicano de nome Charlie está sendo obrigado a multitaskear mais que office-boy de empresa com muito chefe folgado.

Invocar demônios razoavelmente decentes, como Abaddon, Asmodeus, Astaroth, Belial, Crowley e minha ex demandava rituais elaborados e encantamentos em latin como:

Attenrobendum eos, ad consiendrum, ad ligandum eos, potiter et solvendum, et ad, congregontum eos, 'coram me.”

Charlie? Basta você desenhar duas linhas em um papel, com SIM/NÃO intercalados, colocar dois lápis no meio, perpendiculares, perguntar Charlie você está aí? e esse demônio mexicano super-ocupado aparecerá para responder suas perguntas, pois se há algo que os demônios são é prestativos.

Há uma variação onde duas pessoas seguram três lápis cada uma, e assim como na versão de mesa, esse terrível demônio, oriundo das profundezas do inferno, imortal e dotado de poderes sobrenaturais… mexe os lápis.

Sim, Charlie Charlie é uma espécie de Ouija para retardados. A Ouija, você sabe, é que tabuleiro milenar divinatório criado em 1890 e vendido como jogo de salão, onde espíritos sobrenaturais são invocados e respondem perguntas movendo um apontador pela tabuleta e indicando letras e números.

Curiosamente esses espíritos paranormais perdem a conexão se você vendar os participantes.

Aqui uma compilação das mais incríveis e inexplicáveis (se você for completamente retardado) aparições de Charlie.

ReblopTV — Charlie Charlie Challenge Playing Pencil Game - Vine Compilation! (RAW VIDEO)

Essa cerimônia pagã virou modinha de internet, e tem bastante gente levando a sério, mesmo desconsiderando os adolescentes retardados e adultos não muito mais espertos que levam essa bobagem a sério.

Pastores evangélicos estão criticando a cerimônia dizendo que “invocar espíritos não é brincadeira”. Pior, mais gente levou a sério. Em Manaus, na Escola de Tempo Integral José Carlos Mestrinho a direção se reuniu com os pais dos alunos por causa de confusões causadas pela terrível cerimônia satânica.

Segundo relatos a brincadeira saiu de controle, com alunos gritando desesperados, correndo, outros dizendo que viram o demônio, gente desmaiando, etc. Sim, eu sei, o nome disso é retardo mental completo associado com histeria coletiva. Duvida? Veja o vídeo e morra de vergonha de dividir o mesmo Século XXI com essa gente:

Gabriel Santos — Brincadeira Do Charlie Em Manaus - Parte ll

Em um mundo ideal os professores aproveitariam a brincadeira para explicar que o lápis não se move sozinho, é um simples efeito da Física Newtoniana, um conjunto em equilíbrio precário sujeito a N forças externas, nenhuma delas sobrenaturais.

O lápis é muito leve, e posicionado em 90 graus em cima de outro se transforma em uma alavanca clássica. Arquimedes, em 1.843.421 AC entenderia perfeitamente. O fulcro no ponto de contato entre os dois lápis é perfeito para que a menor vibração seja transformada em movimento.

Correntes de ar do ambiente, as pessoas mexendo as mãos ou mesmo respirando e falando também movimentam o lápis.

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Normalmente exorcizar um demônio é complicado, não basta recitar o encantamento:

Exorcizamus te, omnis immundus spiritus

omnis satanica potestas, omnis incursio
infernalis adversarii, omnis legio,
omnis congregatio et secta diabolica.

Ergo draco maledicte
et omnis legio diabolica adjuramus te.
cessa decipere humanas creaturas,
eisque aeternae Perditionis venenum propinare. [pause]
Humiliare sub potenti manu Dei

No caso do Charlie Charlie fazer o demônio desaparecer só demanda uma redoma de prástico transparente e uma mesa firme. Mantenha todo mundo sem encostar na mesa, coloque os lápis dentro da redoma e invoque o demônio. O Inferno vai congelar e o lápis não vai se mover.

Pior, esse truque é muito velho, velho mesmo. Em 1980 um picareta chamado James Hydrick alegou ter poderes paranormais telecinéticos, e virou sensação na televisão nos EUA. Até que James Randi foi chamado e demonstrou que o canalha apenas soprava para movimentar os objetos. Sim, o picareta também movia lápis.

Randi, que não vale nada ofereceu US$ 10 mil pro cara usar os poderes psíquicos para movimentar as folhas de uma lista telefônica mas com pedacinhos de isopor em cima. O vídeo é hilário.

filmtubense — James Randi exposes Hydrick

Alucinações coletivas existem, nem por isso deixam de ser alucinações. Existe uma arte marcial inteira que é baseada nisso, é o tal de Kiai, uma palhaçada na qual os “mestres” projetam energia, tipo um haddouken. Assista esta demonstração de um “mestre”. Não, não é o Jackie Chan:

bladdan — Kiai master Yanagiryuken

Essas pessoas realmente acreditam que o tal mestre tem os poderes, e reagem de acordo. É uma espécie de efeito placebo na base da porrada. O perigo é que todo mundo se acostuma. Uma vez um “mestre” Kiai aceitou um desafio de US$ 5 mil para enfrentar um lutador de MMA. Quando o resultado óbvio ocorreu, a desculpa foi que como o lutador não era treinado em Kiai, não sabia como reagir. Ou seja: o Kiai só funciona se você estiver ciente das regras? Tanto faz, veja, é hilário e gratificante:


Brand Kung Fu — Knockout Kiai Master vs Young MMA fighter - you can actually see what happens

Vivemos em um mundo assolado por demônios e adoramos. Todos os vídeos explicando o fenômeno não devem acumular uma fração das visualizações de Vines, Instagrams e YouTubes de adolescentes histéricas gritando “é o demonho!”.

Se livrar do Charlie Charlie é simples, complicado é se livrar do demônio da ignorância, que faz com que tanta gente se impressione e tenha ataques histéricos por causa de algo tão mundano. Uma pena, mas a pichação na frente da tal escola de Manaus me parece bem precisa.

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P.S.: a cereja do bolo? Aparentemente os retardados tendo ataques por causa do Charlie Charlie estão vendo entidades sobrenaturais fictícias (eu sei, tecnicamente todas são). O tal demônio e a brincadeira são parte da campanha viral do filme de terror The Gallows.

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